Festa de aniversario High-res version

A Humanidade em Festa

 
Pode ser que você saiba explicar a marcha do mundo, a essência da vida, a densidade dos seres e a identidade dos contemporâneos ao nosso redor. Na verdade, não sabe, você é apenas impotência, pálida sombra entre sombras, pura pretensão. Você não sabe nada, mesmo quando acha que sabe: a cegueira inconsciente arrogante é o último limite, castrador, ainda em pauta para reduzir a potência de cada ser humano, transformar a vida em trajeto mecânico, voo no vazio. Há um jogo de poder sedento para transformar o sujeito em massa de manobra, este é o sentido da nossa época.

 

Por isto, você e eu e todos, cada um, na multidão, cabeças ocas de um rebanho, somos apenas atos anônimos hesitantes, desprovidos de razão, distantes de qualquer poder além da gestão miúda do cotidiano. A constatação, violenta, é para rir – e você pode vê-la no palco numa comédia. Não se trata de uma comédia para o riso franco, como na comédia de costumes, mas, antes, uma comédia para se espantar, rir de medo: trata-se de uma comédia de ameaça.

 

Ficou curioso? Pois vá ver A Festa de Aniversário, de Harold Pinter (1930-2008), em cartaz no Teatro Poeira, excelente direção de Gustavo Paso, programa teatral imperdível, um dos cartazes obrigatórios da temporada. É aquele teatro sério de qualidade, de alto coturno. Vá ver.

 

O texto é de 1957, portanto procure vê-lo em profundidade, mais além do quintal autoritário da aldeia. Trata-se de um grande clássico do teatro contemporâneo. Apesar das dificuldades de recepção e de crítica na sua estreia, quando foi considerada obscura, a peça atravessou o desafio do tempo e se tornou uma referência poética importante do século XX. Representa uma sofisticação formal do naturalismo, com situações realistas corriqueiras fundamentando uma radiografia das grandes forças subterrâneas da sociedade de massas.

 

Vale dizer, continua atual, contundente, pois a era do individualismo e do massacre do indivíduo, processos complementares, está aí. O desenho da trama obedece a um ácido colorido político, diferente do teatro de denúncia social, o teatro político mais encenado nos palcos nacionais. Neste caso aqui, a política é lâmina fina, instrumento perfurante impiedoso, orientado para seccionar a forma estúpida de viver e de se alienar típica do cidadão contemporâneo. Para o texto, há um cálculo maior em jogo, derrubar o nosso castelo de areia existencial.

 

A trama expõe um casal idoso, Meg e Petey, que vive numa sombria casa de praia, uma espécie de pequena pensão. Há cerca de um ano hospedam um jovem homem, Stanley, pianista, que se retirou do mundo por motivos não explicados. A chegada de dois desconhecidos enigmáticos, anunciados e esperados por Stanley, permite a celebração do seu aniversário e a sua liquidação humana num ritual de violência e de dominação cujas razões não são expostas. Há uma agilidade de diálogo impressionante, absoluta clareza de situação dramática, mas o sentido do jogo não se consegue definir. Há uma remota afinidade com Beckett.

 

A direção de Gustavo Paso investe fundo no texto e no trabalho dos atores, convidados a expor a fibra mais pulsante de cada papel. Ao conceber também a cenografia, o diretor assinou uma obra de extrema coerência, com um desenho limpo, requintado, mas objetivo. Há uma profusão de referencias, uma espiral de detalhes adequada ao universo naturalista de base do autor.

 

Uma sala de refeições acoplada à cozinha, com aparência entre o humilde, o gasto, o sórdido e o nebuloso, constitui o local da ação. As cores, ocres, pastéis, acinzentadas, esverdeadas, saturadas, marcadas por toques intensos de tons avermelhados, constituem referência forte para a definição do espaço, que se projeta ao longo da ação como instância simbólica decisiva; ele surge a um só tempo soturno, brega e sufocante. Sugere ao mesmo tempo a aura de pasmaceira e o ritual sanguinário.

 

Sem dúvida este resultado nasce também da luz preciosa de Bernardo Lorga, capaz de tecer um rendilhado sensível de emoções, propor uma interlocução límpida para a criação de climas e ritmos de cena. No ambiente sombrio, recortes aqui e ali de focos solares destacam a irrealidade das figuras, mesmo as que poderiam ser vistas como pessoas comuns, e sublinham o arbitrário do humano.

 

A inteligência dos figurinos, de Luciana Fávero, soma outro tanto à proposta – por vezes assumidamente triviais, em alguns momentos insólitos, eles mantém sempre uma sintonia fina com os perfis e as situações cênicas. É magistral o efeito cômico da roupa de festa de Meg, são chocantes as roupas-armaduras de Lulu e, no grande final, de Stanley.

 

Há, contudo, uma outra aposta da direção que torna a montagem um grande espetáculo de teatro no sentido pleno e positivo da palavra, algo verdadeiramente comovedor. Trata-se da presença do pianista André Poyart, responsável pela trilha sonora, em atividade durante toda a ação, com a apresentação de grandes temas clássicos, em contraponto com a escolha do personagem músico que elegeu o silêncio, como se a arte não fosse capaz de salvar a vida humana em sociedade. Para a peça, a música está ali, a arte salva.

 

Mas, convenhamos, todo este edifício seria uma vã construção de palavras se a cena não reunisse atores capazes de entender com sabedoria cênica cristalina este texto tão desafiador. E aí mora o melhor desta montagem arrebatadora: um elenco de amantes da cena, uma gente capaz de viver mergulhada no grau mais radical de devoção ao teatro. O mais impressionante é que a equipe reúne veteranos e jovens, todos unidos no mesmo ímpeto a favor de um fazer teatral pleno, que confia em si.

 

Rogério Freitas, no Goldberg, comove e surpreende por sua capacidade para se reinventar. Há um Rogério Freitas novo, reduzido à própria essência, um ator que impõe em cena o peso do poder grotesco mais incompreensível, hierático, pura efígie, entidade econômica em movimentos e expressões. Ele traduz com intensa energia interior um impiedoso rolo compressor humano. Assusta e surpreende ao materializar a frieza, o cinismo, a violência pela violência, enfim, a desumanidade em estado puro.

 

O seu contraponto mais contundente é a sensacional Meg de Andrea Dantas, a perfeita idiota do lar, o ser decorativo, descartável, imersa em sonhos vadios desconectados por completo do princípio de realidade. Ainda que o conjunto do desempenho da atriz alcance impacto notável ao longo da ação, a sequência da festa de aniversário, consagrando o vestido cafona e a total ignorância do que acontece ao redor, é antológica.

 

Petey, o seu marido, nobre desempenho de Marcos Ácher, é o equivalente masculino deste mesmo fluxo dramático, a pessoa pequena que acredita ser gente soante. Na verdade, ele é o ser transparente atravessado pelo mundo que, por ser homem, pretende ter algum poder, mas segue na corrente à deriva, escravo de pequenas rotinas cotidianas. Inexpressivo, insignificante, ele não tem consciência da sua irrelevância e é incapaz de perceber fatos impressionantes que ocorrem ao seu lado.

 

O lugar de impasse, de recusa e de tentativa de supressão deste esmigalhamento humano é Stanley, notável trabalho de apagamento cênico do jovem Alexandre Galindo. O ator traduz o gesto estrutural de Stanley com absoluta inteireza, sugere a possibilidade de ser uma força profunda, inexplicável, de resistência da condição humana, mas sem esboçar uma positividade. Trata-se de um anti-herói, um personagem fracassado de antemão, segundo o imaginário do autor, reduzido a uma potência ainda mais baixa ao final da peça.

 

Para fechar o mapa do fluxo dramático, dois papéis, especulares, desdobram as forças dramatúrgicas em jogo. O primeiro, o assistente de Goldberg, espécie de mão armada do poder, sem cérebro, é McCann, obra requintada de Guilherme Melca, quase um brutamontes idiota, uma máquina de agir para a destruição. O segundo, Lulu, assinada com brio por Raíza Puget, o desdobramento juvenil da tonta Meg, funciona como personagem feminino eficiente para ampliar o raio de desumanidade exposto em cena.

 

Em resumo, reserve uma noite para ir ao teatro: esta peça demonstra de forma direta a grandeza da velha arte para a sociedade. Não é frequente contarmos com montagens tão visceralmente associadas a este debate, urgente e sofisticado, a respeito da condição humana e a sua possível inteligência, em nossa época. É teatro para ver, pensar, conversar depois e – quem sabe – ajustar o olhar crítico para este vertiginoso mundo, nem sempre zeloso da qualidade do ser. Portanto, aproveite a chance que o teatro oferece ao poder humano profundo que há em você. Corra para ver. E, afinal, quem sabe, rebele-se.

 

Ficha Técnica
 
Texto: de Harold Pinter
Idealização: Alexandre Galindo
Tradução: Alexandre Tenório
Direção: Gustavo Paso
Elenco: Andrea Dantas, Rogério Freitas e Marcos Ácher. Apresentando: Alexandre Galindo, Guilherme Melca e Raíza Puget.
Cenário: Gustavo Paso
Figurino: Luciana Fávero
Iluminação: Bernardo Lorga
Trilha Sonora: André Poyart
Programação Visual: Thiago Ristow
Foto de Cena: Gustavo Paso
Direção de Produção: Alexandre Galindo e Luciana Fávero
Administração da Temporada: Andre Roman
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação
Realização: Gênese Produções

Serviço Temporada de 12/09 a 25/10/2017
TEATRO POEIRA – Rua São João Batista
Telefone da Bilheteria: (21) 2537-8053
Horários: terças e quartas às 20h30
Duração: 80 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: Comédia
Lotação: 134 lugares