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Afinal, o que querem as mulheres? Empurradas pelo fluxo da História, talvez nem elas saibam responder de forma objetiva à pergunta. Mas é melhor que ninguém se engane a respeito do turbilhão contemporâneo que varre a alma das princesas: todas podem afirmar, sem hesitação, que o doce sabor da liberdade é irresistível. Quem duvidar, que triste, está longe do clamor da época – e o melhor que faz é deixar de ir ao teatro, não ir ver E foram, quase, felizes para sempre, ótimo espetáculo de Heloisa Perissé, cartaz do Teatro Vannucci. A montagem, requintada incursão pelo arsenal do cômico, apresenta uma bela radiografia da perplexidade feminina no mundo de hoje, registra sob tons hilários o dilema central da fêmea que passou do mundo dos babados-pó-de-arroz-e-fogão para o universo do laptop-poder-e-rendas. Não deixe de ver, você que acompanha a marcha dos tempos. E prepare-se para entrar em órbita: além de constatar a temperatura atual do mundo, você vai levitar de tanto rir.

 

A trama é simples. Em cena, em uma estonteante veste preta moderna (Rita Murtinho), boa para deslumbrar a platéia, arrasar corações vadios e matar de inveja as mulheres míopes de si, as que não conseguem ter em conta o próprio valor, Heloisa Perissé se apresenta como Letícia Amado, uma agitada escritora de sucesso. É a noite de lançamento de seu livro Um cantinho para dois, um guia para casais inclinados a desfrutar as delícias íntimas possíveis em uma incandescente vida sentimental. Só que o ritmo frenético de pesquisa e redação da obra cobrou um preço inusitado – o caso chiclete de sua vida acabou. Depois de uma longa trajetória de vai-e-vem, o rapaz, mais inclinado a viver sob um ritmo hippie, desencantou. Diante do público pretensamente ansioso para conhecer a nova obra, a autora se vê obrigada a explicar o seu próprio fracasso afetivo, uma espécie de aula sobre como perder o príncipe em algumas laudas, viagens e excursões.

 

A direção de Susana Garcia é pura demonstração de inteligência feminina – a vontade de por a vida em questão transparece claramente no desenho da cena, no ritmo da apresentação, no colorido do desempenho, na espessura dos sentimentos. Há uma estrutura comunicativa em furacão. A plateia não pode pensar, deve ser levada a sentir e a estar junto de cambulhada, compartilhar sem censura, como se todos fossem ombros amigos disponíveis para uma intensa hora-mulherzinha. Heloisa Perissé se move pelo palco desenvolta, exuberante, alegre e perspicaz. É uma atriz notável, domina uma extensa paleta expressiva. Ela representa com garra a autora dinâmica surpreendida pela súbita solidão, narradora principal da trama. E tira o fôlego da sala ao desfilar uma galeria hilária de tipos decisivos para a trajetória do romance acabado.

 

Vale destacar as filigranas delicadas da técnica da atriz. Através de gestos mínimos, sofisticado desenho corporal e plástico uso do corpo (Marcia Rubin), delicadas nuances de expressão, sutis modulações da voz e agudo sentido de clima, ela apresenta, em uma composição espacial despojada (Miguel Pinto Guimarães), sob uma luz de intensa dramaticidade (Maneco Quinderé), figuras surpreendentes e familiares, como a amiga confidente, o caso enrolado, a impagável Loreta terapeuta, a mãe castradora, o pai omisso, a irmã desligada, o cunhado bobo, um possível amante brega, o porteiro amigo. Heloisa Perissé é uma atriz cômica de colorido peculiar, capaz de se projetar através da contação e da interpretação, capaz de recorrer ao jogo expressivo físico, à dança, à interação com a música (Alexandre Elias) e ao fluxo emocional interior, soluções que lhe permitem revestir o cômico com uma atmosfera densa e reflexiva. Ela consegue esfumar os limites do gênero e levar a comédia a se avizinhar do drama e do trágico. É um riso que tira o espectador do eixo, cutuca a sua alma e o faz pensar, mas sem dor ou aluguel barato. Um luxo só.

 

Por tudo isto, E foram, quase, felizes para sempre ultrapassa o limite da comédia descartável. Graças às artes da atriz, líder de equipe de absoluta excelência, o espetáculo hilariante, divertido, impagável, vai além – surge exemplar, se impõe como registro nobre da condição feminina em nosso tempo, revela a mulher que faz a sua história. Perde-se o príncipe, preserva-se a qualidade de existir; ao lado da liberdade, sobrevive imaculado o doce encanto de sonhar – afinal, o sonho é a matéria inefável que dá forma às princesas, a forma eterna das mulheres.