Liberdade, liberdade, estende suas letras sobre nós: uma nova era do teatro musical brasileiro se instalou por aqui. Desta vez, a coisa é muito séria, a julgar pelo último exemplar a entrar em cartaz no Rio. A nova cena se impõe franca e lírica, debochada e exuberante, pródiga em brilhos e requebros, entregue ao pleno culto de seu estilo e dos seus valores, distante dos poderes acadêmicos vetustos que tanto lutaram contra esta forma vibrante de expressão popular. O espetáculo é em si uma comemoração, uma festa em louvor ao início da nova era. E para celebrar o feito, nada poderia ser mais adequado do que uma homenagem centrada em dois baluartes históricos do gênero, a Praça Tiradentes e a tribo gay, o lar carioca do palco musicado e os mais fiéis adoradores da arte, responsáveis por sua sobrevivência após o período de declínio iniciado em meados do século XX. O resultado é simplesmente mágico. Evoé, corram para ver, As Mimosas da Praça Tiradentes vão enfeitiçar até as pedras das calçadas da velha praça.

 

Onde está a magia, qual o segredo de tamanho sucesso? É simples: a cena rebolada volta sob a sua lógica peculiar, efervescente, preocupada em brincar com a percepção de mundo da platéia. Neste jogo, o que se propõe é a instalação de um caleidoscópio de ilusões. E o transformismo é um dos elementos fundamentais da performance, para alcançar este objetivo. O próprio texto, de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, foi concebido com olhos cênicos, espetaculares – em lugar de se apresentar como drama, no sentido mais antigo, ele se impõe como partitura para a cena.

 

Assim, ele joga o tempo todo com efeitos, desenhos, gestos, cálculos, desejos, afetos e o que mais aparecer; permite até mesmo a incorporação de imprevistos de palco, em uma percepção sutil do momento, sempre inteligente. O texto é plástico, cênico, vale insistir, mas sob um colorido de brasilidade, no qual não se foge do imediato, do improviso. A marca da proposta é exatamente esta: o reconhecimento do teatro musical como uma forma inteligente de ilusão, derivada da sensibilidade brasileira, apta para indicar ao cidadão nacional, sempre desvalido, a necessidade de reconhecer o ato de existir como jogo, flutuação, confronto, engano, exigência de elasticidade, irreverência e humor. Emana da cena sobretudo uma exaltação da humanidade e da liberdade de ser.

 

O conceito se apóia, para conseguir o feito planejado, em um fiapo de trama, uma curiosa construção de forma espiralada – ao mesmo tempo em que se narra uma história com princípio, meio e fim, esta história central incorpora e dialoga com núcleos de ação centrados em personagens, indivíduos, fatos ou situações. Explora-se um painel temático geral, pontilhado por casos isolados, mas articulados, com cenas e contracenas de grupo ao lado de performances individuais. É uma atualização da estrutura da revista de enredo, digamos, sob um tom avançado, contemporâneo, hábil para viabilizar a incorporação de procedimentos de interpretação performativos. Não poderia ser de outra forma, aliás – Gustavo Gasparini, talvez o principal artífice da proposta, e César Augusto são integrantes históricos da inovadora Companhia dos Atores. Há, portanto, uma revolução: levar os procedimentos do teatro contemporâneo para a velha arte da revista. As ousadias dos Dzi Croquetes de outrora também ecoam no projeto.

 

Os fatos trabalhados pela trama favorecem a produção de um grande espetáculo; em um sobrado da Praça Tiradentes, um cabaré decadente de travestis desiludidos sofre ameaça de despejo em razão da especulação imobiliária que tem fustigado – e destruído – a identidade histórica da área. O grupo, tensionado pelos problemas pessoais de seus integrantes, decide se unir e lutar contra a ameaça externa com as armas da casa. A opção vista como salvadora é a montagem de um novo show, dedicado à história da praça, diferente da rotina do meio, de mera exibição travesti sombria. Sob este pretexto, consegue-se apresentar uma variedade impressionante de cenas, das intrigas e futricas das bibas aos episódios históricos vistos como relevantes, sem falar nos acidentes cotidianos do grupo. Uma espécie de revista das bichas alucinadas se instala em cena, sucessora do samba do crioulo doido. Francamente, é de morrer de rir: não perca. Quem ama a cena do teatro musical, não pode deixar de ver.

 

As Mimosas precisam fazer sucesso, ganhar dinheiro – nem percebem a existência de um vilão sabotador nos seus domínios. Sob a liderança de um diretor-professor (Cláudio Tovar), buscam um roteiro de impacto. Para tentar fugir do didatismo enfadonho, os fatos históricos surgem sob uma verve de revista, quer dizer, humor, invenção e transgressão. O olhar oscila entre o caricato, o deboche, o cômico e o sentimentalóide, sempre para rir. A música (pesquisa de Rodrigo Faour e dos autores) pontilha toda a estrutura, concebida em relação direta com a ação ou surgindo como “a ação” propriamente dita. A direção (Gasparani e Sérgio Módena) possui clareza e precisão, impõe um ritmo acelerado eficiente para garantir um clima permanente de surpresa. A cenografia (Ronald Teixieira), apesar de alguns tons sombrios demais, resolve com extrema habilidade a reunião de múltiplos espaços, até mesmo uma escada mutante. O figurino (Marcelo Olinto) além de adequado é deslumbrante, provoca a sensação de luxo necessária ao gênero. Toda a caracterização do elenco, aliás, é de alto padrão.

 

A eficiência do espetáculo deriva, também, da competência do desenho de luz (Paulo César Medeiros), capaz de definir áreas de contracena e de performance, atmosferas de show e de dança, climas sentimentais e tons cômico-dramáticos. Na direção de movimento e na coreografia, Renato Vieira assinou soluções de extrema inventividade, jogos de corpo, mãos e pernas indicativos da brincadeira, do espírito lúdico e de alguma acidez corrosiva debochada.

 

Em cena, não há como não ser conduzido pelo elenco para um universo de bem humorada visão cantante do mundo, graças a desempenhos de excelente padrão. Gustavo Gasparani esbanja carisma, revela excelente domínio do corpo e maestria na arte da dança. Mais uma vez ele emociona por sua plasticidade corporal, pela beleza de sua dança de passista. As peripécias sentimentais de sua Vânia, traduzidas em músicas de fossa, esboçam divertidas caricaturas sentimentais brasileiras. Mas não é só – todo o elenco alcança impacto impressionante, vários são os números de grande força cênica, além dos momentos de conjunto ou contracena. A Virgínia Lane maliciosa de Cesar Augusto, a primeira vedete faiscante Divina Rubia de Marya Bravo, a diabólica Marquesa de Santos de Cláudio Tovar, a plasticidade brincalhona de Milton Filho, a canastrice argentina de Jonas Hammar são momentos de performance que conseguem se impor à memória da platéia.

 

O espetáculo é longo, mas não dá para sentir o tempo de duração; uma sensação curiosa de liberdade é transmitida pela cena, com um efeito reconfortante. Ela é gerada pela presença feérica do travestismo em estado puro – a montagem está longe de pensar em debater o tema ou abordá-lo sob qualquer lógica, política, analítica ou moral. Não se pretende focalizar suas eventuais condições de exclusão, dor, mutilação, preconceito. Há, ao contrário, uma orientação inversa. Percebe-se com nitidez o limite escolhido, o teatro do teatro, quer dizer, falar de seres livres em estado de representação para abordar a história do teatro.

 

Uma aula de liberdade, afinal, já que o epicentro é a Praça Tiradentes, uma legítima praça da liberdade. Ela surgiu como um baldio urbano, quando a pequena cidade colonial acabava por perto, tornou-se endereço importante para a corte e para a independência, acalentou sonhos de sensibilidade livre ao se tornar a praça dos teatros, recebeu a estátua do imperador que proclamara a Independência e, ao súbito revirar político da República, viu a imposição do nome Tiradentes, cuja sentença de morte fora assinada pela avó de D. Pedro I. Uma forma curiosa de tentar banir da alma popular os amores monárquicos vistos como ultrapassados – mas a liberdade do poder, no entanto, nunca foi suficiente para tirar do centro da praça a estátua do galante imperador.

 

Quer dizer: a montagem deseja compreender esta vocação da praça, compreender o desejo de liberdade do ser humano, compreender a vocação do teatro brasileiro. Sob o foco, em especial, está o desejo de liberdade do teatro musical, que ecoa nesta mesma praça desde o século XIX. Nada poderia ser mais eloqüente, para este universo, do que uma brincadeira cantante esfuziante como as Mimosas. Quem já experimentou a chance, sabe: poucas coisas na vida são melhores do que ser livre, apenas ser livre.