A aldeia e o mundo, o cotidiano e o sonho: a oposição dilacera a alma de cada pessoa, define o espírito da espécie, assombra a vida do cidadão moderno. Se a vontade de partir acompanha o homem desde o primeiro nomadismo, quando era condição de sobrevivência, ela se tornou, após séculos de civilização e sedentarismo, indício de libertação, passaporte para uma vida de outra qualidade, manifestação de poesia essencial, existencial. O tema, referência preciosa para a arte moderna, é a mola propulsora da ação no novo texto de Walter Daguerre, A Mecânica das borboletas, uma fábula inspirada, dedicada a este impulso humano para buscar a transcendência, longe e além da terra, da origem. A peça é linda, emocionante, tão delicada quanto a vontade sublime de abraçar o mundo, o frisson interior que nos define como seres culturais. O desejo de falar deste turbilhão existencial histórico levou o autor a pontilhar o texto com referências sutis à História e à História da Literatura, em especial ao Ulisses, de Joyce. Sob o foco, está a arte.

Para atingir o conceito sofisticado, comunicar a todos uma visão nítida do eterno enredamento, o autor fez escolhas simples. O ponto de partida da trama é a relação entre dois irmãos gêmeos, Rômulo e Remo, filhos de um modesto mecânico ateu provinciano. Por influência a um só tempo do espírito libertário do pai comunista e de um forasteiro hippie que acampou na cidade, um dos gêmeos fugiu de casa, ganhou o mundo. Para o outro, restou a aldeia, a sucessão na gerência da família, em especial após a morte do pai. A ação começa com o retorno do filho nômade, transformado em escritor de sucesso no exterior, carente de suas referências de formação. O conflito entre os dois irmãos – o que ficou e o que partiu – mediado pela mãe, viúva enlouquecida pela dor das perdas, e pela jovem esposa do filho sedentário, ex-namorada do viajante, constitui o foco da cena. A exposição e a resolução do embate, trabalhadas pelo espetáculo, fluem como um bálsamo para o público, seres deste país construído por viajantes, migrantes e nômades de olhos pregados no horizonte e no mar, embebidos de orfandades sociais, impregnados de afeto e de vontade de expressão. É imperdível.

A direção de Paulo de Moraes tem nuances e filigranas magistrais. De saída, há uma cenografia surpreendente, concebida pelo diretor e Carla Berri. Um impressionante ciclorama de vidro define o fundo da cena, sugestão de varanda ou estufa, suposição de parede frágil, uma barreira curiosa tanto para definir a casa como para impedir a visão do horizonte. As áreas de representação supõem o interior e o exterior em estado de fusão, como se a natureza se impregnasse na casa, como se a casa participasse da natureza. Ao mesmo tempo, há uma Harley Davidson, coisa-personagem decisiva no texto, um símbolo histórico de liberdade latino-americano; ela se projeta no espaço como se fosse uma divindade em um altar. O desenho preciso da cena é uma ferramenta estratégica para sublinhar o trabalho de interpretação, conduzido pelo diretor como uma partitura emocional detalhista. É comovente ver no palco a organicidade da equipe liderada pelo diretor, condição objetiva traduzida tanto no figurino (Rita Murtinho) como na música (Rico Vinna) ou no desenho da luz. As diferentes áreas de representação, aliás, adquirem impacto e densidade, variadas espessuras emocionais, graças à iluminação de Maneco Quinderé.

 

O elenco domina a proposta do texto e percorre as cenas sob uma atmosfera absoluta de dedicação, entrega e despojamento. Trata-se de definir um mundo simbólico profundo, intenso, primordial. Suzana Faini arrebata na figura da mãe, uma força telúrica primária, pura, desconcertante manifestação de amor e pertencimento. Otto Júnior consegue projetar Remo, o gêmeo que fica, como um monumento de conformismo ácido, ressentido e ansioso, pulsante como o desejo envergonhado de partir, introvertido como o medo de romper com o berço. Eriberto Leão desenha Rômulo, êmulo do herói lendário fundador de Roma – é a pura tensão da liberdade desesperada, inconformada, insatisfeita de si, carente do rincão, vítima da náusea do mundo, mas pronto para matar em defesa deste mundo que descortinou – e ele se torna agente eficiente para que o Remo, inimigo do sentimento do mundo, desapareça. Ana Kutner é Lisa, um desempenho de extrema sutileza: trabalha as oscilações da mulher avançada, capaz de estudar, ter uma profissão, gerir a própria vida, em sintonia com tempos de ruptura, mas ainda aldeã.

 

Trata-se de uma montagem do circuito comercial valiosa, programa obrigatório para quem ama o palco. Há uma qualidade de encenação capaz de contribuir para transformar a ida ao teatro em extremo prazer. O requinte perpassa toda a produção. O texto tem alto padrão dramatúrgico e intelectual, aposta em um tom simbolista distante do realismo rasteiro derivado da televisão. A cenografia, a direção e toda a arte da cena foram concebidas como obra de arte contundente, manifestação poética. Funcionam para falar de um impulso humano profundo, requintado – na verdade, funcionam para mostrar que os homens não podem viver sem arte, esta maneira da nossa espécie de estar na aldeia e no universo ao mesmo tempo, sem correr o risco de se dilacerar, a solução perfeita do impasse transcendental de sempre.