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No coração da arte

 
Sempre no nosso coração guardaremos artistas consagrados por sua nobreza na arte. Figuras decididas, eles não hesitaram em escolher o caminho mais difícil para dialogar com o seu tempo e com os contemporâneos – nos seus gestos, nas suas palavras, nas suas expressões, houve e há sempre algo importante para a nossa sensibilidade. O que pode ser?

 

A resposta está ao seu alcance. Não hesite. Largue tudo e corra para o teatro: você tem nove razões absolutas para ver A Última Sessão, de Odilon Wagner, em cena até este domingo no Teatro Net Rio. São os atores. Se você perder, contudo, não se aflija, o cartaz seguirá para o Imperator, no Méier.

 

Posso assegurar com tranquilidade – você não vai se arrepender. No palco, você vai ver e vai se emocionar com a grandeza de atores impactantes, gente que não devia ficar fora dos tablados nunca. Além da excelência de sua arte, eles exalam um estado de espírito contagiante, a felicidade de estar em cena, o amor ao teatro.

 

A peça, ao fim e ao cabo, é um pretexto para nove atores maduros, exponenciais, apresentarem a sua arte, um artesanato vivido ao longo de belas histórias de vida profissional. Escrita por Odilon Wagner, também ator, ela até pode receber restrições com relação ao desenho da ação, um tanto inusitado, colorido por uma reviravolta ousada demais, um tanto gratuita, e ao tom emocional, aqui e ali bastante inclinado ao melodrama.

 

Uma certeza, no entanto, se impõe ao longo de todo o espetáculo: o texto é veículo eficiente para os atores abrirem a sua fortuna, oferecida com generosidade para a plateia. A direção, assinada pelo autor, aposta na expressão livre do elenco e tem nesta opção o seu maior mérito.

 

Em linhas gerais – ao menos a princípio – a peça apresenta nove amigos que se reúnem para almoços rotineiros num curioso clube de estilo inglês, um cenário realista grandioso, de muito bom gosto, de Chris e Nilton Aizner. A referência inglesa aparece também em várias citações de Shakespeare.

 

A situação dramática, anunciada logo no início, progressivamente se torna implausível, caminhando mesmo para o grotesco, e sofrerá uma reviravolta mirabolante. Apesar do caminho surpreendente, o jogo se sustenta, pois os atores são exponenciais.

 

A peça, portanto, funciona num sentido muito preciso, pois ela exige que os intérpretes revelem os seus dons para demonstrar um leque amplo de facetas humanas sob diferentes ângulos. Suely Franco inunda a cena com uma aposta solar na alegria de viver e na liberdade humana, e não economiza no convite ao humor.

 

Suzana Faini comove ao materializar desertos existenciais, a dor de se enfrentar os abismos da vida, o compromisso humano com a densidade, a integridade e o absoluto. Miriam Mehler revela a fragilidade, a vulnerabilidade e a delicadeza interior como valores para o bem e para o mal.

 

Rubens de Araújo vai do alheamento oportunista e bem humorado ao extravasamento inesperado de segredos profundos. Odilon Wagner se inflama para traduzir um protagonismo impertinente e não se intimida ao passar para uma submissão inusitada.

 

Tânia Bodezan impressiona pela clareza racional e pelo equilíbrio, surpreende ao enveredar por um tom de dissimulação deliberada. Daisy Lúcidi, tanto na transgressão como no recesso da castração, desenha com riqueza o perfil do ser humano afetivo, submisso ao jogo emocional mais elementar.

 

Antônio Pitanga desnuda as tramas da alma do ser classificado como subalterno e comove com a coragem de expor o livre fluxo dos sentimentos. Regina Sampaio sustenta sempre sob um tom brilhante pequenas intervenções coadjuvantes.

 

Com uma luz de Mariza Bentivegna concebida em função da marcação e da oscilação dos climas emocionais, figurinos adequados aos perfis dos personagens, de Beth Felipecki, o espetáculo se revela uma passarela para a apresentação de personalidades, situações afetivas e emoções do nosso tempo.

 

De certa forma, é como se estivéssemos diante de um generoso painel humano da nossa sociedade, um convite para aceitarmos o que somos, a miudeza de cada ser. Sim, o que você vai ver em cena é um alto relevo difícil, bastante filigranado, de tipos e comportamentos afetivos dos nossos dias, uma obra só passível de construção na mão de atores de extrema qualidade.

 

Ao final, uma surpresa. Você vai se dar conta de que uma matéria-prima delicada essencial à vida estrutura a cena. Ela se torna, assim, o grande tema que o elenco deseja transmitir. Sob o foco, sob múltiplas luzes, está o amor – o motor do cotidiano, o motor dos personagens, o motor da cena, o motor destes atores de arte tão refinada e, segundo desejam demonstrar, o motor ideal da sociedade. Em suma, aqui, o amor à arte nos leva ao amor ao humano, aquele que deveria estar sempre em nossos corações. Cuide de sua vida afetiva e de sua fome de amor – vá ver.

 

Ficha Técnica
 
Texto e Direção: Odilon Wagner
Elenco e Personagem:
Suely Franco / Elvira
Suzana Faini / Zuleica
Miriam Mehler / Maria Teresa
Odilon Wagner / Estevão
Antônio Pitanga / Nilton
Tânia Bondezan / Amanda
Daisy Lucidi / Elisa
Rubens de Araújo / Gerardo
Regina Sampaio / Berta
Cenografia: Chris Aizner
Figurino: Beth Felipeck
Direção e Produção Musical: Swami Jr.
Desenho de luz: Marisa Bentivegna
Patrocínio: Itaú
Direção de Produção: Gabriel Paiva
Coordenação de Produção: Ana Luisa Lima
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

ServiçoESTREIA PARA PÚBLICO: 11 de agosto (6ªf), às 21h
TEMPORADA: até 17 de setembro
SESSÃO PARA CONVIDADOS: 14 de agosto (2ªf), às 21h
LOCAL: Theatro Net Rio
. Rua Siqueira Campos, 143/2º piso – Copacabana/RJ (estacionamento no local) Tel: (21) 2147-8060
HORÁRIOS: 5ª às 21h (até 24/08) / 5ª às 17h30 (a partir de 30/08), 6ª e sáb às 21h, dom às 17h30 / INGRESSOS: R$120,00 (plateia) e R$ 100,00 (balcão) / na bilheteria: diariamente das 10h às 22h, ou em www.ingressorapido.com.br , ou pelo tel (11) 4003-1212
CAPACIDADE: 622 lugares
GÊNERO: comédia
DURAÇÃO: 90 min
CLASSIFICAÇÃO: 12 anos