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A visita da velha senhora: a justiça no poder

 
Alguns projetos se destacam por sua grandeza social: pessoas generosas escolhem mudar a vida de todos a partir de intervenções sérias, abnegadas, no jogo da sociedade. Pois o Centro Cultural do Poder Judiciário do Rio de Janeiro assina um projeto deste tipo, o “Teatro na Justiça”. E só existe uma opção para avaliar a dimensão do que acontece lá: vá ver. É lindo e faz a diferença.

 

O projeto se estrutura ao redor de um objetivo muito claro, discutir com a sociedade os valores da justiça, a relação entre direito e teatro, através da montagem de notáveis clássicos da dramaturgia. Raras foram as vezes, aqui, em que pudemos contemplar um encontro tão absoluto entre o teatro mais puro e a inquietação mais legítima do cidadão. Sim, graças ao velho teatro estão sob o foco a justiça, o poder e os direitos do indivíduo, grandes urgências do momento.

 

Trata-se, portanto, considerando-se a rotina do nosso deserto cultural, de um privilégio: a oportunidade é para se deliciar, na Sala Multiuso, com um texto precioso do teatro ocidental, A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), um autor dotado de uma compreensão aguda do nosso tempo. Para os amantes de teatro, a vantagem é clara – o teatro brasileiro, cada vez mais comercial e mais pobre, não tem fôlego para oferecer encenações frequentes destes grandes textos.

 

E graças à capacidade de invenção poética da diretora Silvia Monte, também diretora do Centro Cultural, a encenação apresenta uma partitura contundente. Em lugar do espetáculo feérico, retumbante, ela optou por uma montagem coral, concentrada, focada na relação indivíduo-coletividade, aliás o núcleo central do debate sério proposto pelo autor. Apesar da sala pequena, em arena, onde se movimenta um elenco de doze atores, a monumentalidade da peça acontece completa, arrasadora, com o seu tom de comédia negra, corrosiva, favorável ao pensamento. Nada dispersa o fluxo objetivo de emoção, nada ofusca a percepção inteligente do cálculo ousado do texto.

 

A trama sintoniza de forma exemplar o pântano moral contemporâneo, fala diretamente do mundo em que vivemos. No fundo, o texto deseja discutir o que é o ser humano, qual o seu compromisso com a vida, com a sociedade e com a espécie. A pergunta cáustica ecoa o Brasil de hoje: as pessoas têm preço, se vendem e vendem os seus valores por dinheiro? Qual o sentido do poder? Qual a relação entre o poder e o indivíduo? O que é mesmo a justiça?

 

No centro da história, uma velha senhora, Clara Zahanasian, milionária graças às artes da cama, retorna ao vilarejo em que nasceu e de onde foi expulsa e humilhada por uma gravidez juvenil indesejada. O namoradinho parceiro refutou a paternidade na justiça para casar-se com um dote sedutor. Agora a cidadezinha está arruinada e ela se dispõe a ajudar a comunidade com uma soma digna de um bom lava-jato, um bilhão, em troca de justiça. O deleite teatral irresistível é ver como as pessoas, depois da oferta, circulam no carrossel da cobiça numa velocidade assustadora.

 

O efeito acontece por uma combinação precisa de elementos. A direção concebeu movimentos e marcações límpidos, propícios ao desenho de uma dança humana de impacto. A cena econômica, vazia, de José Dias, reúne os acessórios e adereços fundamentais para a coerência das ações, e assim viabilizou, em acordo com a sensacional iluminação de Elisa Tandeta, a insinuação da estrada de ferro como o eixo central da vida aldeã. A luz atua ainda de forma estratégica, ao valorizar recortes, indivíduos, ou expor planos, efeitos de grupo.

 

Os geniais figurinos de Pedro Sayad sublinham a miséria material e traduzem a miséria moral dos habitantes da vila ao jogarem com o avesso das roupas. Em paralelo, projetam o poder e a riqueza de Clara e seus asseclas graças à qualidade dos tecidos, às suas cores, em particular o intenso tom vermelho, e ao desenho ousado – iniciativas capazes de transformar a velha senhora numa espécie de enigmático ícone bizantino de estranho poder.

 

Para a perfeita materialidade da concepção do espetáculo, o desempenho dos atores é fato mais do que imprescindível. Silvia Monte foi hábil na direção dos intérpretes, pois obteve um elenco na legítima acepção do termo, entrosado, harmonioso, orgânico: todos são cidadãos de Güllen. Há uma adesão e uma dedicação ao trabalho comovedoras. Há um pensamento coletivo, um entendimento cristalino da proposta e a percepção objetiva de sua importância. Graças a esta orientação, a forma coral funciona, acontece. A partir deste conjunto coeso, a projeção dos intérpretes centrais da trama torna-se natural.

 

Maria Adélia, em boa hora de volta ao Brasil, é uma presença arrebatadora, do porte autoritário aos pequenos tiques gestuais. Assina um desempenho rigoroso, uma hábil tradução da velha senhora, uma linha ágil de sentimentos capaz de atribuir à vingadora, ao mesmo tempo, coloridos autoritários implacáveis e nuanças sentimentais discretas, sublimes, aptas para tornar o seu pleito convincente. Observe-se o tom brechtiano de sua interpretação, marcado por uma fina racionalidade e um toque soturno de humor, conteúdos reforçados na minuciosa caracterização física. Aliás, os belos adereços necessários à composição da senhora – a perna e a mão postiças – foram feitos pela atriz, dotada de formação em artes plásticas.

 

Diante da fúria da velha senhora, crédulo parceiro dos conterrâneos, primeiro, devastado espectador da cobiça humana, depois, o Alfredo Schill de Marcos Ácher sugere a fragilidade do ser humano em incontáveis graus. Ao acreditar na persistência do seu poder de sedução e na fidelidade dos conterrâneos, ele se expõe como desmedida vaidade, gratuita. Ao se aceitar como canalha juvenil, capaz de comprar juiz e testemunhas a favor do seu interesse mais mesquinho, ele próprio se oferece como presa fácil, traduz a inevitável condenação através de um interessante processo de apagamento físico.

 

Rogério Freitas, O Prefeito, materializa o poder sem caricatura, mas com aquela alentada parcela de leviandade, cinismo e oportunismo que integra o perfil dos políticos dispostos a levar vantagem e a esquecer a honra. O ator revela a linha de oscilação do prefeito com sutileza, monumentalidade física e o mesmo toque discreto de humor explorado por Maria Adélia, opção curiosa para que se projete, em contraste, o drama do Professor, trabalho de filigrana sentimental precioso de Eduardo Rieche.

 

O mestre, afinal, formador das novas gerações, para a opinião comum, deveria viabilizar uma outra perspectiva, diferente do balcão de negócios de valores morais. Mas ele não escapa do dilema coletivo e o ator se transforma na imagem acabada da cisão interior: a cena da bebedeira de Eduardo Rieche é um dos momentos arrebatadores da montagem. Também alcança forte impacto a trajetória surpreendente do Pároco, de Paulo Japyassú. O desempenho despojado, mas racional, corajoso, revela uma visão cáustica do que seria o equilíbrio eclesiástico diante de situações-limite, de desafio da reserva moral mais consolidada de uma comunidade.

 

Mas não é só. Acrescente-se ainda ao desenho da montagem a excelente direção musical de Marcelo Coutinho, autor também da trilha musical. Aqui a organicidade do projeto transparece a partir da execução ao vivo das canções pelo violonista Pedro Messina, também um ator correto em pequenos papéis e compositor de duas canções. A música tem um papel estratégico para o funcionamento das cenas, contribui para a ideia de dança das ambições, mundo em movimento, favorece o andamento da ação, amplia a teatralidade do original.

 

E assim, afinal, é possível definir a qualidade central da montagem: a sua teatralidade plena, graças à profunda compreensão do texto. Com a velha senhora, Dürrenmatt não criou uma personagem que simplesmente deseja que se faça justiça. O seu pleito é, antes, uma demonstração por absurdo da fragilidade dos valores do nosso tempo, existe para que nos perguntemos sobre os sentidos mais profundos da nossa sociedade.

 

E é este movimento, da ficção para o humano rotineiro, que a encenação de Silvia Monte executa. Ao ser concebida como um jogo teatral milimétrico, um contundente fato de teatro, experimento de linguagem, sem desejo realista intimista ou mimético, a montagem pergunta se a própria vida também pode ser teatro. Um teatro cruel, no qual as pessoas passam ligeiras, descartáveis como personagens, e saem de cena, sem ilusões. Seria fundamental, então, para que este teatro da vida valesse a pena, que ele fosse pródigo em valores inquestionáveis. Valores capazes de fazer da aventura da vida um projeto de excelência, comparável a este “Teatro na Justiça”: um projeto real que parte do teatro para ampliar o papel da justiça na vida do cidadão, num sentido que certamente jamais iria agradar à velha senhora.


Ficha Técnica
 
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Tradução: Mario da Silva
Direção e Adaptação: Sílvia Monte
Elenco: Maria Adélia, Marcos Ácher, Rogério Freitas, Eduardo Rieche, Paulo Japyassú, Antônio Alves, Laura Nielsen, Renato Peres, André Frazzi, Anita Terrana, Pedro Lamim, Pedro Messina (violonista).
Direção Musical: Marcelo Coutinho
Cenário: José Dias
Figurino: Pedro Sayad
Iluminação: Elisa Tandeta
Direção de Produção: Renata Blasi e Ana Paula Abreu
Realização:
Centro Cultural do Poder Judiciário do Rio de Janeiro
Diretoria-Geral de Comunicação e Difusão do Conhecimento
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
Serviço
Estreia: 29/01/2015
Local: Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro – Antigo Palácio da Justiça – Sala Multiuso
Endereço: Rua Dom Manuel, 29, Centro, Térreo – Rio de Janeiro – RJ
Site: http://portaltj.tjrj.jus.br/web/guest/institucional/centrocultural
Telefones para informações: (21) 3133-3366/ 3133-3368 E-mail: ccpjrio@tjrj.jus.br
Capacidade: 54 lugares
Duração do espetáculo: 120 minutos/ com intervalo de 10 minutos
Recomendação etária: 14 anos
Entrada Franca com distribuição de senhas meia hora antes do início da sessão.