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Ode às Jacas

 
Odeio as jacas e as jaqueiras. Nada contra as jacas. Ou contras as jaqueiras. Elas desfrutam do meu ódio assim, assim, de graça, simplesmente. Quer dizer, é um ódio bom, irmão da tal inveja boa – o fato é que eu não gosto de jaca, desde criança. Detesto o fruto bojudo, espaçoso, do cheiro ao gosto pegajoso. Já as jaqueiras, para uma garota de quintal, como eu fui, além do pecado sem remissão de produzirem jacas, elas cometem o crime involuntário de fornecer visgo para prender passarinho, aliás um fato perdido no tempo, conhecido apenas por vagos filhos de quintais antigos, fãs de passarinhada encantada esvoaçante. Portanto, nada contra, pois afinal dá para viver sem comer jacas e visgo para passarinho virou coisa de literatura, fora da vida de hoje.

 

Tudo bem, ódio é ódio, insistiria o amigo da onça. Vale rebater: o ódio bom não me levaria a matar jaqueiras, por exemplo. Se elas são exóticas, invasoras, não me importo, até me acostumei a considerá-las como parte da paisagem nacional, como o coqueiro que dá coco ou a mangueira que dá samba. O coqueiro e a mangueira também são invasores estrangeiros.

 

No caminho do velho sítio dos meus pais, uma estradinha municipal chinfrim, uma barranqueira, na verdade uma intransponível coleção de atoleiros selvagens, havia um trecho em que a cerca de uma fazenda era toda formada por jaqueiras. Dava um medo enorme de deslizar na lama e subir com o carro numa árvore, acabar com uma jaca na cabeça. Mas o trecho, além do cheiro de jaca durante a safra, também exalava uma outra sensação, positiva, de vigor da terra. Eram odes ao poder vegetal beirando o pasto. Mereciam respeito humano. Jamais ergui um facão do mato sequer contra uma destas inimigas, poderosa que fosse.

 

No entanto, apesar de vítimas ilesas do meu ódio secreto, sempre inofensivo, as árvores frondosas, folhosas, espaçosas e prenhes de frutos gigantes, primos aéreos das abóboras, ganharam inimigos poderosos, afirmativos, donos de formas curiosas de garrotes vis. Para preservar a Mata Atlântica carioca (sim, muitos pensam que ela existe ainda por aqui e deve ser preservada!), basta garrotear as jaqueiras e o matagal primevo vai prosperar, acreditam.

 

Confesso que, lá no fundo, não acho bem ou mal, não chego a ter uma opinião vegetal precisa a respeito do curioso duelo. Não levantaria a voz a favor do passado botânico perdido. Tampouco advogaria em defesa das condenadas. Afinal, de que adiantaria? O furor de recuperação do paraíso extinto ferve nas secretarias, nos ofícios e nos requerimentos. Mesmo que elas sejam um fenômeno de proliferação incontrolável, se espalhem ávidas por todos os cantos, são favas contadas – ou jacas contadas. Se repararem bem, elas estão sumindo, eles estão vencendo. Em breve, as jaqueiras serão coisa do passado, fantasmas da nossa natureza semelhantes à Mata Atlântica e ao Pau Brasil. O meu ponto é bem outro. Penso que, se é possível garrotear jaqueiras, por que razão não se amplia o garrote? A minha fúria do momento é objetiva. E cidadã.

 

Logo aqui no terreno ao lado da minha casa existia uma mangueira descomunal. Tão descomunal, mas tão descomunal, que supunha séculos. E eu gostava de imaginar que D. João talvez não gostasse só de frangos, admirasse bastante as mangas da Índia e certa feita, recebido um carregamento dos bons, teria marchado para o Jardim Botânico com o farnel, lançando caroços distraídos pela janela da carruagem. E assim ela teria nascido, em berço esplêndido, bastarda real, numa encosta solitária ao redor da Lagoa, fruto do desleixo principesco. Pura seiva real.

 

Pois bem – o porte assombroso, a velhice palpável e talvez a duvidosa origem nobre que eu por minha conta ousava lhe atribuir não serviram para poupar a vida da árvore monumento. Não vi a derrubada, mas imagino o furdunço e o desespero dos passarinhos. Ela era um grande reino, à imagem e semelhança do Império Português. E tombou eloquente, tal e qual.

 

Tudo bem, vida que segue, adeus mangueira. O tempo passou. Dia desses, dois casais de passarinhos verdes de extremo bom gosto canoro me deram o prazer de, em falta da mangueira familiar, construir os seus ninhos no beiral do telhado da minha casa, justamente num ponto elevado próximo da altura da grande árvore vizinha, outrora habitada por uma multidão de voadores. Devia ser um impulso atávico, genético, pensei. O meu telhado, para eles, virou uma árvore imaginária. Fiquei em êxtase, até porque ver passarinho verde o dia inteiro é um convite irresistível para andar nas nuvens, uma proposta que faz a minha alma gorjear. E logo vieram crias.

 

Contudo, a minha felicidade durou muito pouco. Um belo dia, atraídos pelo alarido dos infantes, os micos vorazes que infestam a região descobriram os ninhos e liquidaram tudo – ovos, filhotes, pais, mães, o que havia. Portanto, podem concluir, a ideia que vou expor aqui nasceu naturalmente, reação espontânea. De certa maneira, um tanto enviezada, é uma ode às jacas, uma forma de vingá-las.

 

Se as jaqueiras, que não matam nada nem ninguém de forma direta e fulminante, covarde, podem ser estranguladas, por que razão não se estende a pena de morte aos micos? Como as jaqueiras, eles também não são nativos, são exóticos e invasores. E mais: são agressivos, hostis, predadores e assassinos! Liquidam a passarada – em particular os beija-flores – de forma brutal. Estou cansada de ver sabiás desesperados, voando e dando bicadas nos micos, na vã tentativa de salvar os filhotes e os ovos. As hordas aumentam a olhos vistos, a cada ano, pois, como os micos não são daqui, não têm predadores naturais. Se reproduzem impunemente. Como as jaqueiras, antigamente.

 

Em razão do exposto, proponho uma união de esforços para a caça aos micos. Sim, sei que matar um mico resulta em crime de extrema gravidade, inafiançável, coisa muito pior, para as leis brasileiras, do que matar gente, por exemplo, coisa insignificante nesta terra de pistoleiros. Mas, desculpem o clamor, algo precisa ser feito, em nome das aves que aqui gorjeiam, ao menos para honrar os antigos poetas. Como não é possível deportá-los de volta para a sua terra, proponho faca no pescoço. Ninguém no mundo vai reparar: somos um povo excêntrico, esquisito mesmo. Podemos fazer churrascos de mico e servi-los para os argentinos, que nos acusam de sermos macacos, miquinhos. Todas as soluções são bem vindas.

 

No fundo, não é bem isto. Vou dizer a verdade: considero que os assassinos das jaqueiras devam ser obrigados a assumir este outro encargo. Parece bastante aceitável supor que a redução brutal das jaqueiras no meio ambiente carioca privou os micos de uma fonte considerável de comida: as detestáveis jacas. Logo, como diria Descartes, a conclusão lógica é imediata: quem mata as jaqueiras, mata os passarinhos nativos. Não porque eles gostem de jacas, nada disso, os passarinhos têm bom gosto. Na verdade, a morte das jaqueiras lança os micos um grau acima na escalada da fome urbana. O ávido revide dos símios anões, ansiosos para sobreviver, vai contra os mais fracos, os passarinhos nativos, beleza delicada que enobrece a nossa terra.

 

Ou seja: façamos justiça, nada de amizade e admiração, fora os micos. Vale o ódio – ódio mau mesmo, pois os pequenos devoradores não querem saber de consideração qualquer. Tanto invadem as casas e assaltam a despensa – carregam de frutas a biscoitos, pães, chocolates, o que encontram, depois de revirar tudo numa senhora balbúrdia – como atacam crianças para pegar o lanche. E passam o rodo no mundo dos pássaros, como se não houvesse amanhã.

 

Desconfio que as jaqueiras da minha terra vão desaparecer. Já vão tarde, brado nas sombras do meu íntimo. E o meu ódio, o que será dele? Não, o meu ódio não vai ficar órfão: eu tenho os micos. Um ódio revertido, aperfeiçoado, sem qualquer laivo de ódio bom, um sentimento bem mais adequado aos tempos irritadiços atuais, em que todos vivem procurando meios para odiar o próximo. E de punho em riste me proponho a lutar, como nunca lutei contra as jacas.

 

Novos tempos belicosos afloram no horizonte, não vou tremer – passarinhos do mundo, uni-vos. Passarinhos tudo justificam, nesta era de tantas guerras gratuitas e inúteis. Assim, um novo lema se impõe, mais justo – ódio aos micos. E que os esganadores de jaqueiras completem a sua obra de degola, ampliem o rol dos vilões naturais, sejam promovidos da flora para a fauna.

 

Sem as jacas e sem os micos, viveremos, então, em paz, na floresta original idílica. O espírito das jaqueiras, vingado, nos abençoará. Claro, não vou pedir a mangueira assassinada de volta, pois sei bem que também era invasora, suponho mesmo filha bastarda do colonizador predador português (ainda que esta parte tenha sido inventada por mim). Sem problemas. As árvores atlânticas nos abrigarão, filhas pródigas dos tantos gabinetes e papelórios dedicados a cuidar da elevação da qualidade de vida por aqui. Enfim, seremos tropicalmente felizes, tropicalmente selvagens.


Foto: Tania Brandão