Amigo musical, alma nacional

 
Uma polêmica bem ritmada chacoalha a cena musical carioca: o confronto entre os que adoram o teatro musical biográfico e os que odeiam as vidas cantadas em cena. Pessoalmente, sou inteiramente parcial: adoro musicais – inclusive os biográficos, tanto faz a orientação escolhida. E para contrariar os mau humorados convictos de plantão, o Teatro II do CCBB oferece um musical singelo, de bolso, espirituoso, agradável de ver, dedicado a Cyro Monteiro (1913-1973).

 

A partir de uma pesquisa extensa, realizada pelos atores Alexandre Dantas, Claudia Ventura e Rodrigo Alzuguir, Rodrigo Alzuguir escreveu um texto bastante original, no qual Cyro Monteiro é o biógrafo de si, uma espécie de Cyro Monteiro por ele mesmo. O biografado, um homem conversador, conta a sua vida ou comenta o ato de viver, a própria arte, a aventura humana no mundo. Para chegar a este efeito, foram usadas diversas entrevistas e diferentes depoimentos, concedidos ao longo da vida pelo artista.

 

Na direção, André Paes Leme acertou o tom adequado para a proposta, a ação se apresenta como uma conversa informal, muito descontraída mesmo, pois ela acontece ao redor de uma mesa de sinuca. Para completar a descontração, há um jogral em cena, uma espécie de coro, em que todos os atores apresentam o personagem, representado ou narrado. É, de certa forma, uma atualização do sistema coringa, usado nos musicais do Teatro de Arena. O formato épico, em que todos são Cyro Monteiro ou contam e cantam Cyro Monteiro, faz com que a cena seja rápida e leve, um pouco como um show. A ausência de conflito dramático para impulsionar a ação é driblada pelo truque habitual dos musicais biográficos, a tensão se transfere para o suspense a respeito do relato da vida, episódio por episódio.

 

O cenário, de Carlos Alberto Nunes, responde ao texto e ao conceito pensado para o espetáculo diretamente. Em cena, estão quatro batutas enfeitiçados pela mesa de sinuca, cercados por caixotes, copos de botequim antigo, garrafas de cerveja de vidro marrom, abrigados sob um belo céu de luminárias de garrafas de cerveja. Entre um gole e uma tacada, eles materializam um mundo de sensações que se perdeu.

 

Descontraídos, felizes, entregues à proposta, Claudia Ventura, Alexandre Dantas, Milton Filho e Rodrigo Alzuguir evocam um Brasil camarada e suburbano, pobre de não ter dinheiro para comprar um radio, e a escalada vertiginosa a seguir, para a sociedade de consumo espetacular. São atores experientes do musical brasileiro, dominam a linguagem, ainda que se destaque a beleza delicada da voz de Claudia Ventura e impressione a vivacidade e o molejo corporal malicioso de Milton Filho, aliás um nome para anotar no caderno da fama: ele é muito forte. Vestidos por figurinos masculinos, variantes de roupas habituais do biografado, em figurino assinado por Carlos Alberto Nunes, eles sugerem a formação de um coletivo, num espírito derivado do velho teatro engajado.
O jogo indivíduo-conjunto recebeu tratamento especial na luz, de Renato Machado, mais aberta e mais clara do que o habitual nos musicais, mas com farto uso do foco. Vale constatar a persistência do velho padrão de relação entre luz, palco e plateia: mesmo emocionado e cantante, o público, sob a luz mais aberta, se recolhe, tímido, hesita em projetar a voz, para explodir numa grande euforia só no final, em vigorosos aplausos de pé, entusiasmados.

 

Afinal, Cyro Monteiro foi cantor e compositor, lançou ou cantou alguns sucessos mais do que aclamados pela alma popular – O pé de anjo, Faceira, Se acaso você chegasse, Falsa baiana, Escurinho, Tem que rebolar… São muitas canções. E ficou na história como frasista, espírito inteligente, grande boêmio: a arte da música era obra de uma pessoa de arte. Assim, os atores-cantores, apoiados pelos músicos Levi Chaves, Luís Barcelos, Lucas Porto e Marcus Thadeu, oferecem uma noite mais do que agradável ao público, uma noite nobre de MPB, em que a biografia deixa de ser fato menor, localizado, passa pela poesia, para radiografar, a partir de um homem notável, a alma do País. Sim, claro, vale ver.


FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Rodrigo Alzuguir
Direção: André Paes Leme
Direção Musical e Arranjos: Luis Barcelos
Elenco: Claudia Ventura, Alexandre Dantas, Rodrigo Alzuguir e Milton Filho
Músicos: Levi Chaves (sopros), Luis Barcelos (Bandolim/Cavaco), Lucas Porto (violão) e Marcus Thadeu (Percussão)
Direção de Movimento: Duda Maia
Cenografia: Carlos Alberto Nunes
Figurino: Carlos Alberto Nunes
Iluminação: Renato Machado
Preparação Vocal: Marcelo Rodolfo
Pesquisa: Alexandre Dantas, Claudia Ventura e Rodrigo Alzuguir
Diretor Assistente: Anderson Aragón
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
SERVIÇO
Temporada: de 03 de janeiro a 09 de fevereiro
Local: Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro II
Endereço: Primeiro de Março, 66 – Centro
Informações: 3808-2020
Horário: de quinta a domingo, às 19h30
Ingresso: R$10,00
Bilheteria: de quarta a segunda, das 9h às 21h
Capacidade: 158 lugares (3 para cadeirantes)
Gênero: musical biográfico
Duração: 90 minutos
Classificação: 10 anos