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Antígona: no coração da alma ocidental

 
Amor e razão, sangue e lei – os opostos cortam o corpo ocidental há séculos, como lanhos de estoques de míseros presidiários. Somos carne pulsante, mas raciocinante, prisioneiros sofridos de nossa capacidade de civilização. Nossos algozes, somos nós, vítimas de um eterno conflito.

 

Na tragédia grega, o conflito nascia do embate cego entre os deuses e os homens e do aparecimento da cidade-estado. A autoridade nascente, racional, despojou a família, renegou o poder da ordem patriarcal. Hoje, somos órfãos dos deuses e, ao menos em teoria, temos livre-arbítrio – permanece o dilaceramento, porém, ele nasce dramático, dentro de cada um, da oposição direta entre emoção e ordem.

 

Este é o eixo central de Antígona, cartaz em temporada curta no Poeirinha. Não perca por nada deste mundo! O velho texto apaixonante de Sófocles está repaginado, em sintonia com o mundo moderno, obra de Amir Haddad e Andrea Beltrão. O resultado é inebriante e lúcido, para manter o foco no jogo sugerido pelo debate teatral da montagem. Corra para ver.

 

O feito é gerado por esta dupla chave – emoção e pensamento, sempre. O embate entre os dois intriga, emociona, arrebata, constrange, inspira e nos exaure: diante da plateia, Andrea Beltrão vibra na expressão de raciocínios sublimes e expõe de forma seca e cortante emoções racionais. Um oposto aponta para o outro, incorpora o outro, num fluxo incessante.

 

Informal, a atriz recebe o público e anuncia a representação. Portanto, o ponto de partida é um espelhamento do espectador, o cidadão descontraído que vai ao teatro, relação entre iguais. Logo ela se apresenta como atriz, inicia a ação teatral e, entre a narração dos fatos e a representação de cenas, personagens e circunstâncias, mimetiza todas as nossas formas atuais de ser-em-estado-de-comunicação. É impressionante.

 

Ela nos conta com absoluta vertigem teatral a história de Antígona. E o ato de contar significa apresentar a trama, mas também enumerar antecedentes históricos e mitológicos básicos para que se tenha um esboço, bem ao nosso gosto contemporâneo, do mundo de variantes envolvidas no caso. Ao longo do relato, ela encarna os grandes agentes da ação. A vivência multifacetada deixa de ser o puro confronto com o trágico e se torna uma percepção bem informada da força da tragédia.

 

A mesma ótica estrutura a movimentação da atriz em cena, das marcas ao jogo corporal. Há um ritmo acelerado, permanente, de passagem da apresentação relaxada e espontânea para posturas teatrais expressivas, escultóricas, emblemáticas, algumas representações sutis de gestos gregos. A delicadeza da direção de movimento de Marina Salomon torna o corpo plástico sem ofuscar a densidade das palavras.

 

Uma cenografia performática apoia a atuação. Ela é constituída por um mural, genealógico e mitológico, de apresentação das forças envolvidas na tragédia de Antígona. Há também uma cadeira escada, uma mesa praticável, um pequeno amplificador para o som com microfone, uma echarpe vermelha, um casaco capaz de sugerir autoridade. Através do manuseio destes meios singelos, a atriz percorre uma extensa galeria de papéis e, em especial, materializa a força telúrica de Antígona.

 

O figurino, de Antônio Medeiros, segue a mesma linha de concepção, entre o narrativo e o performático – lembra roupas básicas de ensaio, de ginástica, negras, neutras, mas apresenta detalhes vermelhos aptos para evocar o sangue e o despedaçamento. Nos trajes, mais uma vez o jogo de opostos.

 

A rigor, a direção e a atuação, num diálogo intenso, buscaram mergulhar na força vital do texto para dimensionar o ímpeto de sua imortalidade, mas diante de nosso mundo, hoje. O velho aedo brota em cena, reencarnado sob tons próprios ao ator, ao performer, ao animador de auditório, ao locutor de assembleias. Uma ousadia e uma irreverência, sem dúvida.

 

A opção é cortante como um fio de navalha, capaz de usar nosso arcabouço racional para puncionar a nossa emoção, a grande matéria-prima do ser humano que a razão insiste em tentar sufocar. Assim, em lugar de flertar com o trágico, nos vemos gregos desterrados, cidadãos do nosso mundo; somos lançados para uma outra percepção de nós, ainda que estejamos diante do texto grego.

 

Na parede do espaço teatral, cartazes guiam a compreensão dos fatos intrincados da mitologia. Lá fora, nas bancas de jornal, nas telas, manchetes estampam impressionantes relatos de massacres nas prisões brasileiras, nas ruas, no mundo, nas guerras hediondas de hoje. As letras, expressão racional, desejam nos dar uma compreensão apaziguadora de fatos assombrosos. Diante deles, Antígona levantou a voz e o gesto para impor a sua emoção.

 

O tempo passou. O que será mesmo o progresso da razão humana ao longo do tempo, a velha razão ordeira aclamada pela cidade? – a montagem revolucionária de Antígona nos pergunta. O que a nossa emoção precisa fazer para mudar a razão apodrecida do mundo? – a peça nos convida a pensar. E talvez, quem sabe, até, a tentar lutar, tentar fazer algo que nos leve um tanto adiante do embate primordial, nunca resolvido: levar o amor, a emoção, a lanhar a razão, para liberar o sangue escravizado pelo pensamento.

 


Ficha Técnica
 
De: Sófocles
Tradução:: Millôr Fernandes
Dramaturgia: Amir Haddad e Andrea Beltrão
Direção: Amir Haddad
Com: Andrea Beltrão
Iluminação: Aurélio de Simoni
Figurino: Antônio Medeiros
Direção de Movimento: Marina Salomon
Ambientação e Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque (Cubículo)
Operação de luz:Bruno Aragão
Camareira:Conceição
Produção Executiva:Rosa Beltrão e Sergio Canizio
Realização: Boa Vida Produções

Serviço
Estreia: Novembro 2016
Temporada: Até 19 de fevereiro 2017.
Local: TEATRO POEIRINHA
– R. São João Batista, 104 – Botafogo, Rio de Janeiro – RJ – Telefone (21) 2537-8053
Horários: 5ª a sábado às 21h, domingo às 19h
Ingressos: R$80,00
Classificação indicativa: 12 anos
Gênero: tragédia