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O teatro, o ser e o mundo

Às vezes o teatro nos explode, numa féerie de incertezas, como se fosse uma bomba atônita. Em estilhaços, tocamos o absoluto. É raro, mas acontece. Um exemplo? Corra para ver As Crianças, de Lucy Kirkwood, novo cartaz do Teatro Poeira. Você vai ver, em suspenso no ar, o mais arrebatador drama doméstico da sua vida.

 

Não, não se trata de passatempo vulgar, novelesco, descartável. O doméstico aqui significa algo humano maior, a nossa imensa irmandade, pois habitamos todos a mesma casa, a Terra. E drama, aqui, tem quase um alcance trágico, por causa da nossa cegueira, da nossa impossibilidade de entender o quê, afinal, nós somos.

 

Não se assuste: não há lição de moral, fala de professor, intelectualismo ou hermetismo. E esta condição é que torna o espetáculo absoluto. É tudo teatro, apenas teatro. A equipe construiu uma cena teatral no sentido pleno, total, uma cena de completa sedução, um lugar em que você viverá um banho de poesia, como se nas suas veias circulasse apenas arte e fosse possível, num átimo, mudar o seu olhar para o mundo.

 

Qual o segredo? Sim, é um truque. Isto acontece quando um grande texto encontra um excelente diretor, um criador excepcional, e um elenco transcendental – note que os adjetivos foram pensados com rigor, não são uma atribuição distraída de méritos exteriores, banais.

 

Rodrigo Portella lidera a equipe e se afirma ainda mais, aqui, como um maestro da cena: o jovem artista, senhor de uma carreira densa, pontilhada por espetáculos contundentes como Tom na Fazenda, Nerium Park e Insetos, exige a criação de um vocábulo novo para o seu perfil. Diretor ou encenador são qualificações ultrapassadas neste caso, insuficientes para traduzir o que acontece sob a sua regência no palco.

 

Na verdade, trata-se de um maestro encenador, pois a orquestração cênica assinada por ele, liderança magnética diante de uma equipe de arte afiada, se estrutura ao redor de um extremo rigor conceitual, traduzido em imagem e movimento. Também por isto trata-se de um drama: ação dialogada movida por um intenso fluxo de emoções. Aí a marca autoral do encenador transparece impactante.

 

No entanto, falar em encenação pode ser uma opção discutível, pois não existem efeitos de cena, rompantes criativos, superpostos ao texto. Rodrigo Portella não inventa nem cria uma cena imaginária para sobrepor à proposta do dramaturgo. Sua nota criativa consiste na percepção profunda dos embates do texto, no inventário escaldante de emoções e sentimentos, enfim, numa visão original da essência do desafio desenhado pelo autor.

 

O arrebatamento que envolve a plateia irremediavelmente nasce deste moinho criativo, que faz com que a realidade do teatro se assenhore de tudo e de todos. Há à sua frente um texto de uma grande escritora. Lucy Kirkwood, jovem e ousada, é uma das maiores escritoras teatrais do presente.

 

A sua peça comove por ser um brado atual vigoroso, mas, ainda assim, por transpirar, a um só tempo, de forma radical, a herança de Ibsen, Brecht e Shakespeare. Aliás, a excelência da referência britânica transparece no original exatamente por ele conter, subsumida, uma vasta tradição dramática. Logo, algo ácido de Bernard Shaw e um remoto tom de Pinter também podem ser percebidos.

 

Em decorrência desta carpintaria tão elaborada, a trama contem um jogo teatral alucinado. Ele se organiza em turbilhão e evolui de forma vertiginosa, a partir da configuração dos personagens, do desenho econômico dos conflitos e da tessitura das palavras, para explodir um pouco mais além, na sensibilidade do público.

 

Sim, há uma estrutura ágil, filiada a um possível modelo tradicional, a peça-em-segredo, na qual algo relevante virá a ser contado à plateia após uma escalada tensa de pequenas revelações. Mas nada disto acontece como artificialidade ou intenção da autora, e sim, antes, como envolvimento apaixonante e apaixonado.

 

A trama criada por Lucy Kirkwood foi urdida numa dimensão peculiar. Ela envolve uma situação caseira, prosaica, com um casal de engenheiros aposentados na sua pequena rotina, e parte para a história mais inflamada do presente, pois eles estão ao lado de um desastre atômico. Como eles são especialistas em energia nuclear, atuaram na criação da usina que sofreu o acidente e persistem ali ao pé da tragédia, o foco passa a ser o indivíduo, sujeito e objeto da grande perplexidade que é o poder da ciência em nosso tempo.

 

Nesta atmosfera radioativa, para expor o conflito subjetivo em megatons, eles recebem a visita de uma velha amiga também engenheira, pretensamente distante faz tempo, mas que manteve um romance tórrido com o marido. Ela traz uma proposta explosiva, palavras que desmontam o lugar de acomodação do casal e obrigam a plateia a se perguntar sobre a sua trajetória no mundo de hoje.

 

Para falar desta estrutura instável, Rodrigo Portella optou pela instabilidade total – a cena é a mais radical instabilidade. A base tremulante é fundada em atores de extrema experiência, profunda riqueza técnica, notável história de trabalhos em comum. Eles funcionam como eixos oscilantes desta nau desgovernada à beira mar, senhores de uma paleta expressiva arrasadora. Na cenografia, em colaboração com Julia Deccache, ele criou uma casa rústica e hesitante, sem paredes, mas aconchegante em sua estranheza e secura, com chão de brita, escassos moveis, um mínimo de adereços.

 

A luz preciosa de Paulo Cesar Medeiros consegue o impensável – moldar o espaço-lar, sublinhar a extrema potência nuclear de cada personagem, sugerir um mundo que se esvai em potente jogo de energia e, afinal, lançar as sensibilidades numa explosão imaginária.

 

Logo se vê que não há realismo, mas antes uma espécie admirável de Expressionismo abstrato. Os figurinos de Rita Murtinho acionam esta tecla com extrema felicidade, insinuam com muita beleza plástica um mundo em fiapos, retalhos, pedaços estraçalhados. O tom ecoa na trilha sonora original, intensa e objetiva, apta para construir a ambientação, das sensações mais abstratas à materialidade da presença do mar e dos acidentes locais, recurso eficiente para sublinhar o percurso de fracionamento interior de cada um.

 

Pequenos seres indefesos capazes de tramar sem consciência objetiva a destruição da humanidade, os personagens desafiam a grandeza dos atores em razão desta chave dual – reúnem razão requintada e emoção corriqueira, banal. São grandes pessoas comuns.Para dar força a este embate extremo, Rodrigo Portella propôs aos intérpretes um nível radical de expressão – todos os atores estão contidos na ação interior, num mínimo de ação exterior e física, segundo uma preparação corporal refinada, assinada por Marcelo Aquino. A economia gestual é admirável – não existe movimentação vazia ou dispersiva. Cada um tem um núcleo interpretativo incandescente dentro de si.

 

Assim, as rubricas foram incorporadas às falas dos atores e a maioria das ações objetivas, realistas, propostas no texto, não é realizada – como fazer café ou sair de cena. Este porto seguro garante a todos e a cada um o combustível para voar, sair de si em grandes explosões sentimentais, cenas impressionantes de se ver.

 

Analu Prestes traz, com uma força telúrica arrasadora, comovente, a mulher cientista mãe de família minuciosa, prendas do lar assumida e bem estruturada, a mulher que precisa do apoio do mundo e das coisas pequenas para pensar. É a mulher-lar, afetiva e arguta, perspicaz: a Dayse construída por ela se afirma como uma coluna de força inabalável do poder doméstico, uma potência que vai suportar tudo, driblar o trivial, sem estourar, ao menos até o desfecho.

 

Stela Freitas, na Rose, figura a feminilidade oposta, uma força antagônica exemplar, a mulher-rua. Revela a figura aérea, devotada ao abstrato, uma empreendedora em conflito permanente com as miudezas deprimentes cotidianas, a cientista incapaz de estruturar e governar uma família. Com um tom requintado de humor e uma leveza de espírito única, a sua Rose convence como o fogo rasteiro abrasador, capaz de incendiar as superfícies, mas sem jamais chamuscar as almas.

 

Mario Borges, o Robin, percorre a cena como um abalo sísmico – ele é o homem cientista que, por sua geração, deveria ter se tornado um parceiro e um comparsa. Na verdade, ele se deixou levar pela vida e, apesar dos seus saberes, da realidade, dos afetos e da própria ciência, ele prefere viver na mentira, como se estivesse no jogo de um mundo mais antigo, machista, enganador.

 

Uma responsabilidade imensa recai sobre o ator – a extrema capacidade expressiva de Mario Borges, inefável, faz com que ele traga para a cena um desempenho verdadeiramente chocante. Apesar de ser um marido habituado ao fingimento sentimental, ele hesita diante do dilema nuclear, aparece torturado por saber e por esconder, arrasado por não ter clareza sobre a urgência ou não de agir. A sua perplexidade diante do mundo, prima da nossa omissão, é comovedora.

 

Portanto, sim, a pergunta mais óbvia da peça nos interessa de frente: o que fazemos ao mundo – e a nós, e à natureza – ao concordarmos com os avanços da energia nuclear? O que temos feito diante dos tenebrosos acidentes nucleares? O que fazemos diante das pedras podres que constituem o solo de Angra dos Reis? Na verdade, a inteligência do texto de Lucy Kirkwood e da equipe envolvida na montagem leva a interrogação ácida a uma voltagem estratosférica, vizinha das perguntas originais dos grandes trágicos, mas, graças ao cogumelo atômico, perigosamente invertida. Diante do macabro poder construído pelo ser humano, qual o nosso real poder na Terra? Somos os nossos deuses do mal?

 

Afinal, se temos uma inteligência tão afiada para a invenção e se somos capazes de construir um poder tão monumental, por que insistimos em manter o vetor deste poder a favor da destruição da vida? Em resumo: não perca esta peça por nada. Se você odeia teatro e não pretende ir ao teatro nunca, este é um programa bom para testar o alcance do seu ódio. Se você acha o teatro velho e só pretende ver uma peça em toda a sua existência, aviso: chegou a hora, vá lá.

 

Mas se você acredita que o teatro é a mais requintada assembleia dos valores da alma humana, corra para ver: logo logo a busca por ingressos estará mais acirrada do que a corrida nuclear. Afinal, todo mortal sabe quando aparece uma obra de arte única, absoluta, a obra perfeita – capaz de trazer em si um pacto áureo com os valores maiores que devem reger nossa trajetória no mundo.

 

FICHA TÉCNICA

Texto: Lucy Kirkwood
Tradução: Diego Teza
Direção: Rodrigo Portella
Elenco/Personagem:
Mario Borges / Robin
Analu Prestes / Dayse
Stela Freitas / Rose
Assistência de Direção: Mariah Valeiras
Cenário: Rodrigo Portella e Julia Deccache
Iluminação:Paulo Cesar Medeiros
Figurino: Rita Murtinho
Trilha Sonora Original: Marcelo H e Federico Puppi
Preparação corporal: Marcelo Aquino
Programação Visual: Fernanda Pinto
Produção Executiva:Bárbara Montes Claros
Direção de Produção:Celso Lemos
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
 

Serviço

ENSAIO ABERTO: dia 10 de janeiro (5ªf), às 21h
ESTREIA PARA CONVIDADOS: 11 de janeiro (6ªf), às 21h
ESTREIA PARA PÚBLICO: dia 12 de janeiro (sábado), às 21h
Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo / RJ Tel: 2537-8053
HORÁRIOS: 5a a sábado as 21h, dom às 19h / INGRESSOS: R$ 60,00 e R$ 30,00 (meia) / horário bilheteria: 3a a sab das 15h às 21h e dom das 15h às 19h / vendas pela internet: http://www.tudus.com.br/ DURAÇÃO: 100 min / CAPACIDADE: 145 espectadores / CLASSIFICAÇÃO: 14 anos / GÊNERO: tragédia cômico-delirante / TEMPORADA: até 31 de março