ATRAVÉS DE UM ESPELHO 1 - DNG High-res version

Através do melhor do teatro

 
Fragéis pontos prisioneiros de uma rede movediça de afetos, reféns de nossa solidão, vagamos entre o desejo desesperado de amor e a misantropia: somos humanos. Através de um espelho, de Bergman, versão teatral de Jenny Norton, sob direção primorosa de Ulysses Cruz, é um dos programas teatrais imperdíveis do momento – nos leva a vivenciar com requinte a matéria afetiva mais densa e frágil de que somos feitos: um bálsamo oportuno para tempos dilacerantes. Um dos pontos altos da encenação é o desempenho de Gabriela Duarte – a sua Karin é uma comovente declaração de amor ao teatro, não deixe de ver.

 

Desenhada a um só tempo com delicadeza e profundidade, a Karin de Gabriela Duarte sugere a infantilidade, a vontade esfuziante de viver e de ser feliz, e a dor profunda de não encontrar a sua imagem na vida, como se ela própria fosse um ser exilado de si, em ruptura progressiva com a existência comum. Desespero surdo. Um ensaio sobre a esquizofrenia? Bem mais, na verdade.

 

As escolhas para a abordagem do papel, norteadas pela direção e impregnadas de pungente humanidade pela atriz, fazem da apresentação da trajetória da personagem um generoso estudo humano. Não há a loucura caricata, exaltada, de manual, mas antes um processo de esgarçamento do ser que poderia acontecer a todos nós e a qualquer um, num primeiro grau de leitura. Diante de um pai impermeável, outrora um marido refratário, a resposta humana de sofrimento aparece na filha dilacerada, herdeira do quadro de alheamento vivido pela mãe falecida. Em resumo, um retrato do humano impedido do livre exercício da afetividade – logo, da humanidade.

 

Mas a encenação vai além. Ao lado do trabalho requintado da direção e da atriz, há um senhor trabalho de elenco. E, diante desta outra grandeza teatral arrebatadora, surge algo forte, ao lado do estudo do humano: a cena arrebata ao se projetar também como um painel cáustico da condição feminina. A trama seca, objetiva, mostra uma filha, recém saída de um hospital psiquiátrico, num reencontro familiar na velha casa de veraneio, ao lado do marido e em confronto com o pai, um escritor encerrado em si, e do irmão adolescente angustiado.

 

Karin se desdobra diante de nós graças ao poder de três espelhos, três papéis masculinos estratégicos e complementares. David, o pai escritor celebrado, mas carente de reconhecimento, é o eixo da ciranda de afetos, exposto por Joca Andreazza como uma moenda de almas, um mecanismo solene e indiferente, que tudo arrasta e tritura sem hesitação. Voltado para si, opaco, ele não se dá conta dos conflitos existenciais ao redor, ignora os dramas do filho adolescente Max, uma apresentação pulsante da crise juvenil e familiar, traduzida em gestos e tensão dramática por Lucas Lentini. E, neste carrossel, de nada adianta o esforço atabalhoado de apoio empreendido pelo marido, entre o cirúrgico e o ingênuo, um Martin sôfrego que ignora a própria impotência, sutil construção de Marcos Suchara.

 

Não se pense, no entanto, que se trata de um simples solo de uma atriz dedicada, às voltas com um belo texto contemporâneo, em sintonia com um elenco decidido a expor o melhor de sua arte: não, o resultado conquistado neste trabalho é mais, é teatro em grande estilo. A cena é grandiosa em tudo, o trabalho de equipe é impressionante. Ele transcende o elenco, surge visível de imediato em todos os detalhes da montagem.

 

A maestria começa pelo tratamento do texto – há uma tradução fluente, de Yara Nagel, modelada para o palco graças à adaptação assinada por Marcos Daud e à dramaturgia a cargo da experiente Valderez Cardoso Gomes. Ou seja: existe um projeto de trabalho teatral concebido a partir de um estudo criterioso do texto. A direção artística, liderada por Ulysses Cruz, optou por focalizar o humano sob a ótica a mais vertiginosa possível – assim, a cenografia de Lu Bueno oferece uma casa aberta, um lar varrido pelas demandas do mundo exterior, decorada com elementos simbólicos impressionantes, como o lustre de galhos secos que traz a luz e insinua a sensação de existência de uma deformação estrutural. Os figurinos de Cassio Brasil sublinham a identidade de cada personagem com impacto comovente, como a roupa refúgio do pai e os trajes de entrega às intempéries do marido, ou espelham os sentimentos do jogo de cena – linha evidente no figurino infantil de Karin para a noite de celebração. A luz de Domingos Quintiliano segue as coordenadas do projeto, traduz a linha dramática do texto, que surge desenhada de maneira precisa em ações e emoções, opção também atendida na trilha original, obra notável de sugestão de climas, andamentos e afetos, assinada por Daniel Maia.

 

Sim, este é um senhor espetáculo de teatro, adequado para quem deseja desfrutar daquilo que o palco pode oferecer de melhor para a nossa sensibilidade. De quebra, a montagem derruba um mito descabido, de que Gabriela Duarte seria uma inocente ingênua de novelas de televisão, distante da grande arte. Às voltas com um papel teatral denso, uma dramaturgia exigente, uma equipe de legítimos bichos de teatro apta a nos oferecer intensos momentos de confronto com a condição humana em nossa época, ela derruba certezas vadias tão inadequadas quanto aquelas que desejam ainda hoje menosprezar o valor da vida humana. Salve Gabriela Duarte, o palco brasileiro agradece a sua grandeza na arte, a chance de brindar com elegância com uma possibilidade de estudo sério do desafio de ser. Sim, o teatro é o remédio ideal para tentarmos compreender o humano, a rede maior de todas, aquela que sempre existiu e nos mantém conectados, para que lutemos para ser o que devemos verdadeiramente ser, humanidade pura.


Ficha Técnica
 
Texto: Ingmar Bergman
Versão Teatral: Jenny Worton
Tradução: Yara Nagel
Adaptação: Marcos Daud
Dramaturgia: Valderez Cardoso Gomes
Direção: Ulysses Cruz
Diretor Assistente: Leonardo Bertholini
Diretor de Movimento: Leonardo Bertholini
Elenco: Gabriela Duarte, Joca Andreazza, Marcos Suchara e Lucas Lentini
Preparação vocal: Renata Ferrari
Cenografia: Lu Bueno
Designer de Luz: Domingos Quintiliano
Figurinos: Cassio Brasil
Trilha Original: Daniel Maia
Fotos de cena: João Caldas
Make e Hair: Lab.DudaMolinos
Administração Geral: Ricca Produções
Produção Executiva: Carmem Oliveira
Direção de Produção: Giuliano Ricca
Produtores Associados: Gabriela Duarte / Giuliano Ricca
Produção: Ricca e Plateia Produções

Serviço
“Através de um espelho”
Teatro Poeira (145 lugares)
Rua São João Batista, 104 – Botafogo – Rio de Janeiro (21) 2537-8053
teatropoeira.com.br
Sessões:
Quinta a sexta às 21h – R$60,00
Sábado às 21h e domingo às 19h – R$ 80,00
Venda online: www.ingresso.com
Horário de funcionamento da bilheteria: de terça a domingo, das 15h às 21h
Duração: 75 minutos
Classificação: 12 anos
Curta Temporada: de 09 de Abril a 03 de Maio