belle 2ato High-res version

Deborah Colker: o seu nome é pecado

Tradição, ousadia, transgressão. A contradição nas palavras ilumina o impacto sensível memorável provocado por Belle, o novo espetáculo da Companhia Deborah Colker. Imperdível. Em cena, uma articulação engenhosa de dança e teatralidade, corpos, coreografia, expressão, objetos, cores, luzes, figurinos, música e sons promove o resultado ideal de uma apresentação de artes cênicas: a elevação do público acima de qualquer vínculo com a banalidade cotidiana da vida. Ficamos todos, na plateia, em êxtase, estado puro de levitação estética. O belo e o sublime, a razão e a emoção, a carne e o espírito mesclam-se, a um só tempo reinventados, numa celebração da vida muito especial. Corra, não deixe de ver, a montagem está em temporada popular de curta duração no Teatro João Caetano.

 

E o que existe de tão especial nesta nova proposta de Deborah Colker? De certa forma, Belle continua a linha de trabalho iniciada em Tatyana, balé de 2011 baseado no romance Evguêni Oniéguin, de Púchkin. Agora, a inspiração nasceu livre de um texto que escandalizou a sociedade no início do século XX, Belle de Jour, romance do franco-argentino Joseph Kassel, de 1928. A centelha fulgurante que transforma o palco em matéria arrebatadora desponta da proposta ousada de romper com a visão dual, maniqueísta, da mulher. Em lugar de separar a mulher pura, idealizada, da mulher desejante, ardente, sexual, tradição histórica de repressão e submissão das mulheres em todas as civilizações, o balé sugere que a deusa do lar coincide com a dama do cabaré. E que este cabaré, que exala sensualidade para todos os quadrantes do palco, lugar do corpo entregue ao seu impulso de carne, é uma libertação, o desenho de uma nova identidade, de certa forma mimetiza a história recente das mulheres. É de tirar o fôlego.

 

Inicialmente, na estreia, o balé foi estruturado em dois atos estanques. Esta versão sofria com certa imprecisão, ampliava a possibilidade de uma leitura mais apaziguada, menos transgressora, pois favorecia a suposição de que a protagonista ia ao bordel, se prostituía e contemplava as cenas de franca entrega sensual, de certa forma como no filme de Buñuel, também inspirado no livro.

 

A versão em cartaz agora, revista, tem ato único, com dois movimentos: o primeiro movimento revela a presença da mulher em casa, na sua estabilidade bem sucedida ao lado do marido, burguesa, mas contida na realização do seu desejo. O segundo movimento desponta como continuidade do primeiro, sem intervalo, brota de seu interior, como se fosse uma visita à alma feminina em chamas ou, numa abordagem mais singela, como se ela estivesse sonhando.

 

Assim, há, primeiro, uma féerie de sapatilhas e pontas projetando roupas bem comportadas, através de passos e posições clássicas do balé lidos por um corpo de baile de absoluta maestria e domínio efetivo da linguagem da dança moderna. A seguir, a cena explode em livre jogo de carnalidade, com a dança vigorosa cara às coreografias de Deborah Colker, marca registrada da coreógrafa, traduzida em registros ousados, transgressivos, mas de intensa beleza, nenhuma vulgaridade. Atores bailarinos ou bailarinos atores senhores de sua arte celebram a sua arte no palco: encantadores.

 

De repente, Sevérine se desdobra em duas bailarinas – Sevérine (Rosina Gil) e Belle (Sheila Lockiec) – na insinuação de que a dualidade estrutura o ser da mulher, de toda mulher, e que o pecado não é a nossa condenação ou uma possibilidade, mas a nossa condição de ser. Sevérine e Belle são uma pessoa só. Uma poética do belo gesto se casa com uma exposição lancinante do corpo pulsante, intenso. Portanto, a sensação de levitação que envolve a plateia surge deste mecanismo sofisticado, em que o belo se desdobra em sublime, através da contemplação de uma trajetória vertiginosa, surpreendente, da sugestão de um mergulho abissal na condição humana.

 

Um destaque importante a fazer é a lembrança de que a Companhia Deborah Colker possui uma assinatura clara, uma força expressiva autoral de elevado impacto: não se trata, em Belle, de uma apresentação inebriante apenas por conta da trama, do tema, do tratamento coreográfico escolhido, da criação e da direção. Há muito mais.

 

Além da excelência dos bailarinos, o figurino de Samuel Cirnansck arrebata por sua densidade criativa, sobretudo ao compor a insinuação dos corpos amorosos. O cenário de Gringo Cardia estrutura as diferentes situações, a casa da família e o lugar do pecado, a partir de um vocabulário de volumes comuns, transformados, manipulados pelos atores-bailarinos no calor da cena.

 

A cenografia confere um sentido peculiar à montagem ao insinuar um fundo falso, um quadro de fundo de cena, que se transforma para o segundo movimento, fortalece a visão de que o cabaré deriva da estrutura da casa, que retorna ao final, num jogo ardiloso dos espaços. O desenho da luz, de Jorginho de Carvalho, é eficiente para a dança e para a teatralidade, sublinha as coordenadas da ação, destaca as intenções. A música, de Berna Ceppas, de extrema beleza, dialoga com o relato, eletriza a narratividade, potencializa o desenho de sensações da cena, desenvolve climas libertários graças a uma combinação feliz de composições originais, músicas de Miles Davis, Velvet Underground, música eletrônica, ruídos.

 

Importa por fim observar um dado curioso: o balé começa e se desenvolve boa parte do tempo recuado, no fundo da caixa, como se fosse a proposição de um painel de costumes para a contemplação da plateia. Ao longo do segundo movimento, sob um turbilhão sensual e em especial depois que uma tela branca, um grande plasma, espécie de lençol transcendental, joga com a fusão dos corpos, a cena avança para o proscênio, em busca de aproximação discreta com a plateia.

 

Este movimento transforma o colorido da cena, eleva-a de situação para contemplar a território próximo, contíguo. Algo do tom irresistível de Belle com certeza provém deste aceno, desta aproximação, uma provocação. Por mais que tenhamos construído civilizações e culturas, engessado corpos, somos um impulso físico vital, primeiro, uma forma natural de pulsação que é amor à vida, energia pura de viver, um território primeiro interdito para as mulheres. Ou não – segundo a dança irresistível de Deborah Colker, senhora de uma tradição que ousa transgressões.


Ficha Técnica

Criação e direção: Deborah Colker
Direção Executiva: João Elias
Coreografia: Deborah Colker, Jaqueline Motta, bailarinos
Direção Musical: Berna Ceppas
Figurinos: Samuel Cirnansck
Desenho de luz: Jorginho de Carvalho
Bailarinos: Aline Machado, Bianca Lopes, Bruno Lobo, Gabriel Fernandes, Isadora Amorim, Jaime Bernardes, Louiz Perazzelli Rodrigues, Luiz Crepaldi, Mozart Mizuyama, Naiane Avelino, Nelson Pacheco, Olivia Pureza, Phelipe Cruz, Pilar Giraldo, Rosina Gil, Sheila Lokiec, Uatila Coutinho


Serviço
TEATRO JOÃO CAETANO
Praça Tiradentes, s/n.
De 12 de junho a 2 de agosto
De quinta a sábado, às 21h. Domingos, às 18h.
Ingressos a R$ 30 (plateia / balcão nobre) e R$ 20 (balcão simples).