Parte II – continuação

 
Destaque-se aqui a imensa projeção recente, no Brasil, do gênero biografia, que não dispõe no país de uma trajetória forte contínua. A escrita de biografias nasceu aqui como uma forma de estudo histórico de caráter muito peculiar: eram biografias de celebração, dedicadas aos grandes vultos políticos e às lideranças notáveis, como se os grandes feitos escrevessem a História. No mundo moderno, a biografia como estudo do ser humano, ainda que do ser humano notável, despontou como gênero na Renascença e nos séculos XVII / XVIII. O volume de textos se tornou imenso, a um ponto que se considera a existência de um dilúvio de biografias soterrando a era moderna: todos se achavam no direito de contar com a sua biografia, todos pretendiam ser celebrados e salvos do esquecimento.

 

No caso brasileiro, o tema adquiriu coloridos muito peculiares, pois as biografias se revelaram muito mais um instrumento de poder do que de merecido reconhecimento – segundo José Honório Rodrigues, a História escrita a partir das personalidades encerra enormes possibilidades de deformação dos fatos. Em primeiro lugar, por causa do risco da escrita de uma História sem carne ou vida, sem economia e sociedade, sem povo. E mais – seguindo uma expressão de Toynbee, citada por Rodrigues, o milagre da criação humana depende mais das minorias criadoras do que dos indivíduos e, no caso brasileiro, as minorias são mais dominantes do que criadoras. Assim, da febre das biografias de poder, do século XIX, depois de um hiato, chegou-se a um nevoeiro confuso de biografia de tudo e de todos, feitas não por conceitos de historiador, mas por uma ótica pedestre, do qualquer um.

 

A impressão que se tem, ao contemplar o quadro recente de ebulição de textos, duelos e controvérsias, é que o Brasil descobriu o indivíduo, após uma longa história de autoritarismo, desigualdades e de desprezo pelos direitos civis. Descoberta tardia e rancorosa, vale dizer, em que se busca neutralizar as possibilidades de expressão e de expansão deste indivíduo, no que ele significa de ameaça aos velhos mecanismos de poder de exclusão. Assim, surgiu uma sede desértica de exploração da vida alheia, por vezes até mesmo de liquidação de individualidades, e o mercado editorial não hesitou em explorar o filão a qualquer custo, ainda que a prática afete a vida e a intimidade de muitos.

 

No domínio das artes, há um caos. Ao lado de obras relevantes, bem pesquisadas, fatia em proporção diminuta, muitos dos textos recentes são obras de mera curiosidade trivial, impressões jornalísticas de cunho duvidoso, pesquisa leviana, agitação editorial. Certos textos não conseguem disfarçar a ambição sensacionalista, o cálculo paparazzi, a vertigem de sucesso a qualquer preço ou de celebração apressada. Existem obras escritas em prazos ínfimos, apropriando-se muitas vezes sem dar o crédito devido, de pesquisas acadêmicas elaboradas sob um outro tom. Autores sem formação e sem habilitação mínima são contratados de maneira informal a baixo custo para produzir textos apressados e mal editados. O resultado é escandaloso – é possível encontrar obras biográficas paulistas em que datas fundamentais da história da arte, como a fundação do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) está errada – e não por erro de digitação – sem falar na identificação grosseiramente equivocada de fotos, peças, equipes técnicas e de arte.

 

Outro tanto de absurdos pode ser localizado nos conceitos e nas abordagens, uma avalanche de deturpações contrárias aos artistas, aos amantes da arte, à História e aos interesses culturais do país. Há ainda alguma maledicência e – o que é mais lamentável – nenhum pensamento a respeito da arte da biografia, uma ocupação quase tão antiga quanto a prática da História, pois foi inaugurada com Plutarco – Lucius Mestrius Plutarchus (c. 50– 125) – na expectativa de indicar como o gesto humano pode imprimir as suas digitais no tempo. É verdade que a prática da escrita de biografias não foi desenvolvida até a idade moderna – as obras escritas até então, na antiguidade e na idade média, foram mais textos de celebração e de exaltação do que de indicação do processo histórico. De certo ponto de vista, a Iliada e a Odisséia foram relatos biográficos, assim como as tragédias gregas, pois expunham a trajetória de poderosos – formas poéticas da biografia.

 

As indicações sumárias da historiografia são relevantes para levantar um ponto que aqui vai apenas esboçado, mas que parece ser o caminho mais instigante para o debate do tema: há uma pergunta urgente no ar. O que se precisa pensar é qual o sentido do reconhecimento do individuo como objeto relevante recente na dinâmica social brasileira. Parece justo reconhecer que vivemos, em geral, uma era de grande libertação humana, uma era em que grandes rituais coletivos de canto e dança são etapas decisivas de formulação de um ser humano diferente, lírico, sensível, capaz de se elevar ao sublime e ao belo. Os agentes deste processo não são os políticos, os legisladores, os clérigos ou sacerdotes, mas sim os artistas.

 

Portanto, desejar que o nosso tempo reduza a dimensão do artista ao cotidiano mais banal é um grande crime de lesa-humanidade. Um grande pecado contra a nova religião do futuro, uma espécie de humanitas palpitante, pura carne e sentimento. Ou apenas uma forma reacionária, atrasada, de travar a marcha do mundo. As biografias impregnadas de cascalhos cotidianos, reducionismos e banalidades são atos contra a História. Além de sugerirem uma via para a incompreensão da arte em nossa época, exibem uma prática que renega o próprio nascimento da arte da biografia, o singelo desejo dos primeiros historiadores, de reconhecer a forma humana do ser moldar o tempo e não – jamais – ser liquidado por ele. O sonho do artista é a nossa realidade, pois nós fazemos com que o nosso sonho seja a realidade dele.