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Adeus, caosnarval – para um carnaval livresco

 
Pode ser que você adore carnaval, mas, por alguma razão, este ano decidiu se recolher. Não será o caso de ir para um convento, certamente. Vai ficar entocado em casa. A chance é maravilhosa: aproveitar para dar uma atualizada geral na estante de livros e na coleção de filmes. E correr das ruas, tomadas por hordas um tanto selvagens no seu furor de transpor limites…

 

Então, adeus ruas ferozes. Venham, livros e filmes! A escolha será difícil – muitos carnavais seriam necessários para acertar o compasso com o ritmo do mercado cultural do nosso tempo. A criatura mais atualizada de todas, pode olhar de perto: tem déficit. Pilhas e pilhas de coisas lindas ou curiosas ou atraentes ao redor. Não faço ideia de como anda o inventário das suas faltas e carências, mas vou tomar a liberdade de oferecer algumas sugestões, coisas finas, adequadas a um paladar requintado – o seu, sem dúvida. Belas tramas para alguém que decidiu traçar uma distância segura frente ao alarido carnavalesco.

 

Vou ousar enveredar pela trilha das letras. Outro caminho não poderia fazer, pois o cinema, amante inveterado das noites livres, pouco me pega. Gosto de cinema, vou ao cinema, mas, fazer o quê, tenho a alma alugada aos palcos teatrais. Já fui cineclubista, cinéfila. Um dia, o teatro me raptou. Assim, não posso dizer algo relevante a respeito da sétima arte. E este texto parte de um pressuposto contrário ao grande cinema: a ideia é ficar em casa, fugir dos blocos e dos foliões. Fugir do caosnarval que tomou de assalto a cidade e arrasa sensibilidades mais delicadas.

 

Há o cinema na televisão, pois. O problema persiste, também não frequento muito tais telas. Mas os livros, esta estranha cachaça, vício antigo, eles não me largam nunca. Sempre arranjo uma brecha para estar com eles. E tenho alguns engenhos de papel fascinantes para comentar… bem valem um carnaval.

 

De saída, recomendo um texto não exatamente novo, mas bastante recente, de 2014, um encanto para todo o cidadão apaixonado pelo Rio de Janeiro. É o divertido A Primeira História do Mundo, de Alberto Mussa, publicação da Editora Record, uma improvável e impagável história policial nos primeiros anos de existência da cidade do Rio de Janeiro.

 

Na verdade, o autor escreveu uma versão romanceada do primeiro crime que teria acontecido na cidade. Uma espécie de olhar carnavalizado, digamos. O argumento surgiu a partir da leitura do clássico de Elysio Belchior, Conquistadores e Povoadores do Rio de Janeiro. E o notável é o edifício ficcional construído para envolver a aldeia, a selva, o universo indígena e o cotidiano do século XVI. Para o carioca, inclinado ao gosto por uma boa prosa, encanta a chance de ver a cidade envolta nesta trama tão bem urdida, de história e invenção.

 

Há, contudo, outras possibilidades para desfrutar a leitura como encanto. Uma das mais fortes, é uma das sensações literárias do momento, a misteriosa Elena Ferrante, identidade secreta de uma produtiva escritora. Recentemente foi anunciada a descoberta de sua verdadeira identidade – investigação realizada por um repórter obstinado.

 

Porém, o fato não muda a realidade: ela escreve livros fascinantes, daqueles capazes de atrair a atenção da primeira à última letra. Publicados aqui pela Editora Intrínseca, os volumes já formam uma pilha respeitável. Folheei todos, até agora li apenas o impactante A Filha Perdida, marcado por uma escrita enovelada, estruturada como teia sentimental, arrebatadora.

 

O foco é a vida no nosso tempo. A narradora, uma professora universitárias em férias, é uma mulher madura emancipada, que criou as filhas e está livre, diante de si. O cenário cativante de praia e verão serve de pano de fundo para um mergulho interior dilacerante, em que se percebe, aos poucos, o vazio da liberdade. Ousada, a narradora se revela capaz de fazer experiências profundas com a sua própria estrutura afetiva, perigosamente envolvendo pessoas estranhas. Sim, vou ler todos os outros livros da autora misteriosa e recomendo a imersão.

 

Nem só de literatura vive a minha vida de leitora. Uma novidade importante do mercado editorial nacional é o crescimento da estante teatral, outrora tímida. Lançamentos recentes surpreendem por atender a uma gama muito variada de temas – há desde a teoria de teatro especializada, para experts, como um tipo raro de livro, feito para pessoas de cultura e distinção, interessadas em curiosidades ou apanhados gerais.

 

Dentre os livros de tema teatral amplo, capazes de interessar a todo o universo da sociedade, destaque-se o precioso Lembrança Gravada – Atores e atrizes nos logradouros do Rio, de Angela de Castro Reis, edição Folha Seca. O volume bem ilustrado, diagramado com distinção, tem um charme irresistível ao promover a aproximação entre artistas de importância histórica e o leitor, a partir do passeio por logradouros da cidade nomeados em homenagem a estes figurões tão especiais. É uma daquelas obras para cultivar na melhor estante da casa.

 

Um outro volume atrai a atenção do leitor inclinado ao palco – uma viagem sentimental, estética e atenta de Flavio Marinho por uma seleção de programas de sala de espetáculos. Teatro é o melhor programa, edição Giostri, já identifica no título o objetivo do texto: valorizar o gosto pela arte. O foco recai sobre o período de 1973 a 2014, numa escolha de cartazes assinada pelo autor. Apesar da orientação pessoal, o recorte é expressão significativa da época e o tratamento de cada espetáculo acontece em textos de leitura muito agradável.

 

Há ainda um volumão de leitura obrigatória para os fãs das artes cênicas – trata-se de sensacional biografia de Yara Amaral, de Eduardo Rieche. Yara Amaral: a Operária do Teatro, edição Tinta Negra, é daqueles livros que marcam época. A partir de um depurado senso de justiça, a estrutura da obra repousa sobre dois pilares grandiosos, o estabelecimento da trajetória artística de Yara Amaral e o registro impiedoso da atrocidade absurda que determinou a sua morte, um crime cercado de impunidade por todos os lados até hoje. A pesquisa é extensa, o tom de tributo sentimental é assumido. Eduardo Rieche explicita com nitidez a importância da atriz para a sua própria carreira teatral e faz uma apuração exemplar da obra da artista. Definitivamente uma obra histórica.

 

Leituras técnicas teatrais também fervilham nas livrarias e se oferecem para ocupar os dias. Um destaque absoluto dentre os lançamentos recentes é um outro volume alentado, Boca de Cena – Marcações de um Espectador, generosa reunião de textos do xamã teatral brasileiro, Jacó Guinsburg, publicado pela Edusp. Neste caso, o prazer da leitura se espraia num caleidoscópio impressionante, tão fervilhante de cores, tendências, impressões e sensações como um desfile de carnaval. Há de tudo na obra, uma forma para atestar a personalidade criativa e criadora ímpar do autor.

 

Ainda que coautorias importantes figurem nas páginas (e Guinsburg soube sempre trabalhar em equipe), impressiona e deleita o perfil autoral do editor, pesquisador, tradutor, ficcionista, professor, espectador, leitor, intelectual, analista, crítico… A leitura do volume se impõe como ferramenta preciosa para uma espécie de fotografia da alma do teatro brasileiro de nosso tempo.

 

E há bem mais: ir até a livraria mais próxima – e nos shoppings a Livraria da Travessa estará à sua disposição – pode ser uma iniciativa perigosa. Não por causa da agressividade de blocos e foliões, mas por outros motivos. São tantas ofertas irresistíveis que a empresa pode ser bem lesiva, para o bolso e para a coluna. Porém, claro, será um alento para o espírito.

 

O que dizer do excelente Guia da Arquitetura do Rio de Janeiro, uma publicação do Bazar do Tempo reunindo uma notável equipe de especialistas? Dá para ler corrido ou saltitando, pulando pelos bairros e regiões da cidade, numa enxurrada de descobertas e de emoções. Impedido de circular pela cidade livremente, por causa do carnaval, o carioca apaixonado percorre o livro sob o êxtase de descobrir segredos e detalhes arquitetônicos impensáveis ou esquecidos da cidade amada.

 

Pois é, a estante de Rio de Janeiro também cresceu de forma espantosa. E com ela – ou dentro dela, no seu bloco – expandiu-se com vigor a estante de carnaval. Assim, você poderá também gozar de um formidável carnaval intelectual, no sofá mais confortável da sua casa. Duvida?

 

Ah, não o faça. A sua escolha pode começar no lado do carnaval mais criativo e folião. Ele desponta com força em algumas obras de lugar certo na estante do enamorado do Rio.

 

A primeira obra a destacar dá continuidade a uma série brincalhona, de homenagem às mais célebres escolas do carnaval carioca, coordenada por Fábio Fabato. No volume mais recente, edição da Novaterra, figuram As Matriarcas da Avenida. Com textos assinados por Fábio Fabato, Gustavo Gasparani, João Gustavo de Melo, Luis Carlos Magalhães e Luiz Antonio Simas, é traçado o perfil histórico das grandes escolas Mangueira, Portela, Salgueiro e Império Serrano.

 

Outra série, nem tão recente, pois foi iniciada em 2012, mas extensa, com nove volumes publicados, impressionante por seu fôlego, é a coleção Cadernos de Samba, organizada por Aydano André Motta. Com textos assinados por especialistas, amantes do tema, os volumes são dedicados às escolas de samba ou a pontos decisivos dos desfiles ou de sua história, como as porta-bandeiras ou os inventores do carnaval.

 

A força da prateleira explica um fato importante – o relançamento de livros de projeção, esgotados, inacessíveis. Neste campo, o sucesso do momento é a volta do consagrado Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba, assinado pelos pesquisadores Rachel Valença e Suetônio Valença, pela editora Record. Esgotado e raro, difícil de conseguir, ele voltou para alegrar o carnaval deste ano. Revisado e atualizado pela autora, imperiana de coração e fé, a obra é um ato de História importante para todo o carioca consciente da força do carnaval, do significado de Madureira e do Império no jogo da nobreza urbana cidadã.

 

Mas, olálá, as páginas voam longe. A atenção é atraída por outras três obras mais fulgurantes do que os destaques luxuosos do sambódromo. É fundamental destacar a beleza do objeto livro – sim, beleza – que faz com que Uma História do Samba – As Origens, de Lira Neto, se projete com força nas bancadas de exposição das livrarias. O livro da Companhia das Letras é lindo.

 

Pretende ser, até na apresentação, um livro de referencia, daqueles para guardar com carinho e consultar sempre. Os dados reunidos pelo autor envolvendo o nascimento do samba e a história antiga do carnaval fornecem material estratégico para pensar a festa popular. Ou seja – trata-se de um convite para um carnaval filosófico, de reflexão a respeito da natureza profunda da festa popular.

 

Aliás, história é o que não falta ao livro assinado por Eric Brasil – A Corte em Festa: experiências negras em carnavais do Rio de Janeiro (1878-1888). A pesquisa, aqui, realizada na origem como etapa para a obtenção do Mestrado em História na Universidade Federal Fluminense, tem viés acadêmico rigoroso e busca indícios para tecer algo da relação estratégica entre liberdade e expressão.

 

A arte do carnaval estudada é a dos escravos e o pano de fundo é o processo de luta pelo fim da escravidão. Quer dizer, mais possibilidade de reflexão, ao redor do sentido destes hábitos nacionais tão arraigados, de cantar e dançar nas ruas.

 

Neste ponto, pode ser que você pense que o bicho carnaval não é tão feio assim, apesar do caos que tem sido oferecido nas ruas do Rio durante todo o período pré-carnavalesco. Quem sabe, para compensar os momentos reflexivos ou ilustrar os textos tão repletos de informação, você dá uma olhadinha no samba, na televisão? Neste caso, uma ajuda: segue abaixo a ficha técnica básica dos desfiles cariocas, com a ordem de apresentação no sambódromo… A folia só dura quatro dias, aproveite! De toda forma, boas leituras, bom carnaval, nada de caosnarval ao seu redor.

 

DESFILE DAS ESCOLAS DO GRUPO ESPECIAL
 
Domingo, 26 de fevereiro de 2017:
Paraíso do Tuiuti
Grande Rio
Imperatriz
Vila Isabel
Salgueiro
Beija-Flor
Domingo, 27 de fevereiro de 2017:
União da Ilha
São Clemente
Mocidade
Unidos da Tijuca
Portela
Mangueira

DESFILE DAS ESCOLAS DA SERIE A

Sexta feira, 24 de fevereiro de 2017:
Acadêmicos do Sossego
Alegria da Zona Sul
Unidos do Viradouro
Império da Tijuca
União do Parque Curicica
Estácio de Sá
Acadêmicos de Santa Cruz
Sábado, 24 de fevereiro de 2017:
Acadêmicos da Rocinha
Acadêmicos do Cubango
Inocentes de Belford Roxo
Império Serrano
Unidos de Padre Miguel
Renascer de Jacarepaguá
Unidos do Porto da Pedra