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Do mundo, toda a poesia: Cartola

 
Se você ama o Rio ou é carioca, lamento informar, mas você não tem opção: o seu lugar é no Teatro Carlos Gomes, a alma e o coração em estado de graça, para ver Cartola – O Mundo é um Moinho, de Artur Xexéo. A montagem, idealizada por Jô Santana, ainda que revestida por um curioso tom paulista, é um ato singelo de homenagem ao nosso grande poeta, talvez o maior poeta popular carioca, excelente versejador capaz de ver, além e adiante da vida mesquinha cotidiana, a poesia dilacerante que é o ato de existir.

 

O eixo da montagem é, aliás, a exposição deste milagre de arte comovente chamado Cartola. Negro, pobre, filho da cruel sociedade de exclusão brasileira, Cartola escreveu versos de uma beleza indescritível, absoluta, avassaladora. A vida que lhe coube foi aventura pesada, a miséria da favela e dos pequenos ofícios, penúrias vividas sempre com dignidade e elegância. Há, assim, uma envolvente magia na sua vida, magia reproduzida na montagem teatral. Traduzindo: na verdade, o homenageado em cena é você. Vejamos os porquês.
 

De saída, a magia é sugerida a partir da trama do texto – o musical biográfico foi desenhado com naturalidade, sem artificialismo, ao redor de um truque esperto – uma escola de samba modesta, imaginária, Arengueiros de Curicica, escolheu contar a vida de Angenor de Oliveira (1908-1980), o Cartola, no enredo do seu desfile.

 

Assim, a ação acontece em dois tempos, em dois lugares – o real, a quadra da escola, no presente, e o lugar de ficção, de amor ao poeta, a representação da vida de Cartola por parte dos sambistas. O recurso, ao contrário do que se poderia prever, não transforma o texto em relato didático enfadonho, mas, antes, o faz surgir como uma espécie de convite para vivenciar uma aventura ao quadrado. A cena descobre o poeta, louva a sua obra, e assim a plateia se maravilha com o duplo fato, o ato de amor da cena e a biografia em si.

 

A fortuna existencial do compositor eclode como história de vida impactante, informação obrigatória para a arquitetura do amor ao Rio, tecido nobre da aura da cidade. A excelente pesquisa, de Nilcemar Nogueira, neta de d. Zica e neta incorporada ao coração do músico, garante um fluxo quente de informação, matéria adequada para falar com propriedade da vida e da música, falar de alguém que escolheu a música, fez da música a sua cidade.

 

A direção e a encenação de Roberto Lage funcionam com habilidade para soldar um vasto material e uma multiplicidade de formas expressivas e teatrais. O diretor enfrentou com brio um desafio imenso. E, sobretudo, importa destacar, trabalha com o avanço de uma pesquisa de importância fundamental para o teatro musical brasileiro e para a cena carioca, para a história do teatro brasileiro, a relação entre samba (e as adoradas escolas de samba!) e teatro. Este, sublinhemos com ênfase, é um caminho muito nosso que hesitamos percorrer, o que tem sido um grande erro. Nada poderia ser melhor para comemorar os cem anos do samba.

 

Ainda assim, alguns detalhes da direção de cena e de ator são bem discutíveis – alguns exemplos fortes podem ser comentados. De saída, é muito estranho o tom caricato do carnavalesco, Luizinho, exagerado demais, implausível em diversos momentos. Hugo Germano, excelente ator jovem, tem a potência exata para o papel, não precisava enveredar pela super representação. Ao carnavalesco, na trama, cabe a função de narrador, mestre de honra, um pouco como se fosse o compère de uma revista teatral – há, portanto, uma função dupla, de personagem e de artificio técnico de texto, e o perfil caricato não é boa solução, pois tem grande efeito dispersivo.

 

Uma outra opção inexplicável ofusca a compreensão da trama. Trata-se do fantasma de d. Zica, idosa, rondando o primeiro ato, a juventude de Cartola, uma sugestão arbitrária, pois insinua que ela é quem estaria contando a história, opção que a trama não confirma. Assim, não funciona bem para o entrecho e, o que é pior, rouba um pouco do intenso brilho da aparição do grande amor, depois das desilusões.

 

Há também algumas soluções pontuais que atrapalham a leitura do espetáculo, por trazerem informações contraditórias ou dispersivas. Os melhores exemplos são dois. Primeiro, as cores da roupa do carnavalesco, preta e amarela, cores que identificam a S. Clemente, no Rio, quando a escola na berlinda seria afilhada da Mangueira e teria as cores da madrinha. Aliás, os figurinos, em geral, excetuando-se as roupas dos primeiros papéis, informadas pela realidade histórica, são bem frágeis, desiguais. Há um conceito hiper-realista exacerbado, um colorido muito agressivo. No entanto, o tom criativo das fantasias do final, do desfile da escola, redime o trabalho de Luciano Ferrari, soma a seu favor, ao contribuir de forma decisiva para o desenho da apoteose de louvação ao poeta.

 

O segundo exemplo é o longo relato, minucioso demais, a respeito da feijoada, uma trama paralela dispersiva, sem relevância para o andamento da ação, ainda que Adriana Lessa (Soninha/Deolinda) seja uma atriz de extremo encanto, capaz de bela performance histriônica. A sua aparição como Deolinda, por sinal, funciona com excelência realista e sentimental para traduzir a densidade do primeiro amor e do esteio capaz de salvar a vida do poeta, hesitante naqueles tempos.

 

Sim, por todo o espetáculo pequenos detalhes pipocam aqui e ali e incomodam, como o ferro de passar roupa elétrico no velho barracão. Mas o mais grave problema é a coreografia, de Alex Morenno, simples demais e em alguns momentos decepcionante. O samba merece mais e já se fez muito nesta linha dos corpos.

 

Em compensação, a direção musical de Rildo Hora é um bálsamo para todos os que se encantam com música brasileira, musicais e samba, traz evocações preciosas. Os seus arranjos merecem adjetivos nobres, requintados, de extensão aguda o suficiente para envolver o trabalho de Guilherme Terra, na preparação vocal, arranjos vocais e música incidental. A execução da música, sob regência de Guilherme Terra, sustenta a emoção mais fina solicitada pelo tema. Prepare-se para se deleitar com uma partitura de alto padrão e torça para que a trilha do espetáculo seja gravada.

 

Um outro casamento espetacular, de efeito notável, acontece no palco entre a cenografia, de Paula de Paoli, e a iluminação, de Fran Barros. O desenho da trama exige um jogo espaço-temporal permanente, impõe a representação de múltiplos lugares e tempos de ação, com apresentação ágil e revelação límpida, obras que surgem exatas, na cenografia e na luz. As cores, as tonalidades, as áreas de luz e sombra materializam o jogo passado-presente com requintada sensibilidade. A quadra convence como tal e abriga sem conflito os lugares outros, imaginários.

 

No entanto, todo este conjunto multiforme, este jogo de qualidades e defeitos, acertos e deslizes, toda esta oscilação poética perde todo o brilho, toda a importância, todo o valor, vira um nada, um pálido pano de fundo, diante do impacto avassalador conquistado em cena por Flávio Bauraqui. Concentrado, em estado de oração teatral, dedicado a uma entrega absoluta, Flávio Bauraqui é a imagem maior da arte de Cartola. Não se trata de uma simples composição física, mera construção exterior, histriônica, calcada na imitação.

 

Flavio Bauraqui captou a alma do grande mestre e nos estende a mão espiritual mais delicada para nos levar ao lugar de magia que o espetáculo consegue tocar. Não, não cabe em palavras – este é o caso de um trabalho teatral histórico, em que a cena encontrou um grande médium para mergulharmos no terreiro do samba. Flavio Bauraqui é toda a maestria de Cartola em cena. E nos emociona, nos faz chorar, nos faz entender profundamente a alma de um poeta que foi uma benção para este país tão dedicado ao crime histórico de estraçalhar sensibilidades.

 

Portanto, respire fundo, corra e olhe a cena, e se emocione profundamente. Estamos diante de uma cena negra apaixonante, desempenhos intensos e sinceros, uma celebração teatral histórica, de importância única, decisiva, um jogo importante por sua potencialidade para mudar o teatro do país.

 

Pois tem mais. É de justiça exaltar o trabalho excepcional de Flávio Bauraqui. Mas isto não basta, não faltam em cena trabalhos de interpretação impressionantes. A D. Zica, de Virginia Rosa, hábil construção sentimental calcada na composição física, também transcende o limite do mecânico, comum neste tipo de construção. Virginia Rosa consegue traduzir uma personalidade solar essencial para a arte do poeta. Revela, em todos os momentos em foco, dentro da longa história de amor do casal, o próprio conceito de companheira, mulher, personalidade amiga, disposta sempre a ajudar, abrigar, apoiar. Virginia Rosa materializa o principio feminino essencial para as escolas de samba e, em particular, para a Mangueira, a delicadeza das pastoras somada à vibração intensa da matriarca.

 

E o longo elenco, mesmo no caso dos nomes mais inexperientes, tem o mérito da devoção ao credo maior da poesia. Augusto Pompêo traduz em notas sóbrias, exatas, o pai hierático e músico, Eduardo Silva é um Carlos Cachaça de pura cepa, Silvetty Montilla desenha momentos divertidos, de respiração da ação, com a sua hilária Aurélia Pitangas, o tipo popular de mulher exagerada, um tanto mulher árvore de Natal.

 

De resto, é aquele problema – para viver no Brasil, suportar o Brasil, Deus nos deu um remédio chamado Cartola. Para sobreviver, precisamos receber sempre doses alentadas desta poção mágica na veia, mergulhar neste universo em que a beleza da poesia se faz lei. Não espere para oferecer este banho de luz humana à sua alma: corra para o Carlos Gomes e aproveite. A grandeza e a generosidade de Cartola foram absorvidas pela cena, elas estão lá – e este tesouro, a cena quer dividir com você. Aceite: ainda há tempo. O Rio de Janeiro, tão sofrido, agradece.

 

Ficha Técnica
 
Idealização: Jô Santana
Dramaturgia: Artur Xexéo
Direção e Encenação: Roberto Lage
Pesquisa:Pesquisa: Nilcemar Nogueira
Direção Musical: Rildo Hora
Coreografia: Alex Morenno
Elenco: Flávio Bauraqui, Vírginia Rosa, Hugo Germano, Adriana Lessa, Silvetty Montilla, Augusto Pompêo, Edu Silva, Renata Vilela, Ivan de Almeida, Larissa Noel, Lu Fogaça, Andrea Cavalheiro, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Gabriel Vicente, Rodrigo Fernando e André Muato.
Músicos: Guilherme Terra, Marcus Thadeu, Omar Cavalheiro, Henrique Cazés, Marcio Guimarães, Rodrigo Sanchez, Lucas Brito, Bruno Vieira.
Diretora Assistente: Joanah Rosa
Diretora Residente: Ricardo Gamba
Diretor Musical Assistente: Guilherme Terra
Preparação vocal: Guilherme Terra
Arranjos: Rildo Hora
Arranjos musicais e Música Incidental: Guilherme Terra
Composição Original: Arlindo Cruz e Igor Leal
Designer de Som: Bruno Pinho
Piano e Regência: Guilherme Terra
Figurinos: Luciano Ferrari
Cenografia: Paula de Paoli
Diretor de palco:Ricardo Santana
Iluminação: Fran Barros
Visagismo: Eliseu Cabral
Comunicação: Simone Galiano
Marketing Cultural: Ghéu Tibério
Comunicação Visual: Rafael Porazza
Assessoria de Imprensa:Kassu Comunicação
Assessoria Jurídica: Mario Mafra
Coordenação de Produção: Renato Araújo
Produção de elenco: Ricardo Gamba
Fotografia de Estúdio: Vânia Toledo
Fotografia de Cena: Lenise Pinheiro
Direção Financeira: Dani Correia
Gestão de Leis de Incentivo: Correia Cultural
Realização: Fato Marketing & Produções

Serviço
Cartola – O Mundo é um Moinho
Temporada: A partir de 16 de Março até 28 de Maio
Onde: Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/n – Centro, Rio de Janeiro – RJ, 20060-050)
Capacidade: 644 lugares
Quando: De 5º a Domingo
Horário: As quintas, sextas e sábados às 19h e domingos às 17h.
Censura: 12 anos
Duração: Duas horas e meia
Ingressos: Quintas e sextas R$ 70,00; sábados e domingos R$ 80,00.
Vendas: ticketmais.com.br
Vendas para grupos: (21) 21466527