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A musa de outubro

Outubro é incandescente – sabe por quê? A razão é simples – é o mês de Fernanda Montenegro. Este outubro, não duvide, será mais incandescente do que todos os outros, 90 primaveras daqui para trás. Pois neste mês de outubro, no dia 16, Fernanda Montenegro completará 90 anos.

Portanto, nem tente fazer com que o mês registre outra homenagem. Não é negligenciável o fato de contarmos com uma atriz de refinada sensibilidade, dedicada à sua arte por toda a vida, imersa no seu trabalho… e vê-la completar noventa anos em atividade. Trata-se de um fato histórico e como tal deve ser celebrado. Não é todo dia que se tem o privilégio de viver um fato histórico.

Sim, somos privilegiados e o privilégio nos acolhe em vasta extensão. Pois agosto, ainda pouco passado, foi o mês de Nathalia Timberg. Ela também completou 90 anos e em atividade, um turbilhão de lucidez, graça e inteligência. A vitalidade de Nathalia Timberg permitiu que ela comemorasse o seu quase século em cartaz com duas peças e uma novela, fato realmente admirável.

Agora, temos novos motivos para vibrar. Os noventa anos de Fernanda Montenegro chegam com a atriz alcançando imenso sucesso popular na novela da TV Globo, A Dona do Pedaço.  Mas não foi só isto. Inquieta, dinâmica, ela percorreu o país para lançar o seu livro Fernanda Montenegro: itinerário fotobiográfico, editado com primor em 2018.  E mais – como atividade do lançamento, apresentou o monólogo Nelson Rodrigues por ele mesmo, em que lia textos do dramaturgo.

Mas este rol de atividades, um roteiro em que não se furtou a movimentadas sessões de autógrafos capazes de extenuar mortais comuns, não será o único grande evento das comemorações. Agora – neste mês de outubro célebre – temos a graça de ver chegar às livrarias o volume de memórias Prólogo, ato, epílogo: memórias, edição da Companhia das Letras.

A obra, escrita em colaboração com a jornalista Marta Góes, uma entrevistadora exemplar, percorre a história de vida da artista na primeira pessoa, com texto direto, saboroso e inspirado. A narrativa vem desde os antepassados, imigrantes dedicados a ganhar a vida com o trabalho árduo, e vale para desenhar a grandeza de uma pessoa pródiga em valores humanos nobres, dotada de senso estético refinado, empenhada na doação de sua energia criativa mais pura à sociedade.

Fernanda Montenegro é um luxo. E é um luxo por ser quem ela é, um ser de exceção, e por pertencer a uma notável geração de artistas, uma geração marcada por um sentimento histórico excepcional – a busca da grande arte, a favor da construção de uma forma expressiva nacional arrebatadora. Intensos, generosos, estudiosos, requintados, os artistas-devotos desta geração criaram uma forma de expressão brasileira moderna, afinada com a acelerada transformação da sociedade brasileira a partir, sobretudo, dos anos 1950.

A nossa dívida para com eles é imensa – e parece muito esquisito, para ficar numa palavra branda, que se possa cogitar não reconhecer este legado, uma construção sensível fundamental para a identidade do país. Talvez exista um desejo hoje, confuso e difuso, de negar a nossa face ocidental, civilizada e requintada. Só esta opção pela barbárie justificaria a hipótese da ignorância do edifício moderno, do qual Fernanda Montenegro é um dos pilares principais.

Cariátide sublime, importa destacar – para todos os brasileiros que até hoje puderam vê-la representar, no palco, na televisão, no cinema e até, pois não, ouví-la no rádio, ela é uma referência obrigatória. E por quê? Qual o seu mistério? O que define esta condição sublime?

A resposta precisa ser a um só tempo eloquente e objetiva. Fernanda Montenegro é o próprio ser-mulher em estado puro, cristalino, sem pejo das saias e sem medo das calças. Fernanda é a voz-mulher que ergue lares, cria filhos, orquestra cozinhas e mesas, olha de frente o mundo como lugar da vida que precisa ser vencida, vida projeto. Existe em Fernanda Montenegro uma diretriz límpida – a certeza afetiva de que a vida vai vingar, vai acontecer, custe o que custar. Fernanda Montenegro é a mulher nacional, guerreira, que sustenta este país há séculos em cada rincão perdido. Assim, ela é afeto e é voz firme, ela é doçura e convicção, ela é dúvida e decisão – como se sempre houvesse um amanhã para enfrentar depois do aqui-agora.

A primeira vez que vi Fernanda Montenegro em cena eu ainda era apenas plateia, gostava vagamente de teatro,  nada dizia que iria me dedicar ao estudo da cena. Fiquei hipnotizada pela atriz, impressionada mesmo com a força do seu desempenho – a peça, uma montagem comercial de qualidade requintada, foi Seria Cômico… Se Não Fosse Trágico, de Dürrenmatt, direção de Celso Nunes. A partir de então, vi todas as encenações de que participou e sempre fiquei impressionada com a força interpretativa vulcânica da atriz.

Depois que comecei a trabalhar com pesquisa em História do Teatro e com crítica teatral, fiz algumas entrevistas com Fernanda Montenegro e algumas vezes a conversa foi mesmo por telefone. Sempre, em todas as ocasiões, me impressionou a racionalidade, a lucidez e a límpida capacidade expressiva da atriz. Conheci, então, um outro lado da artista, a sua aguda capacidade de pensar o próprio trabalho, os meneios do seu ofício, a cena e a história da cena no Brasil. E o Brasil. Fernanda Montenegro é uma alma brasileira sem fanfarras, puro coração.

Devo a Fernanda Montenegro muito da inspiração para a escrita do meu livro sobre o Teatro dos Sete, escrito em boa parte a partir de seu depoimento sobre o grupo e ao redor de indicações suas a respeito das rotinas teatrais cariocas. A pesquisa fora iniciada como uma pesquisa de encomenda para o antigo SNT, formulada por Carlos Miranda, para a edição de uma revista Dionyso. A publicação da revista foi cancelada por falta de verba e fui autorizada a publicar os dados que reuni, sob a forma que eu quisesse. Quando finalmente  preparei os originais do livro, os diálogos com Fernanda foram decisivos.

Ainda que cercada por homens dinâmicos, muito centralizadores e realizadores, Fernanda Montenegro jamais se recolheu ao pedestal de diva de mármore – sempre foi uma cariátide animada, dotada de voz e de movimento, capaz de influir decididamente na gestão, gerência e execução de projetos. Os seus partners mais celebrados, Fernando Torres e Sérgio Britto, eram  o que se convencionou chamar “homens de teatro”. Atuaram de forma decisiva a favor da carreira da atriz – mas ela nunca esteve ao lado deles como se fosse uma boneca de ventríloquo, sem cérebro e voto. Ao contrário, até – vários projetos aconteceram por causa de sua ação.

No Teatro dos Sete, um lugar de criação que efetivamente propôs a cena moderna, a encenação, sob um conceito carioca, ao Rio de Janeiro, Fernanda Montenegro encontrou um palco de excelência para mostrar a sua arte, a arte do seu tempo, à sua cidade. A primeira montagem, Mambembe, de Artur Azevedo, de 1959,  no Teatro Municipal, se tornou uma das grandes montagens históricas do teatro brasileiro – uma cena de referência obrigatória em qualquer antologia a respeito do teatro nacional.

Ainda que o grupo não tenha tido vida longa, nem tenha assinado muitas montagens, a sua importância é um fato objetivo. Significou – para o bem e para o mal – a base para a construção da sua carreira a seguir, de montagens isoladas, dentro de uma prática comercial de qualidade. Nunca foi deixada de lado a busca da excelência da arte.

Foi esta mesma Fernanda Montenegro que em 2010 presenteou as mulheres do país – e, com certeza, os homens verdadeiramente atentos ao estado da vida hoje –  com uma encenação seca e rascante de um recorte de textos e das memórias de Simone de Beauvoir.  Para iniciar um século que certamente será o século das mulheres, nenhuma escolha poderia ser melhor. Ou ser mais generosa – ato de sororidade plena, quando tantas batalhas ainda precisam ver enfrentadas.

Por tudo isto, por sua extensa carreira artística, por seu interesse decidido em trabalhar com os valores da sociedade brasileira em sintonia com o processo histórico e humano do país, Fernanda Montenegro é a nossa grande homenagem de outubro. Outubro Fernanda, outubro rosa, outubro amor ao existir e ao ser, amor ao sentir, outubro rubro, incandescente de amor nacional por esta atriz exemplar. Que a homenagem do mês signifique celebração eterna, reconhecimento perene, pois existem tons de vida maiores, tão elevados que calam todo o resto, calam as miudezas desprezíveis. Louvemos Fernanda Montenegro e brademos por toda a parte: outubro é dela.

Ficha técnica

LIVRO

título: PROLOGO, ATO, EPILOGO: MEMORIAS

autor: Fernanda Montenegro

isbn: 9788535932553
idioma: Português
encadernação: Brochura
formato: 16 x 23 x 3

páginas: 392
ano de edição: 2019

ano copyright: 2019

edição: 1ª

sinopse: No marco de seus noventa anos, as memórias de Fernanda Montenegro trazem o frescor de uma artista eternamente genial.

Description: http://img.travessa.com.br/capitulo/primeiroCapitulo.png

primeiro capitulo: clique aqui