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Sintonia universal

Não fique triste, enxugue as lágrimas, erga a cabeça. Você se tornou um ser histórico de grandes dimensões. Nunca, tenho a mais cristalina certeza, você sonhou viver um cataclismo histórico deste tamanho. Quem de nós sobreviver, terá muita coisa para contar. E quem não sobreviver, ainda assim vai virar lenda, morreu na grande crise.

De repente, a placidez da vida foi para o espaço, estourou como uma bola de sabão. Nunca mais seremos os mesmos. Aproveite e faça uma faxina geral, mude tudo, sacuda a poeira por toda a parte, desentorte o esqueleto. Pense bem: você tem a chance de se tornar outra pessoa. A História lhe dá a ocasião.

A História importa muito. Aliás, nela, as peripécias do teatro são inacreditáveis. Até o auto-apagamento decidido o teatro já sofreu, para poder existir. Contraditório? Será? Às vezes, o preço para sobreviver é, exatamente, sair de cena. Entrar em  quarentena, se meter embaixo da cama, por exemplo. Assunto bem familiar, não?

Para quem é de teatro, sair de cena na marra e mergulhar na quarentena ou retiro não é novidade. Os que se espantam devem tomar uma atitude urgente: correr para os livros. Neles, poderão ver quantas vezes o teatro se apagou, se escondeu, fugiu, foi fugido, enfim, conjugou inúmeros verbos com este simples significado, sumir das vistas.

Portanto, de tantas escaramuças, duas conclusões obrigatórias. A primeira, nem por isto a arte fujona morreu, a segunda, bem por isto importa dizer que não existe o teatro. Existem teatros. Formas múltiplas multifacetadas de representação – ou de apresentação – da vida humana, para os contemporâneos.

Mas, agora, há algo diferente no ar e não é o corona vírus. Talvez o comentário seja óbvio, talvez você já tenha se dado conta, mas a crise de agora traz uma oportunidade histórica inédita – pela primeira vez na nossa era será possível para o teatro se pensar em relação ao mundo.

O risco de estrangulamento social, objetivo e real, força o pensamento a respeito dos compromissos da arte. Vale o destaque: nem as grandes guerras produziram uma suspensão do sentido da vida comparável. Estamos diante de um fato novo, inédito. Temos tudo e nada temos, trancados em casa.

Para ter uma noção precisa dos contornos únicos deste momento, algumas medidas são urgentes. Especialmente se você duvida de que este enorme tsunami histórico esteja mesmo acontecendo. Aproveite a quarentena, ponha o vírus para trabalhar a seu favor, saia um ser renovado desta complicação.

Vale estudar História. Ao longo dos tempos, nunca o teatro desfrutou da  estabilidade que hoje, aparentemente, o palco usufrui. Para muitos, pode soar como heresia, mas o mercado emancipou o teatro, permitiu que a arte sobrevivesse em sintonia plena com os seus interesses, seguisse o seu destino. Portanto, apesar de tantos momentos difíceis, o mercado trouxe uma era em que, ironicamente, floresce-se, não é preciso se esconder…

Quer dizer – em parte, na verdade. O mercado tem uma estrutura, ou seja, um preço. O mercado pulsa a partir do senso comum, da opinião pública – neste quadrado, até a rebelião acontece como rebelião permitida, choque autorizado.

Portanto, o teatro é o teatro que o mercado permite ser. A ambição para alguns segmentos que se desejam bastante rebeldes, saudavelmente rebeldes,  ou até rebeldes descabelados, segue os limites de possibilidade ditados por sua época. A transgressão é a transgressão possível no seu tempo, pois ela precisa ser entendida. É duro reconhecer, mas está no programa do tempo a malcriação teatral possível, necessária, aceitável.

Pense, por exemplo,  nas radicalidades maiores da arte, totais e absolutas, os inovadores revolucionários da linguagem, e verifique que eles não são do teatro, pois o teatro precisa ser diálogo, entendimento, precisa ter público, precisa ser interlocução. O teatro é escravo do presente.

Van Gogh, para ficar no caso mais popular, não poderia acontecer no palco. Qorpo Santo, por mais que se tenha buscado promover a sua aclamação, segue como autor perdido, encerrado no seu tempo, incapaz de se comunicar com a plateia contemporânea.

Assim, há na essência do teatro, em todos os tempos, um desejo profundo de estar em comunhão. Não, não é religião, mas uma forma de pensamento coletivo em que um grupo, engajado no fato teatral, aceita “ser junto”, quer ser junto.

A atenção primeira do teatro é o espírito do seu tempo: o ator busca, desde as primeiras cenas, reconhecer no público o ímpeto que arrasta as sensibilidades ali e agora. Todo ator de verdade sabe deste mistério profundo de sua arte,  persegue este encontro. A frustração de não encontra-lo é muito doída. O prazer de alcança-lo é inebriante.

Portanto, vivemos uma crise histórica de proporção imensa, inédita. Teatros fechados, como se assolados pela peste, ruas vazias, espectadores em casa. Muita gente da classe já está em sintonia com este novo momento. Nas pautas de todos foram inscritas três linhas de ação distintas, mas complementares.

A primeira, organizar um movimento para garantir a recuperação da atividade, assim que tal se torne possível. A segunda linha, a criação de dispositivos de ação social para minorar o sofrimento dos setores sociais mais frágeis, da categoria e da sociedade civil. A terceira, manter-se em atividade, apesar de tudo, banhar a coletividade em arte: a internet está aí. Chegamos na era do teatro virtual.

Não há o que duvidar, o momento é de atividade febril. Além da rotina habitual de cada um, há uma nova necessidade, a de cumprir tarefas domésticas essenciais, com a redução drástica de colaboradores ou sem auxiliares, também recolhidos em quarentena.

Por isto, é adequado supor o nascimento de uma outra dimensão histórica, além da crise objetiva. Trata-se da nossa reinvenção, um momento iluminado e raro, para sermos outros. O açoite do tempo nos diz: sejam sociais, olhem qual é a sua fortuna rara e abundante e compartilhem.

Não precisa ser dinheiro, vil metal, muito embora a hora brade, para todos, que o dinheiro é um bem social, ninguém é rico ou se torna rico fora do espaço social. Então, é também a hora de assumir o compromisso social do dinheiro.

Mas, para valer, cada um tem dentro de si imensos tesouros. A ordem surge simples: mostre-os. Mostre-os na arte, na vida, na internet, na forma de olhar o outro. Ao ato simples de viver, somam-se as novas exigências – não fique parado, engaje-se na nova onda, seja História.

Serviço:

APTR – Para saber mais sobre projetos de assistência e proteção aos carentes em geral, em especial a situação da Renda Básica de Emergência.  I

Informes sobre apoio às artes, em especial ao teatro:

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Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos fazem levantamento de artistas e músicos para o envio de cestas básicas.