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As letras: elas falam de nós

Digam o que quiserem. Falem e deixem falar. Façam um turbilhão de palavras, palavrinhas, palavrões. Pois é, lá no fundo, o teatro continua a ser apenas palavra, letra. Não temos ainda um teatro transcendental, de pura energia ou sublime contágio.

Dizem alguns estudiosos que o teatro de Antonin Artaud (1896-1948) seria esta promessa: um fluxo contagioso e contagiante de emoções, algo semelhante à transmissãoo da peste. A palavra, então, estaria liquidada. Velha ferramenta de uma sociedade mecânica.

Nunca vi nada no teatro que funcionasse assim. Não sei se já existiu uma representação capaz de irradiar ondas de sensibilidade hábeis o bastante para abraçar a todos e dominar as presenças. Puro fluxo não verbal de emoções e sensações…

Já vi certa vez um fenômeno curioso – um ser dotado de algum colorido artaudiano, o diretor inglês Peter Brook, veio ao Brasil e apresentaria uma aula-conferência na Cultura Inglesa. Na hora marcada, diante de uma vasta sala-auditório, o diretor apareceu e encarou aquele popular burburinho brasileiro.

Apesar da figura emblemática lá na frente, quase no mesmo plano que a plateia, pois não havia um palco, o povo se mantinha aceso. Nenhum silêncio. Nenhuma escuta ou contemplação.  Era o carnaval expansivo típico do país.

Pois o inglês não se incomodou a mínima. Ficou lá, estático, contemplativo, na expectativa de que os ânimos mudassem. Aos poucos uma onda de quietude surpreendente tomou a sala. Logo ela ultrapassou aqueles quinze minutos possíveis, depois dos quais o silêncio se torna maciço, opressivo até, insuportável. Pois só quando o silêncio se tornou verdadeiramente colossal, gigante como uma pirâmide faraônica no meio do deserto, ele começou a falar.

Sempre fiquei pensando na possibilidade de um teatro assim – pura emanação. Volta e meia, talvez por causa da minha propensão ao humor, penso que este teatro já existe: é o musical, claro. No gênero, há uma energia vital vigorosa do palco para a plateia, capaz de incendiar o público e irradiar de volta, mais forte ainda, para a cena. Mas – hélas – as palavras estão por lá, nas letras…

Isto significa algo muito simples: somos viciados em palavras, dependentes das letras. Letrômanos, seria o neologismo adequado? Portanto, não há saída: estamos condenados a louvar as letras até a exaustão, se for possível cogitar esta peripécia, a exaustão das letras…

No entanto, ao menos por aqui, neste estranho país que nasceu de uma carta (e a carta de Caminha é ou não nossa certidão de nascimento?), as letras não são preciosos tesouros sociais. A celebração dos nossos autores nunca é forte o bastante.

De certa maneira, vivemos como se fôssemos uma sociedade com uma espécie de afasia – a palavra plena nos escapa. Pois deveria fazer parte de nossa rotina de vida cidadã a celebração de cada novo autor que  surge. Sim, estou falando de Saulo A. Sisnando, escritor, dramaturgo, ator e diretor teatral.

Na verdade, nem se deveria falar de Sisnando como se ele fosse um novo autor – pois, ao fim e ao cabo, ele já escreveu mais de uma dezena de peças e já conta com uma lista expressiva de prêmios. Mas a consagração brasileira é tortuosa, acontece, mas não se mostra. É prima da capa de invisibilidade do Harry Potter: a figura se abriga sob ela e… desaparece!

Agora, o autor de Susto, Desertos, A Outra Irmã, está em cena num momento histórico, a reabertura dos teatros no Rio. E chega naquela modalidade mais envolvente, que mexe com a alma, o coração e o corpo de todos. Ele vem com a assinatura da trama de um delicioso musical, Charles Aznavour – Um Romance Inventado, um texto imperdível, deliciosa homenagem a Charles Aznavour.

Sim, estão de volta os musicais – Claudio Botelho e Claudia Netto surpreenderam a todos com um bem urdido e oportuno Brasileiro: Profissão Esperança. E de repente, sob controle sanitário restrito, o teatro retornou com um ímpeto admirável.

No texto original de Sisnando, estão em cena Sylvia Bandeira e Maurício  Baduh. Eles expõem uma trama sentimental inteligente, pontilhada por canções inesquecíveis ou históricas do grande cantor francês. E a plateia poderá lavar a alma, exorcizar a opressão de um tempo sombrio.

Pois em Charles Aznavour – Um Romance Inventado o caso é bem claro: é preciso reinventar o amor, as palavras tecidas por Sisnando apontam para isto. Brincam com a biografia do francês, mas sobretudo revelam como é fundamental amar, mesmo que sob jogos confusos ou contraditórios…

Vale levar o foco para este ponto – se a vida se revela como um jogo, uma trama coletiva pautada pela competição, a palavra existe como uma ferramenta essencial de interação. A condição de trama ou jogo denuncia a ausência de um pulsar coletivo, evidencia oposições. Portanto, a interação pode até ser negativa, puro conflito.

Conclusão lógica, estamos obrigados a lidar com a palavra, refiná-la, fazer com que o exercício intenso do verbo nos conduza a um requinte de êxtase, ao amor. Pois o ponto mais sofisticado da comunicação – este movimento do ser para o exterior – é mesmo o amor. E, se Artaud não reclamar, talvez seja justo afirmar que a natureza verdadeira da peste, tal como descrita por ele, é o amor. O encontro, a pulsação mais adiante do verbo.

E o que fazer, enquanto o amor não vem? Burilar o verbo, sujeição à palavra. A trilha aparece clara num projeto inquieto, particularmente mobilizador para o tema do feminino. Trata-se da encenação de Era Medeia, espetáculo em cartaz desde 2019, que assume a bela tarefa da reabertura dos Teatros Firjan Sesi.

A montagem, dirigida pelo jovem Eduardo Hoffmann sob a supervisão de Cesar Augusto, recorre ao assunto clássico para trabalhar um tema essencial – a relação entre ação, discurso  e valores éticos. A sintonia fina possível – ou impossível, para tantos – entre intenção e gesto.

A ação do texto se passa durante os ensaios de uma proposta de adaptação da tragédia clássica Medeia, de Eurípedes. Em cena, um diretor (Eduardo Hoffmann) e uma atriz (Isabelle Nassar) apresentam o que seria um ensaio aberto do espetáculo.

Aos poucos, surge no palco uma situação de opressão e de abuso, recortes da relação pessoal dos personagens, uma exposição de detalhes da vida da dupla, um ex-casal. Se de alguma forma Medeia pode ser vista como uma mulher que rompeu uma forma de opressão, tal não se dá exatamente na relação do casal em cena, atriz/diretor.

Mas o cálculo da montagem vai adiante. Ele ultrapassa o quadro do debate da situação de opressão feminina, para chegar à reflexão a respeito da situação da arte e da diversão hoje, uma época em que a privacidade devassada atrai forte atração pública, mais do que a exposição dos valores artísticos.

A proposta sintoniza, de certa forma, com o debate a respeito do “fim da ficção”, quer dizer, a busca das plateias pelos simulacros de realidade evidentes no sucesso dos reality shows. Neste caso, haveria a possibilidade de falar na dissolução do vínculo antigo entre palavra e verdade – se não se procura a invenção, a poesia, o que há nestas cenas, arremedos de vida que simulam a verdade?

Há em Era Medeia uma espécie de supressão do autor – o autor original, no caso o velho Eurípedes, seria tragado pelas preocupações cotidianas da contemporaneidade. Afinal, Medeia é uma figura gigantesca da mitologia grega e talvez, diante do tema do feminino, os detalhes mais contundentes do seu perfil ainda estejam muito nebulosos.

De toda a forma, a retomada do velho texto, o mergulho das letras antigas no nosso cotidiano e a atração intrigante despertada por uma mulher capaz de matar os filhos por desamor não deixam dúvida – a palavra e o debate acerca da palavra no teatro persistem no centro da cena.

Assim como a trama sentimental de um musical, são amados protagonistas antigos. Revelam a força do trato da palavra para a cena que pretende ser humana companheira: e o motor do palco, apesar de Artaud, ainda é o verbo. O velho e gasto verbo ocidental.

Canções de amor para encantar…
Charles Aznavour – Um Romance Inventado
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Sylvia Bandeira
Texto: Saulo Sisnando
Elenco: Sylvia Bandeira e Mauricio Baduh
Direção: Daniel Dias da Silva
Direção Musical e Arranjos: Liliane Secco
ROTEIRO MUSICAL: 01. Que C’est Triste Venise 02. Hier Encore 03.Comme Ils Disent 04. Sur Ma Vie 05. Je T’attends 06. La Mamma 07. Les Deux Guitares 08. Il Faut Savoir 09. La Bohème 10. Et pourtant 11. The Old Fashioned Way 12. Je Voyage 13. Les Comédiens 14. She
Músicos: Liliane Secco e Ulisses Nogueira
Iluminação: Felício Mafra
Cenário e Figurinos: Gisele Batalha
Assistente de Cenário e Figurinos: Victor Aragão
Direção de Movimento: Marluce Medeiros
Fotos: Luciana Mesquita
Artes gráficas: Cacau Gondomar
Produção executiva: Nicholas Bastos
Coordenação de E.P.I.: Cleiton Belmiro
Direção de Produção: Cacau Gondomar e Sandro Rabello
Produção Associada: Minouskine Produções – CLG Produções – Diga Sim Produções
Assessoria em Comunicação: Alberto Bardawil e Luiz Menna Barreto  
SERVIÇO:
Teatro das Artes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente 52 – 2º Piso tel: 2540-6004
Sextas e sábados, 20h. Domingos, 19h.
Temporada de 10 de setembro a 31 de outubro.
Ingresso: R$120 (meia entrada para todas as faixas etárias)
Duração: 70 minutos
Link: https://divertix.com.br/teatro/charles-aznavour-um-romance-inventado
O Teatro das Artes segue as normas de saúde determinadas pelo governo local. Com  capacidade reduzida, álcool gel espalhado em pontos estratégicos, uso de máscaras nas áreas comuns, distanciamento mínimo obrigatório entre o público e sanitização do teatro entre as sessões, de acordo com as normas vigentes.        

Era Medeia
FICHA TÉCNICA:
Texto e direção: Eduardo Hoffmann
Supervisão artística: Cesar Augusto
Argumento: Marina Monteiro
Elenco: Isabelle Nassar e Eduardo Hoffmann
Produção: Guilherme Nanni
Assistente de produção: Paula Magalhães
Iluminação: Renato Machado
Figurino: Tiago Ribeiro
Costura: Ateliê das Meninas (Maria e Zezé)
Concepção cenográfica: Cesar Augusto e Eduardo Hoffmann
Produção de adereços: Patrícia Ramos
Trilha sonora: João Mello e Gabriel Reis
Arte gráfica e identidade visual: Márcio de Andrade
Produção de vídeos: Celavi Filmes (Eduardo Paganini e Jamal Dizete) Assessoria de imprensa: Rachel Almeida (Racca Comunicação) Fotografia: Renato Mangolin  
SERVIÇO:
Mais informações sobre a reabertura dos Teatros Firjan Sesi: bit.ly/2X4ZRT8
Teatro Firjan SESI Jacarepaguá: Av. Geremário Dantas, 940, Freguesia, Jacarepaguá.
Dia 18/09  – Sábado, às 20h. Telefones: 21 3312-3787 e 21 3312-3750
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).
Vendas: Somente pela Sympla (www.sympla.com.br)
Duração: 1h Lotação: 61 pessoas
Classificação Etária: 14 anos.
Teatro Firjan SESI Centro: Av. Graça Aranha, 1, Centro
Dias 24/08 (sexta), às 19h, e 25/09  (sábado), às 17h. Telefone: 21 2563-4168
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).
Vendas: Somente pela Sympla (www.sympla.com.br)
Duração: 1h
Lotação: 61 pessoas
Classificação Etária: 14 anos.