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Bia Lessa, a crise e o teatro nosso de cada dia

O país em crise, sob um estresse violento. E eu aqui, para sempre um ser fora da linha, obcecada por teatro, como se o palco persistisse, sob este vendaval de agora, com a mesma importância festeira dos dias de calmaria social. Quer dizer, vale perguntar se, na sociedade brasileira, existe a chance de atribuir uma importância festeira ao teatro, sob qualquer clima que seja. A festa nasce apenas do olhar dos que amam a cena, desconfio.

 

Mas, rápida, afasto a dúvida – acredito no teatro, no poder do teatro, na sua importância. Com sinceridade. Tenho a certeza cristalina, inabalável, de que o teatro importa para a vida, para a felicidade do indivíduo e para a felicidade social. Está fora de discussão, a meu ver, o imenso poder do palco para transformar o ser humano. No fim das contas, resta perguntar se a nossa sociedade conhece mesmo calmaria. Tirando aquela lá longe, na costa da África, que serviu de álibi para o Cabral, o velho, o saldo parece duvidoso.

 

Sim, lamento, mas é assim. Fiz o meu balanço pessoal e cheguei à conclusão de que, na minha rotina, ao longo da minha vida, a exceção foi, de verdade, toda esta época recente, desde os anos 1980, em que simulávamos singrar um mar de almirante, planar num céu de brigadeiro. Não uso uma imagem de general porque, para eles, parece que não existe esta necessária metáfora. Marchar num campo de general? Um campo de general, seria o quê? Repleto de margaridas? Alheio a minas e bombas? Desconfio que a imagem não funcione, talvez o exército esteja sempre nas agruras.

 

Pois bem – pode parecer estranho para alguns, mas herdamos um momento histórico tranquilo dos militares, exatamente. Depois do horror que foi a vida sob os governos militares, veio a restauração democrática e se instalou este clima de sociedade estável, que nem na minha infância, nos conturbados anos 1950, não vivenciei. Fui uma menina muito preocupada com travessuras, brincadeiras e livros, mas, ainda assim, lembro que havia uma atmosfera de sobressalto constante. Pelo menos uma vez arrumei uma trouxinha de tralhas para fugir de casa, para diversão dos adultos. Ameaça de instabilidade, por ar, terra e mar.

 

Portanto, tudo como antes, no quartel d’Abrantes. E se estamos condenados a existir em desassossego, que ao menos tenhamos o teatro para nortear o descaminho. Esta possibilidade de ver o rumo, por mais esgarçado que seja, em meio ao caos, já nos visitou este ano no mínimo uma vez, com a belíssima montagem de Grande Sertão, Veredas, de Bia Lessa, no Centro Cultural Banco do Brasil.

 

A inventividade plena da encenadora sacudiu o espaço, reinventou com olhar certeiro o texto, expôs uma forma sinuosa de atuação entre multifacetadas formas do humano e conduziu o público a um impressionante mergulho-Brasil. Um dos pontos mais curiosos, momento muito denso, foi o uso dos cobertores de feltro, aqueles usados pela população de rua, para fazer figuras humanas, evocações dos soldados chineses de terracota, numa época em que a China integra o nosso pesadelo para definir o país.

 

Pois bem, Bia Lessa está de volta, em São Paulo. Agora a proposta vai ainda mais longe, vai questionar os limites concretos e abstratos da vida, do ser, da representação. O espetáculo PI, Panorâmica Insana, conta com dramaturgia de Bia Lessa, Júlia Spadacini e Jô Bilac. Um mosaico, um caleidoscópio, um painel do indivíduo no nosso tempo vai inaugurar um espaço cênico em São Paulo, o Teatro Novo.

 

O processo de criação foi todo ele marcado pela busca da trama complexa que enreda o contemporâneo – quer dizer, em cena, estão em jogo formas plenas, amplas, uma combinação de procedimentos que justifica o recurso ao substantivo panorâmica. A própria dramaturgia foi desenhada a seis mãos a partir de textos de Júlia Spadacini, Jô Bilac e André Sant’anna, com citações de Kafka e Auster.

 

No elenco, os nomes de Claudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo atestam a excelência pretendida na representação. Representação? Aí começa o debate. A fluidez da linguagem é o cálculo primeiro – a cena pretende vagar entre o teatro, a dança e as artes plásticas. O cálculo foi pensado para alcançar um objetivo claro: olhar para a sociedade contemporânea nos seus meandros e descaminhos. Mas não está em vista a produção de um simulacro.

 

A partir de dados e de pessoas reais, a cena focaliza o indivíduo, a política, a riqueza, a miséria, a violência, a nação, a civilização, o desejo, o gênero. A observação da vida aqui e agora está sob o foco, mas para buscar atingir o atemporal, um tempo de humanidade em que há lugar para o reconhecimento, a dúvida e a ironia.

 

O espaço usado participa da ideia – o teatro, em obras, foi preparado para receber a montagem, mas está inacabado, entre a ruína e a obra concluída. Na área de representação, 8 mil peças de roupas serão usadas pelos atores em suas performances, uma insinuação de seres múltiplos e transitórios – ao final da temporada, as roupas serão doadas para instituições de caridade. E o flerte com o transitório se faz ainda na paisagem sonora, construída em camadas de música, ruídos, sons, vozes, como aconteceu em Grandes Sertões.

 

Portanto, há um sinal a propósito do em trânsito, da passagem, da hesitação – um pouco como se a humanidade estivesse neste hiato de tempo, necessitando de um teatro de invenção. O que se aponta, aqui, é a necessidade do novo, da ousadia, do corte e da ruptura com velhas formas, mas sem perder o molde e o fôlego.

 

Que cálculo é este? Se olhamos com atenção a História, vemos bem claramente que é impossível falar na existência do teatro. Nunca existiu o teatro, um teatro, a mesma e repetida arte. Cada tempo faz o seu palco, faz nascer a cena de que precisa para lidar com as mazelas de sua alma. O teatro é cria do seu tempo. Na História, o máximo que podemos encontrar é a pluralidade, os teatros dos diferentes homens no mundo.

 

Vivemos num tempo múltiplo, instável, contraditório, dilacerado, multifacetado. Temporalidades estilhaçadas, antagônicas, contraditórias, fragmentárias varrem a vida, coexistem e buscam arregimentar fiéis. O ser humano precisa cuidar de si e de sua independência, do seu direito pleno de ser. Haverá um teatro adequado para cada uma das forças em jogo? Ou só recorre ao teatro quem percebe os abismos da vida?

 

Agora, então, no Brasil, é preciso serenar a mente e os afetos para tentar entender verdadeiramente o que acontece, fora dos interesses cristalizados espalhados por toda a parte, desde Cabral – o velho. Para cada inquietação, seria importante ter uma cena. E cenas arrebatadoras, vertiginosas, universais, aptas para falar a todos, libertas de qualquer calmaria.

 

Um belo exemplo? Talvez Bia Lessa trafegue por este caminho. Não sei: vou a São Paulo ver. E vai ser divertido reconhecer justamente em São Paulo uma bela panaceia, concebida por uma carioca de quatro costados, para o dolorido momento nacional. O país está em profunda crise – mas talvez nenhum ponto do vasto território esteja tão dilacerado como o meu velho Rio, que afunda em mar revolto: esperemos contar com o abrigo de um afável porto, a estabilidade de preciosa âncora, nenhum Cabral aventureiro de novo por aqui. Ou ao menos um bom teatro forte, para amortecer, na queda, nossos delicados corações.

 

SERVIÇO:

Pi
Panorâmica insana
Teatro Novo (320 lugares)
Rua Domingos de Moraes, 348 – Vila Mariana
Informações: (11) 3542-4680
Bilheteria: terça a quinta, das 14h às 19h; sexta a domingo a partir das 14h. Acessibilidade para cadeirantes. Estacionamento conveniado(em frente ao teatro).
Vendas: www.ingressorapido.com.br
Sexta e Sábado às 21h | Domingo às 18h
Ingressos: Sexta R$ 50 | Sábado e Domingo R$ 70
Duração: 90 minutos
Recomendação: 16 anos
Gênero: Drama
Estreia dia 01 de Junho de 2018
Temporada: até 29 de Julho