Bibi, uma vida em musical Amanda Acosta foto Guga Melgar 22 High-res version

Teatro: a fábrica do inefável

Dizem os cientistas que a matéria existe aqui, ao nosso redor, em três estados: sólido, líquido e gasoso. Basta ter sensibilidade aguçada para perceber o quanto eles estão errados, pois os estados da matéria são cinco – sólido, líquido, gasoso, musical e inefável.

 

Todos os que amam verdadeiramente a música sabem o que é o estado musical. Não, não precisa saber música, ler partitura, ser musicoescolarizado. Pode ser analfamelo, o equivalente ao analfabeto. Se você gosta mesmo de música, já esteve em estado musical, um estado em que o seu corpo musicalizou, você musicalizou, e nada mais ao seu redor existiu ou fez sentido além da entrega total à música.

 

Já o estado inefável é mais raro. Você precisa ser submetido à mais etérea arte pura. Sob a ação deste estímulo sutil, você vira atmosfera, evanesce, volatiza, ainda que a sua forma cotidiana permaneça por ali. Todo o mundo merece se tornar volátil de vez em quando e para isto existem os grandes artistas. Você não entende bem o que é isto?

 

Valem alguns exemplos – Wagner, em Bayreuth, procurava fazer este milagre, instaurar o inefável. Por causa desta busca, ele achava bom que o público permanecesse de pé, para levitar mais facilmente. Mas não é preciso ir muito longe, Nelson Freire faz isto. Domingo passado, no Theatro Municipal, foi emocionante ver aquela massa de gente sair da apresentação levitando, flutuando no ar com outras pernas, como se o ato de viver estivesse transformado num puro sopro de beleza.

 

Também o teatro pode – e deve, claro – fazer isto. Vivi esta sensação de forma radical durante uma apresentação estonteante da Oresteia, de Ésquilo, direção Peter Stein, da Schaubühne, cenários de Karl-Ernest Hermann, em 1982. A sensação foi tão intensa que permanece vibrante até hoje. Foram seis horas de espetáculo sob chuva, na concha acústica de Caracas, quando a Venezuela queria, em vão, se tornar a capital cultural da América Latina.

 

E qual a importância destes temas esta semana? Em primeiro lugar, parece evidente que o teatro carioca precisa com urgência ativar a sua usina de inefabilidade, produzir com atenção direta na potência transcendental da arte. Na crise, o nosso apego ao outro mundo não deve acontecer apenas através de orações e sermões, mas também a partir de conexão com o inefável, para tornar o sólido fardo da vida menos massacrante.

 

Em segundo lugar, vale destacar uma fala de Conceição Evaristo, a grande escritora brasileira, em entrevista a Maria Fortuna, publicada na coluna Marina Caruso, no jornal O Globo. Ela observa que escreve, pois precisa de algo para não enlouquecer. E frisa adiante – “Hoje, escrever ainda é essa falsa ideia de que se pode consertar o mundo.” É verdade, é impossível consertar o mundo, esta ilusão já passou.

 

Não sei qual poderia ser a continuidade do pensamento da autora, mas, vendo a cena teatral da semana, com vários sucessos de espetáculos negros, acredito que ela aceitaria a ideia de que a cena muda, ainda que se isto se dê na sintonia do inefável, a pessoa humana, cada pessoa, cada uma a seu jeito. E o teatro faz isto em especial quando nos permite viver – nem que seja por um átimo – no estado inefável.

 

Eu nunca, em toda a minha vida de teatro, tinha participado de uma apresentação teatral no Rio com uma plateia negra. A primeira vez foi no Teatro Eva Herz, na semana passada, numa apresentação de Será que vai chover?, texto de Licínio Januário, de profundo interesse, pois lança em cena um Rio de Janeiro negro e histórico, visceral. A trama mistura a necessidade de expandir a consciência negra com a história da cidade e do samba, da Pedra do Sal, e com romance. A vibração da plateia foi um acontecimento arrebatador.

 

Mas a onda inefável consegue ser um tsunami emocional de puro esplendor em Elza, estreia desta segunda. Um elenco de jovens atrizes negras magistrais, sob a direção inteligente e inventiva de Duda Maia, canta, dança, apresenta e representa em tom esfuziante maior a história de vida de Elza Soares. Será um dos grandes espetáculos do ano, imperdível, uma amostra soberba do que a cena negra pode fazer por nós, para a transformação de cada um. O tema é o poder – mas o poder ali onde ele nasce enquanto ação, pessoa pura disposta a virar o jogo cristalizado ao redor, quer dizer, Elza Soares. Todo o mundo, neste mundo de hoje, precisa saber quem é Elza Soares.

 

Falar em mundo traz outro componente curioso do momento, a Mostra Metástase, apoiada pelo Instituto Goethe, um painel instigante da dramaturgia alemã hoje, sob a direção de Ole Erdmann. As peças serão apresentadas em temporadas curtas no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, em Santa Teresa, e no Teatro Café Pequeno, no Leblon. Os textos escolhidos para a mostra são E agora o mundo, de Sybille Berg, Mansão Dolorosa, de Rebekka Kricheldorf, Parasitas e Perplexo, de Marius von Mayenburg e Kolpert, de David Gieselmann. A engrenagem do teatro alemão precisa ser conhecida, sempre, por sua inteligência diante do mundo.

 

Além da potência local, com o teatro negro, liberadora de um imenso arsenal nacional de energia reprimida, e da potência alemã, adepta da voltagem inventiva radical, a cena também está em sintonia com o poder criativo norte-americano, representado com absoluta grandeza em A Noviça Rebelde, um dos espetáculos obrigatórios da história do musical.

 

Assim, a rigor a semana revela nos seus meneios algo novo – a projeção dos musicais, que estão tomando as cenas e as almas das plateias, talvez um gesto indicador de uma busca para um novo estado social, musical e inefável. Também nos resultados dos prêmios se pode ver a força dos musicais, produções que se projetaram bastante nos debates. O público parece se inclinar com muito gosto para o gênero, os elencos apresentam resultados irresistíveis no canto e na dança.

 

A constatação surge natural diante da lista dos indicados ao Prêmio Cesgranrio do primeiro semestre, liberada na última quinta-feira. A votação consagrou os musicais Bibi, uma Vida em Musical e Romeu e Julieta ao Som de Marisa Monte como as grandes atrações do ano até agora. E destacou o delicado Maria!, uma homenagem a Antonio Maria em que a música tece palavras e emoções. Vale frisar que neste semestre esteve no Rio, vindo de São Paulo, o magistral O Homem De La Mancha, uma montagem preciosa assinada por Miguel Falabella não incluída na votação por ser produção paulista.

 

Diante dos fatos, o que se pode dizer? Há uma grande mudança em curso na cena teatral brasileira e ela pode ser notada na força, hoje, dos profissionais dedicados à preparação corporal. Há coerência em sua demanda para que a categoria se torne item dos prêmios de teatro, pois o teatro do nosso tempo deixou de ser o teatro da palavra, do pescoço, da cabeça e do verbo, e se tornou a cena do corpo, da presença, do movimento físico orgânico e da emoção sublime, corpórea. Está começando o reinado de novos estados da matéria humana, o reinado do musical e do inefável, o lugar da cena sutil, uma dinâmica que haverá de se impor cada vez, derrubando visões bolorentas do palco. Se confiarmos nos deuses do teatro, podemos acreditar que o teatro brasileiro está no caminho certo, a favor do humano, do lírico absoluto, da melhor transformação humana.

 

Indicados do Prêmio Cesgranrio do Primeiro Semestre de 2018, sexta edição do Prêmio:

MELHOR FIGURINO
. Ney Madeira e Dani Vidal, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
. João Pimenta, por ROMEU e JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
. Eduardo Giacomini, por NUON
MELHOR CENOGRAFIA
. Natalia Lana, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
. Dina Salem Levy, por CÉREBROCORAÇÃO
. Daniela Thomas, por ROMEU e JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
MELHOR ILUMINAÇÃO
. Paulo César Medeiros, por MARIA!
. Monique Gardenberg e Adriana Ortiz, por ROMEU e JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
. Beto Bruel, por CÉREBROCORAÇÃO
MELHOR ATOR
. João Velho, por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
. Claudio Mendes, por MARIA!
. Marcelo Olinto, por INSETOS

MELHOR ATOR EM TEATRO MUSICAL
. Claudio Galvan, por ROMEU e JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
. Chris Penna, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
. Leo Bahia, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
CATEGORIA ESPECIAL
. Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, pela adaptação e roteiro musical de ROMEU e JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
. Cia. dos Bondrés, pelos 10 anos de atividade em pesquisa de máscaras balinesas
. Andrea Jabor, pela preparação corporal do espetáculo INSETOS
MELHOR ATRIZ
. Gisele Fróes, por O IMORTAL
. Mariana Lima, por CÉREBROCORAÇÃO
. Beatriz Bertu, por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
MELHOR ATRIZ EM TEATRO MUSICAL
. Amanda Acosta, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
. Stella Maria Rodrigues, por ROMEU e JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
. Daniela Fontan, por A VIDA NÃO É UM MUSICAL – O MUSICAL
MELHOR DIREÇÃO
. Henrique Dias e Renato Linhares, por CÉREBROCORAÇÃO
. Leonardo Neto, por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
. Tadeu Aguiar, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
MELHOR DIREÇÃO MUSICAL
. Tony Lucchesi, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
. Apollo Nove, por ROMEU e JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
. Jules Vandystadt, por O HOMEM DO ESPELHO
MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO
. Leonardo Neto, por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
. Leandro Muniz, por A VIDA NÃO É UM MUSICAL – O MUSICAL
. Cristina Fagundes, por A VIDA AO LADO
MELHOR ESPETÁCULO
. BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
. ROMEU e JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
. A ORDEM NATURAL DAS COISAS

Comissão julgadora: Jacqueline Laurence, Carolina Virguez, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Macksen Luiz, Rafael Teixeira e Tania Brandão.