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Lágrimas amargas brasileiras

Chorei todas: chorei de secar a alma, para ver se ela vira múmia e, desidratada, suporto melhor este meu horrendo país. Desculpem, posso falar: sou jacaré com cobra d’água, como a elite local canhestra gosta de dizer daqueles nativos sem berço e brasão. Sim, sou verde-amarela, as cores escolhidas por D. Leopoldina para o país. Sou dessas pessoas.

 

Por isto, escrevo chorando. Sim, senhor Ministro de Estado e tantas Donas Marocas governamentais incompetentes, sou uma das viúvas apaixonadas do museu. E posso lhe informar: a sua batata está assando. O banquete de vocês, corvos do povo, está chegando, quentinho. Aproveitem, empanturrem-se.

 

Sou suburbana e, como todos os suburbanos nascidos na década de 1950, tive uma formação excelente em escola pública e fui impregnada por um nativismo pegajoso herdeiro do Varguismo. Fui guarda da bandeira, escrevi e recitei versos para a pátria mãe gentil e recebi muita educação cultural nos esplendorosos museus do Distrito Federal.

 

Meu pai, entre todas as amantes que cultivou com esmêro por toda a vida, tinha predileção por uma bronzeada e esguia senhorita, a mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Ele não vivia sem carro e adorava enfiar os filhos no calhambeque da vez para flanar por toda a cidade. Um dos altares da pátria cidadã que comecei a frequentar bem cedo, levada por ele, foi a Quinta da Boa Vista e o Museu Nacional.

 

Isto não é memorialismo barato: é uma forma para dizer que a Quinta, um fabuloso parque há bastante tempo em estado de miserabilidade, e o Museu, agora destruído por um inaceitável incêndio, são patrimônios populares inquestionáveis. Por sua localização e graças a um processo histórico doutrinário muito feliz, o Museu se tornou um lugar de afeto suburbano exemplar.

 

Falam tanto de lugar de fala – importa começarmos a falar de uma coisa nova, lugar de afeto. Existem vários no Rio, lugares amados pelo povo, incrustados no imaginário como áreas propícias para o prazer de viver, por sua configuração espacial generosa. O número um é o Museu e a Quinta. O número dois, o Aterro do Flamengo. O número três, o Campo de Santana…

 

E depois… ainda temos a praia de Copacabana, a praia do Flamengo, a Urca. E mais alguns museus – o Histórico, o da Cidade – agora fechado, o do Índio, mais apagado por ser mais recente em Botafogo. De todas estas indicações, uma evidência: quem erige o lugar de afeto é o povo, o suburbano, a população que efetivamente circula pela cidade e gosta disto, de bater pernas admirando a paisagem humana e de arte.

 

Há muito tempo eu não ia ao museu e tenho ouvido relatos de que aos poucos a população deixava de ir lá. Um dos fatores determinantes nasceu da decadência da escola brasileira. Professores pobres, de formação frágil, escolas regidas a baixo custo, alunos ignorantes ou no mínimo incultos. Mal, muito mal. Uma decorrência lógica, a derrocada da frequência aos museus.

 

A última vez que eu estive no museu foi para levar a minha filha, ela estava entre nove dez anos, portanto foi há uns dezesseis anos. Fiquei estarrecida com o que eu vi: várias partes fechadas à visitação, vitrines velhas e gastas, com etiquetas manuscritas em cursiva a nanquim pardacentas de velhas, pois eram dos tempos da minha infância! Queria que ela conhecesse o adorável jardim das princesas, mas estava interditado.

 

Estávamos sozinhas, as duas, e mesmo de carro recebemos várias recomendações de cuidado e alerta: a Quinta se transformara num lugar de afeto hostil, perigoso para mulheres sozinhas. Não voltei mais. Há algumas semanas estive na UERJ, sai cedo, avistei o museu de longe, tive vontade de passar por lá, mas a coragem faltou: senti medo. Foi pena, seria a despedida.

 

Desse tempo remoto para cá, acompanhei o museu pelo noticiário trágico dos jornais: telhado devastado, banho de chuva nas múmias e nas relíquias egípcias que sempre adorei, novas partes fechadas, crise por falta de verba, mais chuva, mais interdição, apelo às autoridades, meudeusdocéuvaimaldaspernas.

 

Não sei a partir de que data, o museu passou a ser gerenciado pela universidade em que me graduei e me doutorei, universidade que eu conheci e passei a frequentar em 1970, que sempre sobreviveu em estado precário e miserável. Resultado: o museu vegetava. O seu esplendor antigo foi se apagando.

 

Ele não deveria estar sob a administração da universidade. Esta é a primeira grande verdade. O maior acervo cultural do país, o mais antigo centro de estudo e de pesquisa brasileiro – mesmo que fosse apenas cortesão em seu início – não deveria ser cuidado por uma instituição cujo objetivo central e maior é o ensino.

 

Nesta segunda-feira estive no Centro Cultural Banco do Brasil. Eles contam com Brigada de Incêndio profissional, terceirizada, sete homens a cada turno, fora o pessoal da segurança. Qualquer fumaça que nasça da iluminação dos teatros (hoje, na luz das peças se usa muita fumaça), dispara o alerta vermelho, segundo um funcionário da casa com quem conversei. Não existe, apesar do acervo infinitamente menor, o menor risco de incêndio semelhante ao do museu, pobre museu com os seus 4 vigilantes para 3 imensos andares e 1 subsolo.

 

Através de um dos canais da excelente televisão paga brasileira, desqualificada por uma voz ligada ao museu como incapaz de oferecer informação de qualidade, soube que o British Museum conta com um comitê de segurança para a prevenção de incêndios. O comitê, que não divulga os seus procedimentos por questão de segurança, se reúne duas vezes ao ano e atualiza todos os protocolos. Não existe a menor chance de um incêndio sequer parecido com o nosso.

 

Responsáveis pelo Museu Nacional ou ligados à instituição, declararam à imprensa o seu espanto diante da falta de água nos hidrantes, que os bombeiros desconheciam. E criticaram a inabilidade dos bombeiros para bombear água dos lagos para apagar o fogo… Portanto, o museu não contava com qualquer esquema de segurança contra incêndio, a não ser contar com a habilidade mais ágil dos bombeiros. O museu não tinha ideia a respeito da situação dos hidrantes e julga normal apagar incêndio em museu com água. É um escândalo.

 

A rotina de incêndios da UFRJ, estampada em todos os jornais, é assustadora. O estado de calamidade do hospital universitário e dos prédios do Fundão é estarrecedor. Na Praia Vermelha, arruinada, durante uma prova do Enem, há oito anos, uma turma foi expulsa da sala em pânico por uma invasão de ratazanas. Não se pode entender porque o IPHAN, o MEC e o MinC não fizeram nada nunca para proteger o museu: a universidade deveria ter perdido o pátrio poder, sem que isto impedisse o intercâmbio para a formação de alunos.

 

O assunto interessa de frente ao teatro: começam a pulular na sociedade os protestos contra as produções teatrais beneficiadas pela Lei Rouanet, como se o dinheiro tivesse sido confiscado do museu. Em primeiro lugar, é preciso saber COMO a lei funciona. Não é a lei que procura o projeto, mas o proponente formula um projeto e sai em campo em busca de dinheiro.

 

Os responsáveis pelo museu deveriam arregaçar as mangas e ir à luta em busca dos financiamentos, se faziam questão de ter o controle do museu. Está errado? Pode ser – mas o Brasil não tem mercado de arte consolidado, nem tem a instituição da arte ou da cultural plenamente constituída.

 

Assim, os capitais viabilizados pela lei Rouanet existem a partir de um processo de captação penoso e tortuoso para todos. Talvez vínculos políticos explícitos possam abrir os cofres: mas também neste caso é preciso mobilização e ação, para fazer o pistolão funcionar. É o apadrinhado quem procura o pistolão.

 

O setor audiovisual conta com vastos recursos a fundo perdido – como foi que surgiu este caminho? Este dinheiro amplo e generoso foi tirado de alguém, desviado do museu ou das escolas, ou foi erguido por causa da ação dos cineastas? Várias agências de fomento financiam, ainda que com cifras modestas, os campos de estudo universitários, a partir de projetos e demandas formuladas pelos interessados. Mas é preciso se mexer, levantar da cadeira.

 

É arrasador não ter mais o Museu Nacional – os idiotas do poder não percebem que ele não pode ser reconstruído, ele acabou. Perdemos a clarividência cultural de D. Leopoldina, D. Pedro II, D. Teresa Cristina. Estamos condenados à obtusidade destas mentes tacanhas que dominam a política no país e que nem sabem ao certo o que era o museu.

 

A situação é muito grave. E triste. Se o incêndio foi criminoso no sentido mais imediato do termo, será difícil saber, pois não existia uma sistema de segurança para monitoramento eficiente do valioso acervo, situação patética. Muitas fotos veiculadas na internet em solidariedade ao museu, postadas pela classe média aérea, são fotos da Biblioteca Nacional e do Museu de Belas Artes, instituições que graças a Deus não pertencem à UFRJ. O fato sublinha a condição do Museu Nacional como lugar de afeto eleito pelo universo popular, mais do que de qualquer outro segmento da sociedade.

 

Lugar de afeto significa também algo que está num espaço de falta, de carência – falta de cultura, falta de um ferramental de grupo para o autoconhecimento de seus integrantes, para o reconhecimento da contemporaneidade e da historicidade do coletivo. O ideal seria termos o museu como lugar de cultura e não como lugar de afeto.

 

Agora, ele é uma ruína, um amontoado de relíquias calcinadas pelas chamas. Lá no meio, desfeitos, os vestígios da única bela e grande homenagem que a casa recebeu por seus duzentos anos em 2018. Sim, estavam lá fantasias do lindo desfile da Imperatriz Leopoldinense no carnaval deste ano, do enredo Uma noite real no Museu Nacional.

 

Por ironia, pode ser na escola de samba que se possa pesquisar bastante sobre a nobre casa que a escola universitária não conseguiu preservar. Segundo declaração do carnavalesco Cahê Rodrigues para o site G1, ele e a Imperatriz Leopoldinense têm bastante material sobre o museu, resultado das pesquisas minuciosas feitas para a concepção do carnaval. Aliás, uma das declarações do carnavalesco sobre o museu, na entrevista, é dolorosa: “Em alguns trechos era notória a falta de manutenção, com problemas no telhado e áreas deterioradas do prédio.”

 

E, afinal, soa como uma bofetada sonora na cara deste país machista atrasado a possibilidade de recuperar a memória do museu graças a uma escola de samba – mas não uma qualquer e sim aquela que traz no nome a homenagem à nossa maior mulher de todos os tempos, a imperatriz D. Leopoldina, grande influência para o nascimento do museu. E, destaque-se, para o nascimento deste pobre triste país chamado Brasil, braseiro eterno. No dia do incêndio, justamente, completamos duzentos anos da independência sem grito, assinada por ela.

 

Serviço

LUTO
MUSEU NACIONAL
RIO DE JANEIRO