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A melhor política: todo o poder para as mulheres

“Deus só criou as mulheres para domar os homens”, afirmou Voltaire. Então, se o filósofo francês está certo, é bom a rapaziada correr e se preparar para um treinamento intensivo, pois de 9 a 13 de novembro o Rio de Janeiro vai sediar o MULTICIDADE, Festival Internacional de Mulheres nas Artes Cênicas. Mas será que a tônica é esta mesmo, como diria Voltaire?

 

Importa dimensionar as características fundamentais do evento sob o foco. Nele, estarão reunidas mulheres artistas de 5 países – Alemanha, Dinamarca, Reino Unido, França e Brasil (RJ, SP e PE). O objetivo central será a busca do intercâmbio e da reflexão sobre o fazer artístico e o posicionamento da mulher na sociedade contemporânea. Portanto, as obras selecionadas possuem um viez comum, são trabalhos de excelência artística assinados por mulheres engajadas na ampliação dos espaços sociais de atuação da mulher.

 

A linha da programação – vale conferir a lista completa das atividades no site do evento – segue uma pegada século XXI muito nítida, capaz de provocar um êxtase mais do que absoluto em filósofos feministas. A multiplicidade é dedutível do perfil das responsáveis pelo festival, pois a direção geral e a curadoria contam com a assinatura da atriz e diretora italiana Paola Vellucci, da diretora sérvia Jadranka Andjelic e da dramaturga e cineasta brasileira Eveline Costa.

 

Nesta edição, o festival surpreende por sua extensão, com a ocupação de vários lugares da cidade. Estão na pauta apresentações por toda a parte, em vários ícones culturais do Rio: MAM, Teatro Ipanema, Casa de Cultura Laura Alvim, Casa França-Brasil, Sala Cecília Meirelles, Teatro Poeira, Espaço Sequência, Casa 7, Universidade Candido Mendes e Escola Nacional de Circo. Haja pernas, da Zona Sul à Zona Norte, passando pelo Centro.

 

A abertura festiva acontecerá no dia 9 de novembro, às 19:30h, na área externa do MAM, com a apresentação do espetáculo aéreo alemão Paper Dolls (foto/divulgação). Trata-se de uma performance de Jana Korb, responsável também pelo conceito da obra,com direção de Kirsten Burger e música de Jannie Zimmermann. O ponto de partida do trabalho nasceu do romance de Margaret Atwood, Olho de Gato, transformado em solo. O argumento busca eletrizar um tema precioso na vida das mulheres, a amizade das meninas, a condição de melhores amigas. A linguagem adotada mistura, no teatro aéreo, muitos procedimentos artísticos – teatro físico, artes circenses, dança, trapézio, novas mídias. Ativista do novo circo, Jana Korb se dedica a lutar pela expansão da densidade artística do circo, mobilização que a levou a fundar, com um coletivo, o Forum Neuer Zirkus, em Berlim, em 2014. Vale frisar a expansão, aqui, da peculiaridade maior da arte circense, vizinha da performance, a combinação de situação real (física), poesia e criação.

 

A abertura, portanto, indica a tonalidade efervescente do Multicidade, uma ciranda de invenções e de proposições apta a manter todo e qualquer curioso de plantão em sintonia plena com o que vai de mais ousado – ou urgente – na superfície do mundo. Multicidade quer dizer também multiplicidade, variação de forma e de conteúdo, abertura do sentir, do pensar, do ver e do olhar. Numa avaliação rápida, dá para listar, no rol de eventos propostos, instalação, exposição de fotografias, mostra de vídeos, falas, peças, oficinas, performances. Isto sem falar nos encontros obrigatórios naturais, nos corredores, salas de espera e bares da vida. Oxigênio, renovação de ar e circulação de ideias não faltarão.

 

Numa pegada sutil, muito ao gosto das mulheres, este tipo de encontro deseja falar sobre a mulher para dar voz ao feminino enquanto realidade humana plena, contemporânea, quer dizer, reconhecimento do outro, visão da cidadania. Para Paola Vellucci, o festival “é um encontro entre a arte na cidade e a cidade na arte”. Por isto, a conexão com a realidade de luta feminina surge como fato natural, fato da atualidade, algo que se estende como forma de estar no mundo contemporâneo. Para quem consegue olhar a vida sem antolhos, desponta deste debate a obrigação de reconhecer a atuação política das mulheres, uma intervenção necessária à plenitude da vida no tempo em que vivemos.

 

Assim, o evento fala a todos os seres que estão realmente vivos, contam com sangue nas veias e pulsação cardíaca saudável. Com este contorno, a rede The Magdalena Project não poderia estar longe: trata-se de uma rede internacional de mulheres em atividade no cenário artístico contemporâneo. A sua busca central, sintonia em comum com o festival, é a de valorizar o fazer artístico feminino, estimular a criação e a comunicação em rede. A ideia de rede se afirma como solução estratégica. Na rede, a partir de um sistema colaborativo, luta-se pelo fortalecimento mútuo.

 

Uma das fundadoras do The Magdalena Project, Jill Greenhalgh (País de Gales), oferecerá uma oficina para a elaboração da performance Daughter/Filha, a ser apresentada no último dia do festival. O trabalho já foi realizado em vários países e seguirá pelo mundo após a passagem pelo Rio. É preciso reconhecer, portanto, a existência de uma conexão ampla, algo como uma onda que não pode ser detida, que se espalha articulando o melhor da humanidade. O processo é inexorável, é um movimento histórico, não tem volta. Quem aderir, desfrutará aquele prazer inebriante, o gosto irresistível de saborear o tempo em que se vive.

 

Talvez Voltaire olhasse as mulheres no alvorecer dos direitos humanos como se fôssemos incompletudes barulhentas, com algo sério a dizer e pouco espaço para falar. Por isto seríamos domadoras, precisávamos domar algozes, feras, parceiros selvagens. Cada pedra, pedra a pedra, faz o caminho. O tempo passou e, sem dúvida, permitiu a construção de lugares de poder de outra ordem: por isto o Multicidade vai ecoar pela cidade, mas sem pretender domar ninguém. A conversa se transformou e o desejo, hoje, é apenas comprovar que a sensibilidade, qualidade tão feminina, é o combustível ideal para a vida de agora no mundo. Se você é um cidadão deste nosso tempo, corra para ver, não perca. Afinal, a melhor política de hoje sabe bem de sua saúde, reconhece a máxima simples em vigor no festival: todo o poder para as mulheres.

 

FICHA TÉCNICA

FESTIVAL +
09/11 a 16/12, das 13h às 20h – Exposição fotográfica MUNDOS ESQUECIDOS
de Eliane Band [RJ . BRASIL]
Casa de Cultura Laura Alvim – Galeria
16 a 18/11 – Oficina A PRESENÇA DO VAZIO
Sandra Pasini e Antonella Diana [DINAMARCA]
Espaço Sequência
12, 13 e 14/11 – Oficina TEATRO AÉREO
Jana Korb com Hoppe Hoppinsky [ALEMANHA]
Oficina exclusiva para Alunos da Escola Nacional de Circo


Equipe Multicidade
Direção Geral e Curadoria: Eveline Costa, Jadranka Andjelic e Paola Vellucci
Produção Executiva: Mateus Tiburi
Produção de Espaços: Leila Meirelles
Coordenação de Comunicação: Guilherme Nanni
Estagiária de Produção: Júlia Teixeira
Cenográfo: Oswaldo Eduardo Lioi
Coordenação Técnica: Bruno Barreto
Coordenação de Palco: Rodrigo Ferreira
Luz: Paulo Ignacio
Som: Yago Rezende Franco e Magno Myller
Multimídia: Pedro Salim
Assistente de Palco: Consuelo Barros
Contra-Regras: Foguinho, Roney Torres e Leandro Nazário
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Projeto Gráfico: Pablito Kucarz
Programação Site: Helton Brito
Redes Sociais: Wes Mariano e Antônio Pedro Bello
Conteúdo Audivisual: Pedro Salim
Fotografia Artística: Renato Mangolin
Registro Videografico: Karima Shehata
Curadoria Mostra Video: Analu Cunha e Alessandra Bergamaschi
Monitora Oficinas: Luciana Fins
Tradutoras: Carol Garcês e Flávia Milioni
Assessoria Jurídica: Carolina Bassin
Contabilidade: Valdilene Telhado Duarte
Auxiliar Administrativo: Edson Inocêncio
Patrocínio: Eudora
Realização: Sequência f i l m e s, músicas e cênicas e Studioline filmes

 

Serviço

MAM Rio – Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo / tel: 3883-5600
Teatro Ipanema – Rua Prudente de Moraes, 824, Ipanema / tel: 2267-3750 e 3518-5220
Casa de Cultura Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176, Ipanema / tel: 2332-2016
Casa França-Brasil – Rua Visc. de Itaboraí, 78, Centro / tel: 2332-5275
Sala Cecília Meirelles – Largo da Lapa, 47, Centro / tel: 2332-9223
Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104, Botafogo / tel: 2537-8053
Espaço Sequência – Rua Campos da Paz, 105, Rio Comprido / tel: 3449-8736
Casa 7 – Rua Piragibe Frota Águiar, 7, Copacabana / tel: 3344-4212
Universidade Candido Mendes – Rua Joana Angelica, 63, Ipanema / tel. 2525-1000
Escola Nacional de Circo – Rua Elpídio Boamorte, 4, Praça da Bandeira / tel: 2504-5182
Classificação: 16 anos
A programação completa no site oficial: www.multicidade.com
Ver também: THE MAGDALENA PROJECT