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O belo e estranho quintal da arte

“Responda rápido: o que mantém o ser humano vivo? A resposta – como todas as respostas – dirá muito a seu respeito. Tenho certeza, contudo, que ao final de dois dedos de prosa você vai concordar comigo – o que mantém o ser humano vivo é a arte.

 

Sim, você vai argumentar que isto depende do sentido atribuído à palavra vivo. Por certo, não posso negar. Mas pense bem: se o ser humano está vivo, se a vida já acontece nele, ela está estável,portanto em equilíbrio. Mantê-la não será fruto de alimentos, água ou mesmo amor. Mantê-la será uma alquimia delicada entre a inteligência e a sensibilidade, uma forma para descrever… a arte!

 

Na dúvida, olhe pelo retrovisor do mundo, olhe a História. Não existe a menor chance de encontrar uma sociedade humana que tenha sobrevivido alguns pares de séculos ou milênios e que tivesse sido alheia à arte. Das formas mais simples às mais rebuscadas, este jeito delicado de estar às voltas com a vida nos persegue. Mais, até – nos explica, nos faz verdadeiramente existir, nos dá sentido. Nos mantém.

 

Suponho que a primeira família, na sua caverna sombria, ajeitou as pedras e as terrinhas fofas, os gravetos e folhas secas, e não foi para fazer travesseiro ou acender um foguinho amigo, foi para olhar para algo que lhe desse a emoção da beleza. Sobreviver significa ver o belo, para alternar entre a produção e a liberdade, o próprio sopro de vida. A arte é a liberdade de ser. Quando falamos que os brutos também amam, estamos falando um pouco disto; até o mais feroz dos bandidos em algum momento vai querer ajeitar o penteado, arrumar o topete e para isto vai evocar alguma arte, ainda que mínima.

 

Vale pensar na sociedade colonial brasileira. Imagine o Rio de Janeiro, entre os séculos XVI e XVIII. Os prefeitos e as autoridades não sabem, não querem saber, mas estamos numa cidade muito estranha, geograficamente. Podemos dizer que estamos numa cidade de aluvião – quer dizer, uma cidade que se espraia numa planície pegajosa, arrastada das velhas montanhas ao redor por torrentes e chuvaradas. Quer dizer, viver aqui nunca foi muito fácil. Disfarçamos, mas fincamos o pé num tremendo lodaçal. Somos flores do lodo, de origem e de direito.

 

Feita a constatação, imagine a vida passada, pródiga em enchentes e vendavais, sem energia elétrica. A rotina diária devia ser um pesadelo. Qual era a arte que mantinha aqueles homens vivos? Eles não estavam aqui com funções objetivas, mecânicas? O que tinham para fazer? Apenas enricar, enricar para si e para a Coroa, ou apenas trabalhar como escravos, ou apenas vegetar?

 

Foram poucas as pesquisas exaustivas sobre a arte colonial. O primeiro teatro que existiu aqui era muito diferente do nosso, hoje – era um teatro de doutrinação ou de celebração. Quer dizer, no século XVI, quando os jesuítas montavam peças, isto era um acontecimento de exceção. Um evento inusitado, festivo. O colono não podia acordar e dizer para a sinhá – se prepara, hoje à noite vamos ao teatro. O teatro de verdade, se é que o nosso teatro é de verdade, não existia. E eu lamento dizer, mas tudo indica que fomos bastante brutos, sobrevivemos aos trancos e barrancos, com bem pouca arte.

 

Pois o que é que existia para burilar a sensibilidade rude dos seres da colônia? Missas, celebrações dos dias santos, bandeirolas, procissões, cantorias e recitações – festa na igreja e no arraiá. E batuques negros nas senzalas e terreiros. Apenas no século XVIII, com a mineração e o início da expansão urbana, surgiram os primeiros teatros, as casas da ópera. Não sabemos até hoje maiores detalhes a respeito dos nossos primeiros atores e o funcionamento das tais casas.

 

Sabemos que existiu, antes, um animado teatro de bonifrates – bonecos, marionetes. Este teatro sobreviveu até o século XIX, mas a sua história não foi escrita ainda. Sabemos que existiu um inquieto padre Boaventura, nome restabelecido graças às pesquisas do historiador Nireu Cavalcanti, pois o nebuloso padre foi até data bem recente chamado de Padre Ventura.Nem o seu nome certo sabíamos.

 

Sabemos que tais teatros tiveram uma devoção ardorosa por Antonio José da Silva, o judeu (1705-1738), um dramaturgo adorável nascido em São João de Meriti e morto na fogueira em Lisboa sob a acusação de ser judeu. Sabemos que nós, hoje, hereges sem clemência, sequer lemos ou muito menos montamos as comédias adoráveis de tão distinto autor. Como é que pode?

 

O século XVIII foi ontem, mas as nossas casas da ópera há muito deixaram de existir, sem deixar grandes vestígios. A primeira, ali na Rua da Alfândega atual, na altura da estação Uruguaiana do Metrô, teria sido destruída por um incêndio e nunca reconstruída. A segunda, junto ao Paço Imperial, onde fica hoje a Assembleia Legislativa, deixou de ser casa de espetáculos em 1813, com a inauguração do Real Teatro de São João, e depois de várias ocupações desimportantes foi demolida a marretadas em 1903.

 

O que tudo isto significa? Mesmo na treva insana da vida colonial, a arte acabou brotando, nem que fosse para recitar versos em louvor do poderoso do momento ou para rir da empáfia humana diante do mundo, como buscou fazer o judeu. Se até na engrenagem cega da vida colonial, voltada para o mais exacerbado mercantilismo, a arte se fez necessária, o que dizer de hoje?

 

Precisamos de arte, como precisamos de oxigênio, de água, de alimentos, de amor e carinho. São necessidades de primeira ordem para a vida humana. A Arte é o carinho da alma. Artistas, portanto, são essenciais para a vida em sociedade. Parece muito estranho, em 2019, que alguém tenha que escrever isto. Se, no século XVIII, um padre mulato desengonçado podia tocar violão e animar dois teatros, como, hoje, existe alguma possibilidade de alguém pretender demonizar os artistas? Como é que a nossa sociedade não entende o que é a arte?

 

Talvez isto aconteça porque nós, pessoas do mundo da arte, não tenhamos até agora prezado a nossa história, fincado os pés no nosso território, cultivado com zelo a linha de trabalho que vem, seja lá como for, do século XVIII até hoje. Não estou querendo inverter o canhão e jogar a culpa na vítima, mas com certeza ficamos frágeis quando abrimos mão de nos colocarmos no mundo com o nosso vendaval de vivências – elas explicam de onde viemos, quem somos, o que desejamos. Vale deixar no ar a pergunta – qual o tamanho da nossa arte? Para que ela serve? Para quem?

 

Uma montagem teatral de desenho sublime estreia esta semana para rápidas apresentações e vale ser vista. Talvez ela ajude a ter uma visão do problema. Meu Quintal é Maior do que o Mundo, encenação de Ulysses Cruz com Cássia Kiss saudando a poesia irresistível de Manoel de Barros (1916-2014) estará na Cidade das Artes e trará uma oportunidade vertiginosa para dimensionar o poder da arte sobre as pessoas. Não perca – mesmo que você discorde de tudo o que leu aqui, você vai sair do teatro depois de um legítimo banho de arte. Confira, não perca, você vai voltar para a crueza dos dias que seguem, indiferentes, com um outro olhar – para a vida, para o seu quintal e para o mundo.

 

SERVIÇO
Meu Quintal é Maior do que o Mundo
Teatro Cidade das Artes – Av. das Américas, 5300 – Barra da Tijuca.
Temporada: 21 a 24 de março.
Horários: quinta, sexta e sábado às 21h e domingo às 20h.
Duração: 60 minutos.
Ingressos: R$ 120,00. (Ingresso Rápido e bilheteria do Teatro Cidade das Artes).