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O poder cultural do fogo

“Existem incêndios possíveis e incêndios impossíveis. Os primeiros, apesar de ruinosos, são explicáveis pela razão. Os segundos, mais devastadores, são aqueles diante dos quais o principio soberano da inteligência, sempre reinante, não consegue se afirmar. Diante do fogo impossível, permanecemos perplexos, congelados no ar, em suspenso, como gárgulas humanas.

 

Ainda assim, sempre vale tentar fazer valer a maior lei humana, a do pensamento. São muitas as lições do fogo: entre a ameaça, o perigo e a destruição, paira a ideia de renovação. Das cinzas, nasce o novo. A confirmação e a renovação se impõem. Ou não – com frequência, das cinzas não nasce nada, a não ser noções abstratas de que tudo deveria ter sido diferente. São os incêndios possíveis, aos quais a mente se dedica com muito êxito, mas nem sempre com resultado positivo, pois os incêndios possíveis possuem o dom de se repetir. Diante dos impossíveis, mesmo que haja a ressureição, a mente permanece no ar, atônita.

 

Alguns incêndios a que assisti ou acompanhei me deram esta sensação. Em especial, três grandes incêndios: o da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o incêndio do MAM e o do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. A sensação surgiu em função de uma situação muito simples: todos eles poderiam ter sido evitados.

 

Nos três casos, a mesma conclusão surgiu, depois da constatação da enorme destruição – a visão desconcertante da pobreza nacional, também identificável como incompetência abusiva. Dói fundo admitir a nossa incapacidade, mas importa percebê-la, diagnosticá-la, para tentar crescer. O fogo aconteceu por falha absurda de tudo, a começar pela falta de uma relação mínima com o princípio de realidade.

 

Foram três casos diferentes. Diante da igreja, monumental patrimônio para o estudo da história da escravidão no Brasil e da estrutura política e social da colônia e do Império, a comoção provocada pelo fogo ficou localizada, desconcertando apenas historiadores, devotos da igreja, militantes raros (naquela época) da causa negra e amantes esparsos da História do Brasil, infelizmente. A projeção do fato se reduziu aos lamentos especializados.

 

No caso dos dois museus, foram perdidas obras de um valor incalculável. No caso do MAM, além do acervo precioso da instituição, foi queimada uma imensa coleção de Torres Garcia (1874-1949), o genial artista uruguaio, uma perda irreparável para o patrimônio da humanidade e da América Latina. O museu apresentava uma retrospectiva de sua obra.

 

Na Quinta da Boa Vista, incêndio tão recente que a fumaça ainda nos enovela, um recibo lancinante de desqualificação foi emitido e, ao que tudo indica, ignorado. Não há como aceitar o que aconteceu com o museu, uma ruína viva já há algumas décadas, apesar de abrigar uma coleção de fazer a respiração ficar em suspenso. Uma reviravolta fenomenal deveria acontecer, capitaneada por todos aqueles que dirigiam o museu até o fogaréu, mas, surpreendentemente, eles reagiram como se a responsabilidade fosse apenas de terceiros. Inacreditável. Não foram capazes de evitar o incêndio, mas se sentem capacitados para o rescaldo e a restauração.

 

Vale, porém, frisar que todos estes incêndios foram incêndios possíveis, casos em que a lógica mais elementar, se estivesse em uso, alertaria para o desfecho natural, previsível, gerado no cotidiano institucional de desleixo. Pois bem – estas memórias desabaram sobre a minha cabeça diante do fogo na igreja de Notre Dame. Este será para sempre o meu incêndio impossível.

 

Isto quer dizer que nenhuma explicação, nenhuma investigação, nenhuma iniciativa racional me fará entender o incêndio. Nem a polícia, nem os jornalistas, nem os administradores ou os historiadores poderão transformar a luz da igreja queimando em alguma ideia apaziguadora, de entendimento. Não, esta atitude não nasce da surpresa, do choque emocional, gerado pelo simples fato de que eu estava indo para a igreja e, de súbito, fui detida no cordão policial que começava a ser organizado, pelos primeiros guardas, para administrar o fogo.

 

Não. Ela nasce do inexplicável radical – aquele mesmo lugar em que a civilização vê os milagres, os mistérios sublimes, o insondável. Simplesmente assim: a Notre Dame, lugar mundial de luz, paz, transcendência, não podia pegar fogo. Ela era, digamos, inincandescente.

 

Evidentemente eu não vou procurar explicações aterrorizantes para o fato, cascalhos políticos. Fiquei muito tempo vendo o incêndio, perplexa, vagando por ali como muitos, sem saber o que fazer. Sim, seria um dos presentes de aniversário que eu me daria, uma missa na Notre Dame, ainda que eu não seja católica. Mas eu não sou criança faz tempo, apesar de manter a alma pueril, não foi o brinquedo negado que me paralisou.

 

Flanando no meio do povo, ouvi muitas vozes murmurando falas antigas, medievais, de que se tratava de um aviso, um sinal, um alerta, nos vários idiomas dispersos na multidão que consigo entender. Mas eu não sou medieval – sou brasileira e, de corpo, alma, história e direito, nasci nos tempos modernos. Não acho que o incêndio seja sinal de nada. Sei bem que, se eu fosse política, presidente da França, mesmo que o incêndio fosse um ato terrorista, eu negaria publicamente esta condição, em particular diante da marcha atual do mundo, para não aumentar o poder das forças do mal. Forjaria deliberadamente um laudo de acontecimento acidental, sem qualquer remorso, com o apoio da melhor polícia. Não deixaria que o fogo se tornasse instrumento de poder contra a civilização.

 

A esperança de uma vida de luz é uma fortuna coletiva universal inabalável. Com o cair da noite, uma massa comovida de várias nacionalidades se concentrou no Quartier Latin e, de forma espontânea, fazendo vozes e contra vozes, começou a cantar Marie, mère de Dieu. Nunca tinha participado, na minha vida, de um episódio de humanidade tão profundo. Era a homenagem singela, anônima, popular e coletiva a uma igreja histórica que nos faz sonhar com a nossa possibilidade metafísica.

 

Talvez alguma lição exista aí, a lição do fogo construída numa racionalidade simples. Não, não creio que se possa considerar como algum sinal do fim dos tempos ou de um aviso sinistro para um portal de trevas – vejo apenas a indicação da necessidade de irmandade, união, encontro humano. Trata-se do anseio singelo e verdadeiro latente em todas as religiões dignas deste nome, em todas as filosofias, o desafio para o misantropo que habita em cada um de nós. Para cada um, um toque esperto: seja simples, se dedique ao melhor de si, não se perca de você.

 

De minha parte, ainda não organizei bem as ideias, persisto enredada numa trama cerrada de sentimentos, depois de ver arder a igreja mais estimada da minha vida. Mas fico com a certeza bem humorada que sempre me dá o teatro – afinal, escapei de estar lá, dentro da igreja, quando o fogo começou e considero isto uma dádiva incomensurável. Seria uma experiência horrível. Eu firmei dois compromissos para o fim do dia – ir à igreja e ir a uma livraria de teatro que eu não conhecia, procurar livros de e sobre Offenbach, minha mais nova paixão.

 

Sonhei com a missa das seis. No entanto, herege, rebelde, dispersiva, resolvi ir primeiro até a livraria, que talvez fechasse cedo (na verdade, não, eu não sabia, mas… era o dia de entrega do Prêmio Topor, destinado aos espíritos transgressores do teatro francês!). Com o responsável pela livraria, conversei sobre o impressionante perfil inquieto de Offenbach. Concluímos que, mesmo na França, ele permanece maldito, apesar do centenário e da beleza de sua obra. Consegui alguns volumes preciosos e segui para a Notre Dame.

 

Enfim, levei o célebre criador da opereta francesa e do can-can comigo. Segui pelas ruas rindo por dentro, pois ele nasceu alemão e judeu, se tornou francês e católico, encantou o povo parisiense e do mundo e se chamava Jacques – um nome equivalente a Zé, Zé Mané ou José, usado na Idade Média para falar de qualquer um sem eira nem beira, razão para que as rebeliões populares fossem chamadas jacqueries. Quando chegamos, nós dois, na esquina da rue d´Arcole, nossa chance de missa estava perdida. Não dava nem mesmo para entrar na igreja. Ela ardia.

 

Então, segue o debate: o motor principal da discussão talvez deva ser o mesmo, lá como cá, para usar o nome de uma revista que fez sucesso nos palcos. Um pouco aquilo que Offenbach dizia nas suas obras – é preciso por em questão o poder, todo e qualquer poder, e exercitar o espírito livre. Para que os incêndios possíveis e os impossíveis tenham as suas materialidade transformadas, se tornem simplesmente o incêndio das ideias, capazes não de destruir toda a fortuna humana, mas sim tudo aquilo que derrota o melhor do humano no mundo.

 

O que significa ter um acervo como a Notre Dame queimado, perguntemos. Talvez a tradição francesa de maior alcance mundial tenha sido ameaçada, correu o risco de ser reduzida a cinzas. Falar da repercussão da cultura francesa no mundo leva o pensamento para um campo imenso. Mas um fato importante logo desponta, a força teatral francesa, histórica. Parece haver um estranho sentido no meu gesto de querer levar Offenbach para visitar a catedral. Se existe um edifício tradicional francês de solidez impactante, este é o teatro. A solidez se apresenta com tanta imponência que um personagem, para ser maldito, precisa de um topete respeitável.

 

Na cena parisiense, existe tradição. E a presença da tradição dá um colorido curioso para pensar a densidade da cultura ao redor deste incêndio repentino. Um exemplo simples pode ser um índice revelador do desenho da vida cultural de Paris enquanto realidade cotidiana. Basta considerar a presença de Molière no palco parisiense e a resposta do público a estas encenações, de diferentes feitios – são seis textos originais do autor em cartaz ao mesmo tempo, Le Misanthrope, Don Juan, Le Medicin Malgré Lui, Le Malade Imaginaire, Les Femmes Vavantes, Les Fourberies de Scapin.

 

Dois cartazes estão entre os mais vendidos na página de divulgação das peças oferecidas na cidade. Pelo menos um deles, Le Misanthrope, direção de Peter Stein, apresenta uma visão clássica decidida, calcada na força da palavra do texto, burilada pelos atores. A cena impressiona por sua elegância formal irresistível, é arrebatadora. Isto significa muito: no fim das contas, não há incêndio, mesmo um incêndio impossível, que liquide a potência cultural francesa. Aliás, por isto mesmo é que existe a chance de incêndio impossível. Das cinzas não nasce o silêncio, o consentimento, a recusa de ver o óbvio, mas um crepitar de ideias permanente, preocupado em pensar a dimensão do humano no mundo.

 

SERVIÇO

Le Misanthrope ou l’atrabilaire amoureux
(Lambert Wilson)
Le Théâtre Libre , Paris
Du 13 février au 18 mai 2019
Durée : 2 heures

De: Molière
Mise en scène: Peter Stein
Avec: Hervé Briaux, Brigitte Catillon, Pauline Cheviller, Manon Combes, Patrice Dozier, Léo Dussolier, Jean-François Lapalus, Jean-Pierre Malo, Paul Minthe, Dimitri Viau, Lambert Wilson.