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Um ilustre morto bem morto

 

Depois da grande ilusão do carnaval, passou o momento de sonho, tudo se acabou em cinzas e a quarta-feira não trouxe o teatro de volta. São poucas as estreias, algumas reestreias, escassas ofertas. Na verdade, a única estreia da semana vai acontecer na sexta, 23, no Centro Cultural da Justiça Federal.

 

A peça é um monólogo, curiosamente batizado com o nome Não Peça, de Lucília de Assis, direção de Bianca Byngton, interpretação da autora. A ficha técnica é alentada, pois conta com excelentes profissionais, mas é mínima. Não é uma exceção na temporada, o tom geral é este. Apesar da densidade dos trabalhos, as montagens são tímidas, muitas integram o bloco do eu sozinho. Vida que segue, teatro que fica.

 

Todos já sabem, mas vale insistir, anunciar alto e bom som, tentar pensar a respeito. O teatro morreu. Sim, especialmente aqui no Rio, vanguarda do país, morreu. E o cadáver rola por aí, insepulto, sem nenhuma Antígona corajosa disposta a fazer as honras fúnebres. Talvez nenhum cemitério queira recebê-lo. Em breve, o corpo apodrecido terá o tamanho do país.
 

Alguns alienados pretendem negar o fato e fazer de conta que ele vive. Bobagem. Ele morreu de verdade. E não adiantam os esforços ingênuos para ressuscitá-lo – se ninguém se interessa pelo defunto, não será um suposto zumbi recomposto das trevas que vai atrair as multidões. Se ele não tem quórum morto, quiçá zumbi.

 

Se fizermos os cálculos com objetividade, verificaremos que o conjunto de pessoas interessadas em teatro hoje, aqui e agora, equivale a menos do que traço num estudo de audiência. Portanto, a situação é bem grave, ele morreu e umas poucas carpideiras choram a sua morte. No entanto, tudo isto é patético. O teatro possuía uma missão aqui. E apaixonava o povo. Sim, uma missão. E ela não foi cumprida.

 

Terra inculta em que a educação sempre foi precária, colônia pobre pouco atenta à própria indigência, o Rio – como o Brasil – jamais se preocupou com o refinamento das sensibilidades e das estruturas de percepção, território de atuação do teatro. Agimos como se a arte do palco fosse o desnecessário, o desvario de uns loucos poucos, incapazes de conter seus impulsos criativos inoportunos.

 

O teatro seria apenas interesse do povo de teatro. Ou melhor, de menos gente ainda, seria interesse da tribo do teatro. Uns selvagens. Ele deve ser mantido longe do resto da população, preservada na obtusidade, íntegra na sua ignorância de processos expressivos mais elaborados. E assim perpetuamos submersa na brutalidade uma sociedade que poderia ter uma pulsação criativa desenfreada, pulsação sempre evidente nas ruas, nos carnavais, nas formas populares de lutar pela sobrevivência, morar, vestir, dançar e cantar.

 

Apesar da força do teatro no século XIX, o Estado brasileiro nunca incorporou decididamente a arte do teatro como uma forma social de criação de primeira grandeza. Nunca pretendeu assumir a transformação possível da sociedade brasileira a partir da ação da arte do teatro. Não existem projetos estatais culturais nacionais – ou cariocas – densos e contínuos de difusão e estímulo às artes. Nunca existiram.

 

O resultado é grotesco. Além de uma sociedade impregnada por múltiplos graus de violência de alto abaixo de toda a estrutura social, temos uma forma comunitária de ser em que é raro o ato do pensamento, domina a hipótese do hostil, vicejam os mecanismos dogmáticos de análise e de julgamento. Qualquer teoria conspiratória se alastra como incêndio no palheiro. O outro é olhado e julgado como inimigo, alguém para saquear em algum grau, e não o outro fundamental para interagir.

 

É natural, aqui, que se tenha dificuldade para aceitar a discordância, a diferença, o debate, a dúvida, o questionamento – numa sociedade em que a educação e a cultura são tão rarefeitas, é normal que cada pessoa se mova dentro do casulo inexpugnável da certeza absoluta, cristalina, uma armadura de opinião que não pode ser posta em xeque, pois abalaria todo o precário edifício social. Uma fechada no trânsito pode levar à morte, uma rusga de vizinhos pode ser o caminho para o cemitério.

 

O teatro ainda tem muito a fazer nesta terra desolada? Parece que sim. Mas, morto, importa fazer com que ele renasça ou reencarne num outro lugar. O defunto antigo está exaurido. Os edifícios teatrais estão indo abaixo e ninguém se importa. O teatro nas escolas é uma quimera. Os nossos professores de Português continuam a se formar, um século depois do outro, sem considerar que afinal Literatura Dramática é Literatura, coisa que se aprende nas escolas… Os brasileiros, mesmo escolarizados, não têm ideia do que possa ser teatro.

 

Nossos estadistas e governantes fazem questão de contar com um povo, portanto uma sociedade, sem lastro cultural, sem referência teatral. Não existem projetos consistentes de fomento à cultura – com exceção talvez da lei de fomento da Prefeitura de São Paulo.

 

Portanto, quem precisa agir? Quem gosta de teatro e sabe da importância do teatro para a saúde da sociedade. Estas pessoas, afinal um pequeno exército de Brancaleone, precisam entrar em ação nem que seja para despencar com garbo da pinguela: chegou a hora de tentar atravessar para o outro lado, tentar passar da terra arrasada pela peste cultural brasileira para um lugar outro, menos inóspito.

 

Acredito que ações de transformação social precisam ser iniciadas com urgência, à margem do poder público, fora da atitude de pedinte indigente. Precisam nascer centros culturais teatrais nas escolas, nos clubes, nas igrejas, nos templos, nos sindicatos, nas associações de moradores. E principalmente nas escolas de samba.

 

Nas quadras das escolas pode surgir uma forma teatral nova, diferente, nossa, revigorada. Quem duvida, peço uma gentileza: veja o filme do desfile da Beija-Flor de Nilópolis este ano. E depois dê uma olhadinha nos demais desfiles, com o olhar atento às insinuações de teatralidade que transbordam aqui e ali, à revelia do defunto.

 

Sim, o teatro está morto, mas viva o teatro. Se não houver um movimento inquieto, livre, pulsante, libertador e independente a favor da arte, desistam enquanto há tempo, pois a forma velha vai desaparecer. Já são bem poucos os que dela necessitam e ainda desejam vê-la. Quem sabe se, após um ciclo de transbordamento para as ruas, para a vida, para o burburinho miúdo do povo, a linguagem antiga, europeia, possa vir a ser recuperada sob um outro alento, o influxo da respiração tropical acelerada, própria deste mundo novo daqui?

 

Na verdade, não tenho resposta. Tenho um clamor e um convite. Uma indicação para que se chegue com o teatro nas praças, nos cortejos, na vida que corre livre. Acima de tudo, o teatro ama a liberdade – para praticá-la, exercitá-la, divulgá-la, precisa de gente para ouvir e, com a alma, responder. O teatro não existe sem público – ele é uma arte a dois, sempre. É a arte do outro, em presença. Chega de rodopiar no vazio, viver longe da vida fervilhante das ruas, chega de rastejar como morto sorrateiro indesejado. E insepulto. Chegou a hora de renascer. E o único jeito é marchar para as ruas.

 

Foto: Alexandre Da Costa