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Sesc – ou o quê mantém o teatro livre

“Não sei qual a opinião do leitor – mas eu, de minha parte, penso que o teatro é um artigo humano de primeira necessidade, espécie de feijão com arroz da alma, uma atividade estruturante da sociedade e da personalidade do homem cidadão. É fundamental ter teatro, muito teatro. Contudo, a sociedade precisa querer, precisa desejar se mover, se transformar.

 

Olhe um homem tosco, bronco, mal acabado, ainda que poderoso ou escolarizado – ao que tudo indica, faltou teatro em sua vida. O remédio deve ser ministrado desde a mais tenra infância, lá na creche ou na casa da mamãe, e pode ser, nesta fase de aleitamento teatral, fruto de trabalho amador. Fantoches, marionetes, teatro de sombras, jogos teatrais, teatro-escola, teatro de papel crepom, tudo vale.

 

Desconfio que existem muitas pessoas que pensam assim, pessoas capazes de perceber que existe uma trajetória do humano na Terra e que esta trajetória precisa tratar sempre do aprimoramento da sensibilidade. São pessoas – pode verificar – dotadas de extrema devoção ao teatro. Para elas, o teatro integra a vida. Mas, atenção: isto não quer dizer que estas pessoas são simplesmente “gente de teatro”.

 

Não raro, existem no teatro profissionais imbuídos da certeza de que o teatro existe como uma especialidade muito requintada, distante da vida. Sim, esta vertente alcançava mais força no teatro convencional. No estado atual da arte, com a expansão do culto à performance, está sendo disseminada uma visão antagônica, igualmente problemática, a crença de que qualquer um pode (e deve) fazer teatro. E, por vezes, que teatro é tudo e qualquer coisa.

 

Não entendo que se faça qualquer restrição à oportunidade de se ter teatro na vida. No entanto, não defendo a ideia de que teatro é qualquer coisa que se faça enquanto ato de exposição para o outro. Penso que a arte, sem ser hermética, se estabelece a partir de conceitos, métodos, atitudes e procedimentos específicos, não triviais. E que o fato da linguagem ser mais ou menos elaborada não desqualifica, a meu ver, a força transformadora que a arte contém em si.

 

O naturalismo da performance pode por a perder a transcendência definidora da linguagem, na medida em que a performance por vezes caminha – e se encerra – no aqui/agora, no imediato e no circunstancial, na pobreza de meios e de conceitos. A opção para ser intervenção conduziria o ato para fora do território da arte. Mesmo o pior teatro, o mais simplório, precisa ser, para ser, proposta de ruptura com o trivial.

 

Um exemplo. Discordei sempre do ator Sérgio Britto (1923-2011), um belo parceiro de debate de ideias teatrais, a respeito da importância do teatro escolar. Para ele, o teatro da professorinha, de papel crepom, materiais reciclados e mímica pobre, deformava a sensibilidade das vítimas. Pois eu sempre pensei que mesmo o teatro mais canastrão oferece à sua plateia a chance de sair de si, sonhar acordado, visitar outros mundos sensíveis e, portanto, ser transformado.

 

Para quem está no mundo do papel crepom, o papel crepom é seda, veludo, convite ao etéreo. O próprio do teatro é ser uma proposta de diálogo transcendental transformador. Nestes termos, portanto, algumas performances podem ser teatro, mas nem toda performance é teatro.

 

Em consequência, uma sociedade tensionada pela História como a brasileira, colonial, fragmentária, aferrada a formas de pensar tão rígidas como a sua estrutura social, precisa de muito teatro e de um teatro muito livre e vário. Avessa à dúvida e ao ato do pensamento livre, resistente à incorporação do processo histórico e à percepção geral do mundo, a sociedade brasileira precisa de um teatro denso, livre, independente, múltiplo, capaz do jogo mais amplo com a sensibilidade e do questionamento radical do sujeito.

 

Portanto, vejo com tristeza a queda do número de peças em cartaz no Rio de Janeiro – basta examinar as colunas de tijolinhos para constatar que o volume de produção está caindo. Mas, pior do que tudo, sinto um absoluto terror quando leio que Roberto Alvim, dramaturgo, encenador e criador teatral está encerrando as atividades do seu excelente e inquieto Club Noir por não suportar a carga de difamação lançada contra ele, desencadeada em função de suas posições políticas.

 

Para um vasto território da classe teatral, discordar e pensar noutra direção, ter uma outra posição política independente, é inadmissível. A expectativa é a de que o teatro aconteça como o mesmo, o pacificado, o subalterno, a ação numa direção única, sem turbulência, contradição, embates.

 

Fico pensando quê teatro é este, que não admite o diferente, a oposição, a contestação. Soube que Regina Duarte tem sido atacada pelos mesmos motivos. E lembrei de Teresa Rachel, Marília Pêra e Cláudia Raia: no passado recente, foram linchadas publicamente pela classe em razão de suas opções políticas pessoais.

 

Nestes últimos casos, o ataque nasceu por causa do apoio a Fernando Collor, então inimigo radical de Lula. O jovem político fazia o papel do pretenso caçador de marajás, eletrizou as massas e conseguiu derrotar Lula e o PT. Por uma destas ironias típicas da minoridade política brasileira, Collor (– assim como Maluf, Sarney, Renan Calheiros, Delfim Neto –) veio a se tornar aliado de… Lula e do PT.

 

Mas a esplêndida atriz Teresa Rachel, a única de sua geração que teve a grandeza de construir um teatro para a nossa cidade, nunca se recuperou do linchamento público. A pergunta é esta: por que aceitamos ter um teatro fraco, a reboque de um jogo político colonial refém da História? Um teatro que se divide e se volta contra si, a partir de acenos de poder? Quais os caminhos que explicam a desunião teatral, a visão de que a classe tem que ser um monólito pré-histórico, desprovido de contradições, frestas, nuanças, tensões e conflitos?

 

Isto não significa sustentar que as pessoas não devam ter as suas posições políticas, os seus compromissos de cidadania – significa apenas perguntar por quê se consegue acreditar que todos devam vestir um uniforme, uma espécie de túnica maoísta, e marchar juntos sob uma bandeira? A classe teatral precisa ser um bando de escoteiros? Ou uma milícia fiel a linhas de poder exteriores? Como na Idade Média, o teatro precisa bajular os reis e se arrastar no beija-mão? Ainda existe a Inquisição e a fogueira para os infiéis?

 

Destaque-se que os ataques da classe à sua própria liberdade de existir livre jamais acarretaram no Brasil, em qualquer governo apoiado ideologicamente pela classe, qualquer conforto que fosse para a prática do teatro. Incomoda dizer, mas os anos do PT no governo não foram traduzidos em fortalecimento da prática do teatro na nossa sociedade.

 

Pior: talvez se devesse considerar que, em alguns momentos históricos de ditadura, quando profissionais íntegros foram alçados a cargos de liderança institucional, o teatro conquistou algumas vitórias de extrema importância. Foi assim na ditadura de Vargas, com a criação em 1936 da Comissão Nacional de Teatro, integrada por Olavo de Barros, Benjamin Lima, Oduvaldo Vianna, Celso Kelly, Múcio Leão, Francisco Mignone e Sérgio Buarque de Holanda.

 

Dela, entre outras iniciativas, surgiu o Serviço Nacional de Teatro. E o Ministro Gustavo Capanema instaurou uma linha de financiamento da arte responsável pela potência do grupo Os Comediantes. Vale lembrar um detalhe: em 1936 Graciliano Ramos foi preso por suas ideias e iniciou, ao lado de uma lista de nomes de honrar qualquer texto de história da cultura, um périplo por sinistras cadeias nacionais. Sob a ditadura militar, a gestão do SNT sob a liderança de Orlando Miranda e Carlos Miranda instaurou mecânicas de produção e de fomento de profunda relevância histórica.

 

Estas iniciativas aconteceram orientadas pelo princípio de fidelidade ao teatro. Não se supunha que o teatro deveria seguir um modelo ou ser uma camisa de força, por mais que a corrente de esquerda fosse hegemônica. Aliás, importa dizer que Paulo Pontes aderiu à comédia de costumes de perfil comercial como um caminho para a afirmação do teatro nacional. A linha teatral, alienada e alienante num sentido brechtiano estreito, vinha de longe com muito sucesso e sempre foi o lugar do puro comércio teatral.

 

Filiado ao Partido Comunista, Oduvaldo Vianna escrevia comédias de sala de visitas no tom da época e radionovelas, hoje dificilmente encenáveis. Sim, engajamento à parte, a cena sobrevivia como multiplicidade. Jaime Costa, amigo pessoal de Getúlio Vargas, manteve o seu teatro de primeiro ator até os anos 1950. Dulcina de Moares, para muitos a maior atriz brasileira do século XX, zelava por seu teatro comercial requintado e enveredou por tons culturais sob o patrocínio de … Vargas. D. Eva construía o seu estilo sem patrulhamentos, ainda que a sua atuação fosse enquadrada pelos modernos como arte menor.

 

O desfile pacífico de teatralidades brasileiras contraditórias poderia ser estendido por muitas linhas. Itália Fausta, a grande trágica, teve carteira assinada no teatro de revista. Os artistas discordavam, mantinham suas arestas, mas ninguém, ao que se sabe, tratava de buscar a liquidação do outro. Basta examinar os espetáculos históricos de poeira das estrelas para ver como, em algum lugar, todos estavam juntos: no lugar do amor ao palco, religião de todos.

 

E agora, o que fazemos de nossa arte? Deveria existir apenas um teatro, rígido como um pelotão de exército em tempo de guerra, distante do papel crepom e das ideias discordantes, um teatro áulico e acadêmico, como se a cabeça humana fosse um bloco de granito a um só tempo tosco e imutável? Então saberíamos tudo, teríamos a resposta de tudo – e teríamos um teatro inerte, morto, uma espécie de cemitério das ideias? Seríamos robôs, autômatos, preconcebidos e teleguiados – estaríamos defuntos, com certeza. Se não é para sentir, pensar, duvidar, mudar de ideia, sacudir o cérebro e a sensibilidade, para quê teatro?

 

Eu sei que esta infantilidade não surgiu hoje, não é nova. Trata-se de uma doença sectária, cíclica, que volta e meia aflora no teatro como febre terçã maldita, para enfraquecê-lo. Ela fez a ruína de Artur Azevedo. Se Nelson Rodrigues, com toda a sua virulência, surgisse hoje, seria massacrado, como, aliás, em determinado momento, se tentou fazer com ele. Comecei a fazer teatro no início dos anos 1970 e naquela época a esquerda odiava Nelson Rodrigues, fazia tudo para apagar a sua obra. Curiosamente, Jorge Andrade, gênio absoluto da raça teatral, também apanhou muito. Eles apanharam da classe, mas os linchamentos antigos não eram paralisantes. O alvo conseguia sobreviver, ainda não existia a máquina do consumo.

 

No nosso tempo, quando a própria arte do teatro entrou em eclipse, em que foi instaurado um universo de consumo desvairado, a fragilidade do teatro se tornou patética, pois no nosso país a arte não se consolidou como instituição. Virou prática ocasional. Assim, a febre retornou com uma voltagem sufocante, sem margem de manobra para quem ergue a voz noutro tom. E, no caso, sequer se pode falar em discordância teatral, o que se pretende combater é o direito das pessoas ao pensamento diferente. Gente, que teatro é este, em que não se respeita o direito ao pensamento, não se prioriza a liberdade de criação? O que leva o teatro a fazer o jogo de poderes exteriores e a ficar se entredevorando?

 

Existe, contudo, luz no fim do palco e este fim não é o fim do teatro, mas sim o início da plateia. Desconfio que instituições como o Sesc sabem o quão dinâmico o teatro precisa ser. Basta olhar a programação fixada para junho pela instituição para obter uma tela na qual o teatro surge sob um ritmo extremo de adesão à sua multiplicidade. Do grande espetáculo de ator à performance com o público, passando pelo teatro de grupo e de experimentação, todo prazer da arte do palco o Sesc engrandece.

 

Esta condição transforma o Sesc em oxigênio puro para o teatro, a grande instituição brasileira do momento efetivamente engajada no reconhecimento da importância social da arte. Portanto, importa valorizar aquilo que é realmente essencial para a existência do teatro.

 

A afirmação não é retórica vazia. O Sesc anda correndo risco, vale lembrar. E , na história recente de Roberto Alvim, ficou muito claro o desinteresse pelo teatro por parte dos ricos empresários de direita. Eles se recusaram a apoiar a causa do artista e nem desconfiam como se poderia viver numa sociedade melhor, mais saudável para todos, se tivéssemos mais teatro.

 

Eles ganham dinheiro aqui, mas vivem fora, quando vão ao teatro escolhem a Broadway, o West End em Londres, os palcos de Paris, como acontecia no século XIX e no século XX. Respiram lá onde acreditam que o teatro é mais teatro, por acontecer, podemos garantir, em países nos quais a burguesia não é estúpida. E nós? Vamos fazer o jogo da estupidez? Vamos entregar a arte sem resistir e nos manter divididos, em guerra por falta de respeito ao direito de pensar por si do outro?

 

A resistência passa pela união ao redor da arte, uma arte feita de tensões, oscilações, discordâncias, conflitos – e, por isto mesmo, arte. A resistência passa pelo respeito às mais diferentes formas de pensar, desde que prezados os limites da prática da arte e da saúde democrática. A resistência passa pela busca da manutenção dos espaços de arte abertos, entregues aos seus projetos, às suas missões sociais e de arte. A resistência passa pela compreensão de que o teatro precisa ser absolutamente livre, como as ideias, os pensamentos, as formas plenas de ser.

 

Uma amostra deste fervilhar está nos cartazes-Sesc anunciados. Para o mês de Junho, haverá teatro de qualidade no Rio, na cidade e no estado. A ampliação da envergadura do próximo Festival Sesc de Inverno, com mais locais incluídos na programação, também foi uma demanda do próprio festival, com a incorporação de performances e de oficinas afinadas com o tom atual da arte.

 

Enfim, para quem gosta muito de teatro e se vê triste diante da diminuição do ritmo de estreias, a dinâmica do Sesc arrebata. Veja lá: o Sesc entende o vasto universo subjacente sob a palavra teatro, sabe os caminhos da forma poética livre perfeita para defini-lo.

 

 

SERVIÇO

Novos cartazes Sesc em Junho:

Sesc Copacabana:

Amok Teatro – Jogo de Damas.
13/06 a 07/07, Quinta a domingo, 20h

Cia. dos Bondrés – Interior, Maeterlinck.
13/6 a 7/7 | 5ª a domingo, 19h

Sesc Engenho de Dentro
Nefelibato, de Regina Antonini
27/6 | 19h30

Sesc Madureira
Tempestuosa Depressagem, performance, Flavia Souza
14/6 | 19h

Sesc Tijuca
Distorções, contação de histórias
06/06 a 30/06 – quintas, sextas, sábados e domingos (exceto no final de semana dos dias 13, 14, 15 e 16 de junho), 20h

Aracy, Flavia Milioni, solo autoral
06/06 a 30/06 – quintas, sextas, sábados e domingos (exceto no final de semana dos dias 13, 14, 15 e 16 de junho), 19h

Sesc Niterói
O que só passarinho entende, a partir de Marcelino Freire e Manoel de Barros
14/6 | 19h às 20h | 14 anos

Meus 200 filhos
28/6 | 19h às 20h

Sesc Nogueira
Cadê a peruca de Mozart?
29/6 | 15h

Sesc Nova Friburgo
Felicidade, Cia Vida Bela
15/6 | 19h30

Estupendo Circo Di Só Ladies
16/6 | 16h

Sesc Nova Iguaçu
Navalha na carne, de Plinio Marcos – Uma Homenagem à Tonia Carrero
15/6

As Crianças
29/6|19h

Sesc Quitandinha
Mesma Reza
22/6 | 18h

A História de Topetudo
23/6 | 11h

Sesc Ramos
Békoos: Caminhos da Negritude
21/6 | 19h30

Sesc São Gonçalo
Migraaaantes
15/6 | 16h

Sesc São João de Meriti
O Pequeno Príncipe Preto
23/6 | 16h

Navalha na Carne
22/6 | 19h

Sesc Teresópolis
Na Hora do Adeus
14/6 | 19h

Mulher em si – fases de mim
14/6 | 19h 30

Nefelibato
22/6 | 19h 30

Olho de Vidro
28/6 | 19h 30

 

Teatro SESC Ginástico
Peça do Casamento, de Albee, com Eliane Giardini e Antonio Gonzales
Até 30/6 | 6ª a sábado, 19h. Domingos, 18h | 16 anos

 

Festival Sesc de Inverno – 18ª edição, de 19 a 28 de julho
Além de Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, terá programação estendida a Duas Barras, Três Rios, Lumiar e São Pedro da Serra.
www.festivalsescdeinverno.com.br.