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A peste nossa de todo o sempre

“Contradição insolúvel – desafio lógico inédito para o mundo – identidade Brasil. Por aqui não tem aquela história de tese-antítese-síntese. Somos uma civilização (seria mesmo este, o nome da coisa?) ou, melhor dizendo, uma confusão nova, talvez tese/antítese/pow. Ou pin-pow.

 

Não, não estou falando de nenhum tiro ao alvo ou do velho soldadinho, estou falando mesmo da velha cantiga da infância, tiros imaginários incapazes de resolver qualquer coisa que seja, pura arte de brincar. Ou completa manifestação de impotência, já que somos adultos. O amargor de perceber forças antagônicas, opressoras, que persistem atuando, sempre, sem uma resolução lógica positiva. Na hora do perigo, não há desenlace.

 

O que isto significa? Significa que aqui os contrários caminham juntos, persistem em estado de fúria, desafiam o pensamento e vão dar em nada. Nada caminha de verdade. A vontade de pensar um diagnóstico brasilis surgiu por causa de umas leituras do século XIX. Estou amando loucamente, como sempre, faz tempo, o irresistível Artur Azevedo (1855-1908). Por mim, ele seria decretado baluarte absoluto da alma nacional.

 

Como assim? Ah, nem pergunte, caro leitor. O inebriante AA estaria por toda a parte. Alfabetizou? Prove: leia em público uma página de AA. Vai sair do ciclo básico? Faça ver: recite uma página de AA de cor. Pensa que sairá do fundamental, ou do ensino médio, ou ingressará na universidade… Ou abraçará um cargo, uma profissão? Exercerá um ofício? Vai se declarar ao amor da sua vida?…

 

Pois nada disto seria autorizado sem novas provas de conhecimento da obra do maior carioca de todos os tempos. E isto por todo o país, já que ele nasceu na região outrora pertencente ao antigo Estado do Maranhão e Grão-Pará e não no antigo Estado do Brasil. Sim, já fomos dois, lembram? Nosso desentendimento nacional é mais do que secular.

 

Portanto, nada mais justo do que unir as nossas almas para sempre desgarradas através deste colosso do belo humor. Teríamos uma despótica República das Letras. Quem sabe assim editávamos afinal as suas obras definitivamente incompletas, pois muito do que ele escreveu já foi perdido para nunca mais juntar. Talvez ele nos ajudasse a juntar ideias, encarar este mal nacional.

 

AA fica rodando na minha cabeça por uma razão em particular. Ele acreditava no teatro. Pensava que o palco era o grande meio de educação coletiva, instrumento de civilização, que se poderia adotar num país jovem como o nosso para a conquista de maior felicidade social. Nunca abandonou esta ideia, nunca abandonou o teatro.

 

Ele foi um homem de teatro – ainda que tivesse sido jornalista, funcionário público, escritor, poeta, pai de família. Foi o verdadeiro criador do Teatro Municipal. E não foi diretor ou ensaiador ou produtor ou dono de teatro. No seu caso, a qualificação homem de teatro adquire tons curiosos: ele brigava pela arte todo o tempo. Personificava a ideia do teatro em si próprio, no seu dia a dia, era o teatro em forma de gente.

 

Escreveu peças com atenção fina nos debates de ideias de seu tempo e – revolucionário sem que nunca o tenham dito, sem o merecido reconhecimento – ele fez de tudo para levar estas ideias ao homem comum. Nos seus textos, o mais fino conceito da literatura ou da ciência, o mais avançado raciocínio político, o mais atualizado olhar para o jogo político do mundo aparecem despidos de formalidade, acessíveis ao zépovinho. Usava o coloquial – mas um coloquial cuidado, próprio do século XIX.

 

Assim, o seu teatro pretendia empolgar aquela massa que descobria o palco como a grande diversão moderna e que não poderia, nem em sonho, ir até Paris acompanhar a nouvelle saison. Paris, incendiária, era a musa da cidade e AA se encarregou de, ao lado de alguns parceiros notáveis, torná-la ainda mais popular, abrindo espaço para uma cena de transgressão. Contudo, no seu colo largo, a transgressão não se dava só nos costumes, ela regia o pensamento.

 

Aqui começa um cenário espantoso de contradição. Para os intelectuais refinados (também ligados aos encantos de Paris, mas numa outra sintonia espiritual), o populacho ignorante, intelectualmente incapaz, celebrava o que havia de mais detestável e rasteiro. Eram boçais. Jamais sairiam das cavernas. E observe-se bem: o pensamento elevado, apesar de Molière, ainda desdenhava o cômico em si.

 

Portanto, para a elite intelectual, a obra de AA fomentava as trevas. Um fato curioso mora aí: se desdenhavam este público, o autor e a produção, contrapunham à sarjeta um fulgurante castelo, por que diabos se importavam com esta situação? O público afeiçoado ao teatro de tró-ló-ló e pernas nuas não iria se passar para as tertúlias acadêmicas… pouco adiantava desqualificar o conjunto. No fundo, a censura nascia porque eles achavam que a comédia era um antro de baixas ideias, uma forma bruta sem qualquer transcendência: esta arte, em vez de olhar para o olimpo, olhava ao redor e sacudia o que via…

 

As polêmicas e os ataques contra AA e contra o teatro popular que fervilhava na cidade, em boa parte assinado por ele, são impressionantes. Sustentavam o julgamento rigoroso de inferioridade da arte. E o pior: alcançavam o alvo. Pode ser? Acredita? Pois é espantoso como, em várias ocasiões, Artur Azevedo escreveu textos surpreendentes, ora se explicando, ora desqualificando a sua própria obra e, acreditem, até um pouco desdenhando o seu público nem sempre fiel.

 

Choca o leitor de hoje a leitura de trechos seus em que sustenta o ponto de vista de que a opereta, para ficar apenas num exemplo, é obra de dramaturgia inferior, de uma facilidade condenável, um terreno propício apenas para a expansão da criatividade dos músicos. Sim – ele não poderia refutar a genialidade de Offenbach.

 

A argumentação soa, hoje, um tanto inacreditável. AA por vezes afirma que foi obrigado pela vida a seguir a linha da comédia rasgada, apenas um caminho para sobreviver e sustentar a prole. Não teria tido escolha. Pressionado pelo pensamento da intelectualidade séria, ele ignorava a genialidade notável de suas criações – inclusive a sua identidade com o gênero, que tornava o fluxo de produção “fácil”.

 

Era um desafio absurdo ser homem de letras e se manter vivo naqueles tempos, não houve um autor sequer que não tivesse um “emprego sério, honesto” para garantir a sobrevivência e viabilizar a carreira. Vale pensar onde talvez chegariam tais autores se pudessem ter mais conforto com a sua verdadeira vocação. E vale olhar ao redor hoje. Como estamos?

 

Leitores das obras do comediógrafo, bendizemos, hoje, a escolha que ele fez, ainda que o tal público, superficial e volúvel, nem sempre tenha sido qualquer garantia de conforto para o autor, pois nem sempre esteve ao seu lado. Existiria de verdade um pacto autor-público? Ou existiu, a rigor, um autor fenomenal? Aí começa a brotar, rústico, este monumento de contradição chamado Brasil.

 

O público continua o mesmo – talvez os autores, desde o século XIX, com alguns poderes instaurados na sociedade, inclusive uma academia de letras, tenham falhado redondamente no investimento em educação e formação de plateia. Lá como cá, o público continua a ser o que sempre foi, uma massa informe entregue à própria sorte, à deriva dos fluxos de sensação do momento: não se transformou em plateia. A educação do público foi entregue ao acaso.

 

E lá como cá, os dramaturgos continuam a não conseguir sobreviver de teatro. Conheci inúmeros autores teatrais e jamais encontrei um só que fosse, por mais dedicado e profissional que se tornasse, capaz de sobreviver de sua arte. Também parece difícil, fora dos pobres limites do teatro,na árida planície das letras nacionais, listar autores exclusivamente sustentados por sua literatura.

 

Surpreendentemente, existem desde o século XIX atores dramaturgos – quer dizer, atores capazes de escrever os textos que encenam. Vale um estudo muito interessante a respeito da forma histórica de ser do teatro brasileiro. Para ficar nuns exemplos rápidos, porém eloquentes, a linha começaria com o ator Vasques (1839-1892), passaria por Leopoldo Froes (1882-1932) e Dercy Gonçalves (1907-2008), chegaria hoje numa multiplicidade de nomes.

 

Portanto, uma primeira reflexão importante a respeito da necessidade de investir no teatro brasileiro passa por aí – qual a condição histórica real do autor nacional de peças de teatro? Quem é o autor teatral brasileiro? Qual a função histórica do texto teatral aqui? Qual o valor social do dramaturgo? Necessitamos de peças de teatro, necessitamos dos nossos autores?

 

Para cumprir com este pensamento, seria importante mobilizar algumas instituições-chave, convencê-las a agir em prol do teatro. A crença, aqui, é a de que a sociedade civil pode acabar arrastando o poder público para um lugar de ação importante para o bem comum, se concordarmos que o teatro se define como uma estrutura básica do bem comum.

 

Assim, o exemplo poderia começar com a Academia Brasileira de Letras. Ela não conta, hoje, nas suas fileiras, com nenhum dramaturgo obsessivo em atividade, apesar de Nélida Piñon e, em especial, Geraldo Carneiro, belo autor, amarem o palco. Mas a casa deveria oferecer ciclos permanentes de leituras dramáticas de textos dos seus mais ilustres autores teatrais em benefício da sociedade. Patronos, fundadores e sucessores ficariam bem felizes.

 

Uma outra ação poderia vir da Associação Brasileira de Imprensa – foi raro o dramaturgo brasileiro que não atuou nas redações. A iniciativa teria o grande mérito de ser muito inovadora e faria justiça a autores atuais muito produtivos, jornalistas de carreira e carteira. Neste caso, as programações poderiam partir do presente, para chegar nas redações que abrigaram Artur Azevedo, Aluísio de Azevedo, Machado de Assis.

 

Sem dúvida haveria ainda a oportunidade de colaboração dos sindicatos, já que a SBAT, hoje, não se apresenta exatamente em situação de saúde pública. A difusão da história dos textos teatrais brasileiros interessaria tanto ao sindicato dos professores quanto ao sindicato de artistas e técnicos.

 

Muitas outras iniciativas de salvação do teatro nacional despencaram sobre a minha cabeça desde a semana passada, quando enveredei decidida pelo estudo de textos de AA nos jornais. A contradição insolúvel mais inquietante com que me deparei foi a constatação de que o falatório ao redor da crise do teatro nacional está nos jornais com bastante violência desde o século XIX. E efetivamente não se faz nada a respeito.

 

Sim, a classe teatral está aí, em cena, quebrando pedras, disposta a deixar bem claro que existem muitas formas de compreensão do humano e que estas formas importam, devem ser vivenciadas por todos, pois nos fazem ter uma vida melhor.

 

Agora mesmo circulam palpitantes imagens poéticas sombrias da montagem de Estado de Sítio, de Camus (1913-1960), assinada por Gabriel Villela. A estreia será nesta quinta-feira, no Teatro Ginástico. Vai ser um acontecimento teatral impactante. Atenção: a temporada será bem curta, corra para garantir o seu ingresso, este será um dos grandes espetáculos imperdíveis do ano.

 

A trama densa do autor argelino vem nos dizer dos caminhos da prisão do ser humano, ainda que em liberdade, pelo medo e pela credulidade. Bailará em cena a dominação arbitrária garantida por um poder despótico, qualquer poder despótico, a constatação da dificuldade da libertação dos seres e, em contraponto, a necessidade de lutar por valores elevados, dignos da aventura da espécie. Pura lógica ocidental, tese, antítese, síntese. No foco, a indicação da nobreza maior do pensamento.

 

Vivemos num Brasil que se tornou país independente há bem pouco tempo. Uma terra com uma história sinistra de pestes e de insalubridade, males que, apesar do avanço dos tempos, não se consegue erradicar. Pois bem. Talvez o teatro devesse se tornar uma ferramenta importante de transformação do país, talvez o teatro pudesse nos ajudar a liquidar a pior das nossas pestes, a contradição insolúvel de, diante da realidade, não propor formulas efetivas para mudar nossas formas de pensamento, a estrutura básica da miséria nacional. A peste tem cabeças de terror, terror de ter ideias: o verdadeiro pesadelo da civilização.

 

 

SERVIÇO
ESTADO DE SITIO, de Camus
Espetáculo Gabriel Villela
ESTREIA: dia 04 de julho (5ªf), às 20h (horário excepcional, somente para a estreia, aberta ao público)
TEMPORADA: até 28 de julho
LOCAL: Teatro Sesc Ginástico – Av. Graça Aranha, 187, Centro / RJ Tel: (21) 2279-4027
HORÁRIOS: 5ª a sab 19h, dom 18h
INGRESSOS: R$30,00, R$15,00 (meia) e R$7,50 (associados Sesc) Entrada solidária 50% de desconto mediante a doação de 1 kg de alimento não perecível (será doado ao projeto Mesa Brasil).
BILHETERIA: 3ª a domingo das 13 às 20h
CAPACIDADE: 513 espectadores DURAÇÃO: 90 minutos
GÊNERO: drama / CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos
FOTO: Divulgação
Atendimento à imprensa: J & S Pontes