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O amor e o significado da palavra Prêmio

De repente, você ama – o amor, esta estranha loucura, conduz as suas ações a favor do objeto amado. Tudo o que você deseja é celebrar a grandeza de sua fonte sublime de inspiração. Fanfarra, louros, troféus e toda a glória precisam desabar dos céus, tudo é pouco para promover uma aclamação grandiosa.

 

Numa visão ingênua, os prêmios funcionariam assim, a reboque do afeto. Amou, acionou a engrenagem da celebração total. Tanto mais seria assim, quanto mais heterogêneas se tornaram as comissões julgadoras: na atualidade, por aqui, vai se espalhando a concepção de que os jurados devem representar múltiplos olhares, não devem ser apenas e absolutamente críticos de teatro, como se pretendia outrora. Seriam amantes simples, ingênuos? Ou não? Amantes de verdade?

 

Nos velhos tempos, as comissões eram integradas por críticos atuantes na imprensa. A vantagem da situação era que, com frequência, os jurados viam quase tudo – ou, ao menos, o máximo de tudo. E escreviam a respeito de tudo. Era difícil acompanhar toda a temporada, mas o crítico era naturalmente obrigado a tentar acompanhar: escrever num jornal ou revista significava ver os cartazes e desenvolver uma visão a respeito.

 

E no entanto a desvantagem das velhas comissões era exatamente o seu “vício profissional”, a caneta torta de tanto escrever, o olho saturado de tanto ver, alguns compromissos de geração ou até de bolso. E, claro, as idiossincrasias. Ninguém escreveu até hoje a história da crítica de teatro no Brasil, mas existem episódios memoráveis, indicativos dos limites do olhar crítico, alguns bem conhecidos.

 

Os maiores exemplos envolvem o conflito entre críticos antigos e modernos. Páginas hilárias foram escritas pelos velhos críticos sobre – quer dizer, contra – Nelson Rodrigues. Ou mesmo a respeito de jovens arrojados, engajados precoces em ousados protagonismos, tipo Sérgio Cardoso. Páginas assustadoras foram escritas pelos jovens críticos sobre – quer dizer, contra – entidades absolutas da cena, tais como Leopoldo Froes, Alda Garrido, Dercy Gonçalves, Jaime Costa, Procópio Ferreira…

 

Impressionantes são as anedotas entregando críticos profissionais capazes de escrever críticas demolidoras sobre espetáculos de jovens iniciantes, sem que tivessem ido ao teatro ver o trabalho dos obscuros! Aliás, o truque de desqualificar todo e qualquer jovem anônimo, sem padrinho e sem poder de mercado, foi muitas vezes usado por críticos inseguros, incapazes de fazer críticas negativas aos grandes.

 

Entenda-se: muita gente tonta supõe que fazer crítica é falar mal, desancar, encontrar defeito. Em poucas palavras, afirmação de ego. Assim, o crítico teria a obrigação de esculhambar alguma coisa de quando em quanto, pois o seu papel não seria nem pensar, nem analisar, nem propor visões a respeito do objeto de arte, mas julgar segundo uma métrica pessoal intocável. Contudo, para estes pobres esculhambadores profissionais, não seria fácil detonar as peças dos grandes. Assim…

 

Um outro problema desagradável reside no fato de que a crítica, antiga ou moderna, muitas vezes supõe a necessidade de usar lentes potentes para verificar graus de fidelidade a uma suposta cartilha ideal. Existiria um teatro modelo, exemplar, um molde para julgar o que se faz. Como diria Aristóteles, ou Boileau, ou um outro papa qualquer.

 

Todo mecanismo de poder gera sempre uma reação. E por mais dedicado que um crítico possa ser, ele sempre será um ser discutível, tão discutível quanto os seus critérios. Nem mesmo Décio de Almeida Prado, o maior de todos os nomes que se dedicaram à crítica no país, conseguiu ser unanimidade; o seu vínculo com o TBC, em SP, o tornou uma vítima fácil, em particular para as poéticas à esquerda.

 

Aliás, Yan Michalski, um outro nome de projeção, no Rio, meu professor na escola de teatro, costumava dizer que crítico bom, para a classe, era crítico aposentado ou morto. Faz parte do ofício do crítico despertar opiniões contrárias e, quando vários profissionais exercem o ofício, o leitor se beneficia, se o debate se torna generoso, acontece como legítima exposição de ideias, apesar da possibilidade de conflito entre os pares. O problema é que muitos críticos consideram a sua atividade um juízo de valor absoluto, um julgamento até autoritário, inflexível. Por isto mesmo, vários críticos foram alvos de processos judiciais, movidos por artistas inconformados.
 

A reunião dos críticos profissionais em comissões por vezes gerava polêmicas – apesar de algumas lideranças históricas, elas nem sempre prevaleciam. A liberdade instaurada na arte a partir do teatro moderno significou, entre outras coisas, uma vasta abertura para a heterogeneidade, portanto heterogeneidade de critérios no campo da crítica, uma espiral crescente desde então. Vai longe a época em que um Sarcey ou um Copeau ditavam os cânones do bom teatro e o mundo acatava…

 

Hoje, parece positivo ter comissões mistas nos prêmios, até porque a imprensa e a função de crítico de teatro estão em extinção. Mas então voltamos ao ponto inicial, o fato destas comissões oscilarem ao sabor de uma heterogeneidade ainda maior de critérios. É bem verdade que uma unidade ou identidade natural se impõe aos julgamentos graças aos regulamentos elaborados para estruturar as premiações. A rigor, cada prêmio precisa ter uma cara, um pensamento a respeito da arte.

 

Portanto, diante da natureza híbrida das comissões atuais, que tenderiam a registrar variadas linhas da dinâmica da arte, multiplicidades de visões do fazer ou do jogo social ao redor, torna-se necessário que a arte e a sociedade discutam o que é um prêmio. Afinal, o que importa reconhecer na hora de premiar?

 

O mais importante é perceber a densidade artística das obras? Em que grau a obra deve espelhar o Brasil? A atualidade da obra em sintonia com as discussões da arte no mundo precisa ser reconhecida? Ou o que vale é o sentimento, o gosto, da plateia? É necessário ter um link imediato com o momento político? Importa a trajetória do artista? Ou mais do que tudo existe uma coisa chamada beleza, correção técnica, maestria e devoção ao fazer, que desencadeia todo o resto?

 

Olhando fotos antigas de teatro percebemos como e quanto o teatro se mantém preso ao imediato, à vida ao seu redor, como o teatro deseja ser o interlocutor do presente. No teatro não existe poeta póstumo – ou a arte acontece em pleno encontro com a vida que passa ou ela não é arte.

 

A dificuldade da obra de um Qorpo Santo passa por aí. Aliás, perceba-se que poucos autores de teatro “ficam” para as gerações seguintes, se tornam clássicos. As estantes de teatro são grandes cemitérios, povoadas por autores que morreram para todo o sempre, não podem ser exumados, apodreceram com os contemporâneos.

 

A condenação ao limbo abraça também os cenógrafos, figurinistas, todos os envolvidos nesta arte perecível. Velhos atores, ainda vivos, com frequência se tornam fantasmas apavorantes para as gerações seguintes – basta que se leia Machado de Assis falando sobre João Caetano…

 

Portanto, premiar é um desafiado muito sério: é tentar olhar os olhos do presente. É preciso apontar aquilo que, no imediato ao redor, representa uma força de arte importante, a força que falará de nós, imortalizada no prêmio. São escolhas difíceis. Pessoalmente, considero a tarefa um momento grave. Procuro trabalhar, ao preparar a minha participação nestas reuniões, com atenção para tentar cometer o menor número possível de erros e de injustiças. Desenvolvi um método pessoal para este fim. Estudo a temporada, analiso o que vi e busco estabelecer um pensamento sobre os trabalhos.

 

A partir daí, faço uma extensa lista daquilo que foi marcante no período. Escolho os trabalhos que eu sinceramente gostaria que ficassem e dessem resultado. Importa frisar que eu não tenho preconceito contra o teatro brasileiro. Escolhi ser especialista em teatro brasileiro e estudo o tema desde os anos 1970. Não foi um caminho fácil. Sequer temos, ainda hoje, a história do nosso teatro escrita.

 

Quando escolhi, fui alvo de chacota. Não era um assunto digno. Eu estudava Brecht, Stanislavski e Beckett. Mas… meu coração balançou a favor do palco nacional. Por isto, tenho um defeito horrível: ao contrário de muita gente de pose, eu não acho o teatro brasileiro ruim, nem acho que ele deva ser visto sob este tipo de adjetivo.

 

O teatro brasileiro é o que ele é. É um ato de amor imenso, de doação, uma entrega sem fim de pessoas sensíveis que desejam, até sem nem saber porquê, desvendar esta selva sentimental chamada Brasil. Amar o teatro, aqui, é uma escolha a favor da grandeza social.

 

Quando esta escolha acontece, você ama sem explicação, ama por amar, não por ser banana ou não ter critérios. Ama por que chegou à conclusão de que a arte do teatro é a melhor revolução para mudar o mundo. E então você vai escolher, num prêmio, as peças que, no seu entender, apontam para esta revolução.

 

Esta semana foram indicados os destaques do primeiro semestre para o Prêmio Cesgranrio. A comissão do prêmio combina críticos, especialistas e artistas. O prêmio apresenta uma particularidade interessante, de conceder um espaço generoso para o teatro musical. A semana também viu o começo do Festival de Teatro do Midrash, um belo nicho carioca de culto ao teatro. Olhe a lista dos indicados, veja a programação do festival, veja se você se encontra por lá em alguma iniciativa – amar o teatro importa mais do que nunca, pois assegura, às nossas vidas hesitantes, inseguras, trêmulas, a certeza de que a espécie tem salvação. Ou não, não tem. Pode ser que, iludidos, posto que amantes desvairados, acreditemos que podemos tentar alcançá-la. Embriagados com a luz do palco, nos resta apenas a chance de ficarmos felizes por aqui.

 

 

SERVIÇO
Indicados do 1º semestre ao Prêmio Cesgranrio de Teatro 2019:

MELHOR FIGURINO
João Pimenta – pelo espetáculo “Ao Som de Raul Seixas ‘Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade’”
Marcelo Marques – pelo espetáculo “Cole Porter – Ele Nunca Disse Que Me Amava”
Tiago Ribeiro – pelo espetáculo “Interior”
MELHOR CENOGRAFIA
Bia Junqueira – pelo espetáculo “Eu, Moby Dick”
Ana Teixeira e Stephane Brodt – pelo espetáculo “Jogo de Damas”
Rodrigo Portella e Julia Deccache – pelo espetáculo “As Crianças”
MELHOR ILUMINAÇÃO
Paulo César Medeiros – pelo espetáculo “As Crianças”
Renato Machado – pelo espetáculo “Eu, Moby Dick”
Renato Machado – pelo espetáculo “Jogo de Damas”
MELHOR ATOR
Kiko Mascarenhas – pelo espetáculo “Todas as Coisas Maravilhosas”
Caio Scot – pelo espetáculo “Como Se Um Trem Passasse”
Mario Borges – pelo espetáculo “As Crianças”
MELHOR ATOR EM TEATRO MUSICAL
Patrick Amstalden – pelo espetáculo “Ao Som de Raul Seixas ‘Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade’”
Saulo Segreto – pelo espetáculo “Ao Som de Raul Seixas ‘Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade’”
CATEGORIA ESPECIAL
Ana Turra, Camila Schmidt e Rogério Velloso – pelo Set Design, videodesign, cenografia e iluminação de “Ao Som de Raul Seixas ‘Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade’”
Diego Teza – pelas traduções de “As Crianças”, ‘’Todas as Coisas Maravilhosas” e “Meninas e Meninos”
Celina Sodré – pelos 10 anos de atividades do Instituto do Ator
MELHOR ATRIZ
Analu Prestes – pelo espetáculo “As Crianças”
Jéssika Menkel – pelo espetáculo “Cálculo Ilógico”
Claudia Ventura – pelo espetáculo “A Verdade”
MELHOR ATRIZ EM MUSICAL
Kacau Gomes – pelo espetáculo “Ao Som de Raul Seixas ‘Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade’”
Evelyn Castro – pelo espetáculo “Quebrando Regras – O Musical – Um Tributo a Tina Turner”
Bel Lima – pelo espetáculo “Cole Porter – Ele Nunca Disse Que Me Amava”
MELHOR DIREÇÃO
Rodrigo Portella – pelo espetáculo “As Crianças”
Felipe Hirsch – pelo espetáculo “Antes que a Definitiva Noite se Espalhe em Latino América”
Daniel Herz – pelo espetáculo “Cálculo Ilógico”
MELHOR DIREÇÃO MUSICAL
Claudio Botelho – pelo espetáculo “Cole Porter – Ele Nunca Disse Que Me Amava”
Fabio Cardia e Jules Vandystadt – pelo espetáculo “Ao Som de Raul Seixas ‘Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade’”
Tony Lucchesi – pelo espetáculo “Quebrando Regras – O Musical – Um Tributo a Tina Turner”
MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO
Luciana Pessanha – pelo espetáculo “Os Desajustados”
Márcia Zanelatto – pelo espetáculo “Ao Som de Raul Seixas ‘Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade’”
Jéssika Menkel – pelo espetáculo “Cálculo Ilógico”
MELHOR ESPETÁCULO
As Crianças
Todas As Coisas Maravilhosas
Cálculo Ilógico
Comissão julgadora: Carolina Virgüez, Daniel Schenker, Jacqueline Laurence, Lionel Fischer, Macksen Luiz, Rafael Teixeira e Tania Brandão.

 

FESTIVAL MIDRASH 2019
5º FESTIVAL MIDRASH DE TEATRO
PERÍODO: 01 a 31 de julho de 2019
LOCAL: Midrash Centro Cultural
END.: Rua General Venâncio Flores, 184, Leblon, Rio de Janeiro
TEL.: + 55 21 2239-1800
E-MAIL: secretaria@midrash.org.br
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Programação e Compra de ingressos online, pelo site: www.midrash.org.br