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O teatro, a vida e o leito de sementes

O berço da vida – talvez se possa definir assim, de um jeito rápido, um leito de sementes. Aprendi na vida acadêmica, convivendo com pesquisadores de biologia, que o chão das florestas é um leito de sementes – abriga folhas, gravetos, húmus, uma multidão de pequenos animais e formas de vida e sementes.

 

Olhando-o, talvez os engenheiros ou os físicos pudessem formular a equação da vida: através de um jogo de incógnitas daqueles que eles amam, se x ou y, pois z ou w, eles nos permitiriam saber qual a potência de regeneração de uma floresta, indefesa diante do nosso poder de civilização.

 

Quer dizer, o leito de sementes, de certa forma, contem a floresta, portanto os cálculos diriam como e quando ele poderia reparar ou trazer a exuberante natureza de volta. De certa forma, toda a floresta está ali, pulsando, esperando para fazer valer a força da vida.

 

Penso que a arte, a cultura e em particular o teatro precisam ter os seus leitos de sementes. Seriam aqueles depósitos latentes da arte, prontos para desabrochar e fazer com que a pulsação verdadeira do ofício, puro amor à vida, se mantenha viva.

 

Mas, veja bem, senhor leitor. O leito de sementes, por conter em si a equação da vida do habitat ao redor, é algo natural – importa destacar. Ele é apenas o chão da floresta. Ali onde ela nasce e morre para renascer, naturalmente. Isto quer dizer algo muito simples, caro leitor – quer dizer que a arte, no seu conjunto, deve trazer ao redor de si, obrigatoriamente, o seu leito de sementes. Sim, convenhamos, bem entendido, se a arte acontece num ambiente de cultivo da vida. Se a sociedade é – ou se torna – uma clareira devotada à morte, o leito de sementes precisa ser arrasado ou mesmo não deve existir.

 

Sociedades periféricas, coloniais e dependentes, tendem a professar um estranho culto de adoração da morte, posto que se estruturam como lugares do precário, do descartável, do transitório. A humanidade aí acontece como fiapos, esgarçamentos, desigualdades, para preservar o desenho colonial geral.

 

As multidões de pessoas que tecem roupas em terras sombrias do mundo para os grandes armazéns de grife internacionais são descartáveis, mortas-vivas, sujeitas à escravidão – portanto, no culto à morte que as envolve, a arte não é necessária. Se por algum acaso ela acontece, ela não precisa de leito de sementes, pois tudo o que se espera desta arte é que ela exista apenas como mortalha social.

 

Num país como o Brasil, uma colcha esfarrapada de retalhos de gritante desencontro entre as partes, não existe o lugar da arte como prática cultural efetiva, institucional. A arte se dá no lugar do precário, num espaço de morte social. Portanto, pensar em leito de sementes para o teatro, aqui, é um ato urgente. E incendiário. Um caminho possível para por em xeque a dinâmica de morte social.

 

E o que seria esta ousadia transgressora? Seria, por exemplo, seguir pegadas de um Artur Azevedo (1855-1908). O tema é muito extenso, ultrapassa bastante as dimensões desta coluna, vale indicar apenas uma vertente do caso. Por exemplo – não dá para focalizar a tensão teatro popular x teatro acadêmico. O ângulo escolhido é só um: a formulação de projeto social para o teatro.

 

Artur Azevedo não tinha ilusão a respeito do seu sucesso popular, pois mais de uma vez provou a instabilidade da plateia brasileira. Ele não se enganava – percebeu que a aclamação era volúvel, o culto ao teatro verdadeiramente não acontecia.
Assim, para a Exposição Nacional de 1908, comemorativa do centenário da Abertura dos Portos, Artur Azevedo concebeu um programa de atividades digno de seu amor ao teatro. Aliás, a atuação de AA à frente da comissão de festejos teatrais seria um excelente objeto de pesquisa e daria um belo livro, como parte dos festejos do próximo bicentenário da Independência.

 

O conceito básico do seu projeto envolveu dois eixos – o estímulo à dramaturgia nacional, força sema qual não se ergue o teatro de um país, e o fortalecimento da prática teatral, graças à criação de uma Companhia Dramática Nacional, integrada por artistas profissionais brasileiros.

 

O dedicado autor trabalhou duro para realizar o projeto, um festival de teatro muito bem pensado, realizado no Teatro João Caetano, erguido ali na Praia Vermelha – a Urca, então, praticamente não existia, vale a ressalva. Esta foi a última obra do grande autor – pois ele morreu neste mesmo ano e muitos conjeturam se a fadiga não teria contribuído para encurtar os seus dias.

 

O teatro da exposição abrigou a montagem de 15 peças, uma seleta de textos clássicos brasileiros e textos atuais. Assim, a proposta atuava em dupla chave, a difusão da dramaturgia histórica (Martins Pena, Machado de Assis, Franca Júnior, José de Alencar e Artur Rocha) e o incentivo aos contemporâneos (Coelho Neto, Filinto de Almeida, Goulart de Andrade, Júlia Lopes de Almeida, Pinheiro Guimararães, José Piza e Artur Azevedo).

 

As apresentações aconteciam às segundas e às sextas feiras e garantiram um lugar de nobreza para o teatro nacional. Neste mesmo período – ou melhor, começando um pouco antes – Artur Azevedo lutava por uma outra grande causa que, na sua concepção, transformaria o teatro brasileiro: a construção do Teatro Municipal.

 

É legítimo supor que, para o dramaturgo, a companhia criada para a Exposição Nacional poderia ser a companhia de teatro oficial do país, encarregada do palco do futuro grande teatro em obras em 1908. AA não viu a inauguração do Teatro Municipal e, logo, teve menos um dissabor na vida.

 

Assim como a Exposição Nacional se desfez, o teatro da exposição, feito em madeira e estuque, desapareceu. A proposta monumental de estímulo ao teatro brasileiro pensada por Artur Azevedo se perdeu em terra salgada, pois os terrenos da Praia da Saudade não se constituíram em leito de sementes favorável à arte.

 

Nem pense, caro leitor, em contra argumentar, alegrar-se com a afirmação de que ali, na Praia Vermelha, estão os cursos de teatro da UNIRIO, a mais antiga faculdade de teatro do país, e da UFRJ. A rigor, tais cursos foram parar por ali por mero acaso e não existe na instituição qualquer memória a respeito do velho projeto de Artur Azevedo.

 

O ponto que se desejava atingir aparece aqui. Neste momento, em que a crise grassa por toda a sociedade brasileira, acenando com uma sufocante redução de recursos, e no qual as práticas de arte não se consolidaram o suficiente para surgirem como realidades essenciais, importa formular projetos e sair na batalha a seu favor.

 

Não são projetos isolados, simples propostas de montagem para a sobrevivência imediata. São projetos em que se precisa pensar o teatro como leito de sementes – sua realidade, sua prática, sua densidade social, sua história e seu futuro. O teatro carioca – e talvez o teatro brasileiro – tem se proposto como se fosse um capítulo da moda do momento, das sensações e do gosto do agora.

 

Isto significa que o teatro, ele próprio, se vê como prática descartável, tão raso quanto um novo modelo de vestido ou de maquiagem. E neste jogo reside todo o perigo, pois o palco cede tanto ao gosto do momento que se descaracteriza, assina a sua sentença de morte.

 

Ao formular o programa de teatro para a Exposição Nacional, Artur Azevedo apostou num teatro em que havia um pouco mais de exigência dos recursos da arte, um pouco menos de facilidade comercial. E apostou na identidade da arte ao recorrer aos grandes textos do século XIX – textos cômicos, por sinal.

 

O país cresceu, o Rio virou uma megalópole, do mar da Urca nasceu um bairro, muita gente boa estuda teatro e nem tem ideia de quem foi Artur Azevedo – pois este crescimento nacional, na verdade um inchaço, não foi acompanhado por ações elementares para cimentar a vida teatral.

 

Exemplos? Como os concursos de dramaturgia, municipais, estaduais, federais. Um absurdo revoltante – precisamos conhecer quem se dispõe a escrever sobre a nossa vida, precisamos coroá-los com louros, ver os seus textos em cena.

 

Vivemos no desprograma cultural. Ou no programa ignorantal. Não temos políticas de apoio a grupos e companhias estáveis de teatro. Não temos programas de incentivo a montagens de clássicos nacionais. Não temos programas de ida ao teatro para estudantes dos diferentes níveis escolares. Não temos políticas de incentivo a novos talentos. Não temos projeto de nação, não sabemos o que queremos ser.

 

Por isto, é de admirar a existência de iniciativas tais como a nona edição do Concurso Jovens Dramaturgos do Espaço Cultural Escola Sesc, cujas inscrições se encerrarão esta semana. A ideia é muito bem urdida – o público alvo abrange os jovens autores entre 15 e 29 anos de idade.

 

Para concorrer, basta enviar um texto inédito, a ser avaliado por uma curadoria, orientada para julgar a originalidade, a estruturação do texto e o uso da linguagem cênica. Cinco autores serão selecionados para uma residência artística em dezembro, com a participação em oficinas orientadas por profissionais de referencia. Além disso, haverá a publicação dos textos e leituras encenadas.

 

A outra novidade alentadora é o lançamento de uma montagem profissional de O Oráculo, texto de Artur Azevedo, cartaz com uma temporada tímida no horário alternativo do Teatro Vannucci, apenas este mês. A equipe tem perfil heterogêneo – a diretora Ana Miranda, professora de teatro e atriz, é iniciante e, por isto mesmo, vale a pena conferir o tratamento que ela dispensou ao clássico.

 

Talvez algum engenheiro ou um físico, revolucionários, decidam apostar no estudo da transformação humana. Quer dizer, em lugar de calcular vetores e forças de atuação sobre a matéria inerte, quem sabe eles voltem suas mentes para a transformação humana e formulem a equação da vida social.

 

ela, considerando a prática do teatro e o seu leito de sementes, eles indicariam em números e fórmulas a potência de transformação das pessoas quando expostas a uma cena teatral essencial, de pura arte. Talvez precisemos desta revolução copernicana – ou leonardiana – para provarmos a força da arte.
E assim, quem sabe, ainda que vivamos nos trópicos assombrados pela morte social, tenhamos, enfim, governos menos canhestros, capazes de sair do lado obtuso da política, para contemplar a grandeza luminosa da arte. Certamente o nosso cientista discursará e nomeará o ponto central de sua descoberta: não há vida, humana vida, fora da humana arte.

 

 

SERVIÇO
IX Concurso Jovens Dramaturgos
Inscrições até o dia 25 de julho, 5ª feira
Podem participar jovens de 15 a 29 anos de todo o país.
Para informações e inscrições os interessados devem acessar o regulamento disponível em: espacocultural.escolasesc.com.br

 
Peça: ‘O Oráculo’
Local: Teatro Vannucci – Shopping da Gávea
Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 52, 3° Piso – Shopping da Gávea, Gávea
Telefone para informações: (21) 2274-7246
Temporada: 07 de agosto a 28 de agosto
Dia: Quarta-feira
Horário: 21h
Valor dos ingressos: R$80,00 (inteira) e R$40,00 (meia)
Forma de pagamento: na bilheteria do teatro (em dinheiro) e outras formas de pagamento no site: www.tudus.com.br
Duração do espetáculo: 60 minutos
Classificação etária: Livre
Lotação: 400 lugares
O teatro tem acesso para deficientes / acessibilidade