Muita gente não sabe. Ou menos, bem menos: apenas finge não saber. Mas, apesar de tanta indiferença, viver é um estado de delicadeza. Um fio tênue, quase esfumaçado, abstrato até, pode servir como imagem para explicar o que somos. Um gesto ríspido, a vida estala, se esvai. O espetáculo Estamira Beira do Mundo foi construído para demonstrar esta condição. A proposta, singela, alcança pleno sucesso, é emocionante, tão delicada quanto a vida: celebra com lucidez e um rendilhado sublime de emoções a grandeza da existência.

As fontes de inspiração, base para a construção de toda a cena, garantem impacto e emoção. Há o filme de Marcos Prado, referência primeira. E há a vida da atriz, Dani Barros. A opção, portanto, é por uma forma de performance ousada, em que a ficção, o foco no arbitrário da sociedade e a autobiografia interagem em profundidade. Estamira foi uma mulher real, massacrada pelas condições de vida subumanas vigentes no Brasil. Nasceu no interior, em uma realidade agrícola de ruína; liquidada pelo horizonte familiar de miséria e prostituição, violada e usurpada em seus direitos humanos mínimos, ela migrou para a cidade grande e acabou sobrevivendo graças à exploração do lixo depositado em Jardim Gramacho. Louca social, o seu discurso era uma demonstração pulsante da fragilidade do ser humano, registrada com maestria no filme. Dilacerante, o delírio da mulher-lixo revela uma lógica constrangedora: a defesa da integridade de uma pessoa que – digamos – a vida atropelou. Na montagem, contudo, surgiu a busca de uma outra dimensão, a necessidade de revelar que Estamira não nos é estranha, muito ao contrário, ela é um pouco aquilo o que somos, todos nós. Não passamos de seres-lixo, descartáveis, vidas de aluguel. Ou mais, muito mais: nós ajudamos a construir seres-lixo com a nossa indiferença.

De saída, a condição de loucura e miséria funciona como moldura geral da proposta, o chão por explorar. Transparece no figurino (Juliana Nicolay) e na cenografia (Aurora dos Campos, Beatriz Sayad e Dani Barros), caracterizações simbólicas inspiradas pelo universo dos catadores de lixo e dos espantosos depósitos sanitários produzidos por nosso cotidiano em uma velocidade assustadora. A luz e os efeitos sonoros reforçam alguns climas e mudanças do eixo da ação. No espaço exíguo da semi-arena, há um banco simples, uma mesa de apoio com alguns apetrechos de cena e um mar de sacolas de plástico colorido, descartáveis. Sob a direção sutil de Beatriz Sayad, Dani Barros se apresenta como pessoa, história de vida. Ela revela sua condição de filha de uma mulher vítima de um denso quadro de doença mental e conta como, depois do calvário de viver ao redor de uma louca, se tornou admiradora da força humana que percebeu em Estamira. E se apresenta também como atriz, uma intérprete de um tipo muito peculiar, capaz de se transmudar inteira em sentimentos, percepções, emoções. A coragem da atriz em cena é impressionante.

A dupla chave, o jogo realidade e teatro, é a matéria da cena. Através de uma sintonia sutil com a condição de alma de Estamira, Dani Barros envereda por uma metafísica da personagem, uma entrega intensa aos sentimentos e à percepção de mundo da mulher marginal corajosa, que não desistiu de viver. Os momentos de transcendência são interrompidos de quando em quando, para o relato emocionado do ponto de vista pessoal, de Dani Barros, e da história de vida da atriz. O efeito é notável, puro ato de teatro. A percepção imediata é brutal – o ser humano se projeta como um nada, um prosaico fabricante de lixo, fragilidade em carne e osso.

A lição de Estamira se impõe com uma clareza de cegar, adequada para imprimir com tintas fortes este saber, que não deveria nunca ser esquecido – o valor maior para todos deve ser o respeito absoluto à vida, o respeito à delicadeza que o ato de existir precisa ser, para honrar o verbo. É a lição do lixo, aprendizado fundamental do tempo em que vivemos.