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Pelo direito de viver com dignidade

 
Apeça deveria ter um impacto devastador aqui: no Brasil, a vida humana não vale nada. Nunca valeu. A sociedade inteira, de cima abaixo, professa graus os mais variados de fria indiferença frente ao direito digno de existir. Convivemos todos, sem revolta, com multidões de crianças, o futuro do país, largadas nas ruas, no lixo, sem acesso à educação e na ausência completa de oportunidade social, entregues à violência mais brutal e à degradação. Assistimos impávidos a fuzilamentos diários truculentos por todo o país.

 

Gangues vorazes estão tomando o poder por toda a parte, em especial em bairros populares, diante da atitude de total alheamento das elites e do poder. Estamos gerando um país profundamente corrompido, mas isto não parece nos incomodar, como se a convivência com uma sociedade criminosa fosse uma banalidade, um fato irrelevante.

 

Portanto, importa ir ao teatro e levar o soco na boca do estômago, tentar pensar o problema na sua crueza. A Visita da Velha Senhora, de Dürrenmatt (1921-1990), é um dos melhores espetáculos em cartaz na cidade, no Teatro Ginástico. Será uma das grandes obras do ano, se tornará um destaque histórico e merece todos os prêmios. Corra para ver, a temporada vai ser muito curta.

 

O tema profundo, ácido, caro ao escritor suíço, é a cegueira do cidadão ocidental. A cegueira que cimentou a implantação do nazismo, testemunhou o holocausto, permite o genocídio cotidiano institucionalizado pelo mundo. A sua visão não tem a perspectiva redentora de Brecht: a revolução social não vai trazer uma saída, a indagação virulenta precisa por em xeque o próprio sujeito, desnudar a sua cumplicidade e a sua culpa, para cada um, na sua intimidade.

 

A pergunta nossa, de agora, séria, é como nós, colonos do ocidente, conseguimos levar esta lição perversa a uma potência extrema. Como conseguimos calar, em nome de estranhos pactos de poder, para a perpetuação destes poderes, diante do erro, da degradação, do aviltamento da dignidade.

 

O cartaz tem tradição no palco brasileiro, o teatro moderno nacional acompanhou o sucesso mundial da peça. O original foi lançado em Zurique em 1956, a versão americana estreou na Broadway, sob a direção de Peter Brook, em 1958, e a encenação brasileira, sob a direção de Walmor Chagas, de 1962, foi a maior produção da história da companhia da atriz Cacilda Becker, em cena ao lado de Sérgio Cardoso (Schill) e de Eugênio Kusnet (Mordomo).

 

Em 2002, o texto foi encenado por Tônia Carrero, sob a direção de Moacyr Goes, com a participação de Carlos Alberto (Schill), Cláudio Corrêa e Castro (prefeito) e André Valli (professor). Os cenários foram assinados por Helio Eichbauer e os figurinos por Guilherme Guimarães e Biza Vianna.

 

Salvo raras exceções, as críticas destas montagens impressionam, pois consideram desprezíveis ou equivocadas as criações apresentadas – tanto o trabalho de Cacilda Becker como o de Tônia Carrero foram alvos de restrições veementes, um pouco na linha professoral da velha crítica moderna. Vários críticos consideraram que os artistas – diretores e atrizes titulares – não tinham densidade profissional ou maturidade artística para entender o texto, cuja chave de compreensão, no entanto, eles consideravam que detinham.

 

Semelhante julgamento não pode ser associado ao cartaz atual. Denise Fraga cumpriu uma trajetória ousada, de enfrentamento recente de textos monumentais, com a encenação de A Alma Boa de Setsuan e A Vida de Galileu, de Bertolt Brecht. N’A Visita da Velha Senhora, o seu desempenho é marcado por um colorido surpreendente de técnica e emoção, inteligência e humor.

 

Em resumo, trata-se de um grande feito, uma realização difícil, passível de ser alcançada por uma atriz de grandes recursos expressivos, requintada por uma vivência artística intensa de Brecht. A compreensão da trágica mas humorada máquina de poder representada pela velha senhora transparece cristalina.Entre certo tom de distanciamento, certa atmosfera de entrega, com gestual largo e generoso, expressão carregada, a atriz desenha uma senhora monstruosa, um ser que talvez nem seja exatamente humano, tais as cirurgias e implantes por que passou. Não há caricatura, nenhum apelo à facilitação. Denise Fraga responde com garra ao texto, concilia o grotesco da alma de Claire Zahanassian com a condição de grande dama que o dinheiro lhe permitiu conquistar no mundo. Graças a esta combinação sutil, a ironia, o riso amargo e a estupidez cega se materializam com força.

 

Menos experiente em teatro, Luiz Villaça, diretor de cinema e de televisão, alcançou um belo resultado na direção de cena, nas marcações limpas e ousadas, mas oscilou um tanto no desenho da curva de clima do espetáculo, que declina um pouco logo que a situação dramática é apresentada. Contudo, a hesitação é discreta, não chega a afetar a contundência profunda do texto.

 

A adaptação do texto, aliás, de Christine Rohrig, Denise Fraga e Maristela Chelala, seguiu uma concepção funcional, sem prejuízo para a estrutura da obra. A trama é uma engrenagem diabólica, uma espécie de maquinismo perverso de relojoaria ensandecida, porém de colorido tristemente real. Apresenta um lugar miserável, Güllen, em franca decadência, aldeia de nascimento da Senhora Zahanassian, lugar afetivo em que ela foi uma jovem pobre irreverente, apaixonada por Schill, atual dono do modesto armazém.

 

Para casar-se com a filha do dono do armazém, ele abandonou em remorso a jovem Claire grávida. Contou com a ajuda de amigos locais, que prestaram falso testemunho, denegrindo a sua pessoa. Desmoralizada, ela saiu da cidade, perdeu a criança, se tornou prostituta, contraiu matrimônios milionários e se tornou uma potência internacional. No seu retorno, pretende restaurar o poder da vila decadente graças a uma polpuda doação e generosos investimentos, desde que Schill seja assassinado.

 

Tuca Andrada impõe a força humana de Schill com extremo vigor. A principio, confiante e gabola, ele se atribui e aceita desempenhar um imaginário poder de manipulação junto à milionária suficiente para figurar como herói do burgo. Aos poucos, apesar da confiança explícita nos conterrâneos, cada vez mais hesitantes, ele vai se acinzentando, aniquilado sutilmente pelo poder do dinheiro, que exige a sua morte.

 

Seguindo uma ótica atual, despojada, apoiada pela direção de arte de Ronaldo Fraga, responsável pela cenografia e pelos figurinos, o espetáculo valoriza o desempenho dos atores, cercados por sugestões e insinuações simbólicas dos espaços urbanos e do tempo. Barraquinhas discretas, inspiradas nas feiras e brechós – quase um camelódromo – denunciam a humildade do vilarejo e são movidas pelos atores para compor os diferentes lugares de ação. A luz de Nadja Naira pontua o andamento da representação com rigor, desenha os diferentes momentos da cena, com atmosferas dramáticas e de abertura do espaço espetacular para a participação da plateia.

 

Os atores seguem, também, uma concepção dinâmica de interpretação, muito contemporânea, a um tempo coral e épica – sem prejuízo para desempenhos marcantes individuais. Na concepção de Luiz Villaça, o público integra a população da cidade. Assim, os espectadores são recebidos pelo elenco e convidados a uma discreta porém potente participação, uma reiteração de que, afinal, o autor está falando de todos nós, para cada um de nós.

 

Além dos protagonistas, são onze atores em cena – Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino – e alguns precisam dobrar papéis para cobrir a longa lista de personagens. Além da função dramática, eles executam com rigor a bela trilha sonora original, de Dimi Kireeff e Rafael Faustino.

 

Na liderança da comunidade, Fábio Herford, no prefeito, se destaca por sua maestria para traduzir o político de caráter sinuoso, até mesmo repulsivo. Romis Ferreira expõe com brilho extremo no professor a crueza da corrosão moral provocada pela chantagem da velha senhora e oferece um belo contraponto ao padre, construído por Eduardo Estrela como uma espécie de virtuoso cínico. Rafael Faustino se projeta como músico e como o desprezível personal-assassino.

 

Raras são as oportunidades, hoje, no teatro brasileiro, de contar com a encenação de textos tão significativos para a cultura e para o pensamento ocidentais, impactantes para o momento histórico enfrentado pelo país. Ressalte-se que a produção é generosa, grandiosa mesmo. Talvez nenhuma outra instituição nacional esteja no momento, em grau comparável, investindo tanto para sacudir as sensibilidades e pôr em questão os valores e a ética de cada um.

 

A importância decisiva do texto para a reinvenção do ser humano ocidental é de tal ordem que ele deveria ser apresentado rotineiramente em circuitos estudantis. Quem sabe o velho suíço lúcido possa contribuir para que, na sociedade brasileira, se consolide um pensamento contra a banalização da vida. Já passou da hora para que as vidas humanas, aqui, deixem de ser descartáveis. Urge unir esforços para que a fuzilaria pare de nos fazer sentir horrendas figuras sociais, monstros de carne, maquinismo e sangue nas mãos.

 

Ficha Técnica
 

Autor:Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução:Christine Röhrig
Adaptação:Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral:Luiz Villaça
Direção de Produção:José Maria
Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino
Direção Musical:Dimi Kireeff
Direção Visual:Ronaldo Fraga
Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Preparação corporal e coreografias: Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Preparação Vocal: Andrea Drigo
Visagismo: Simone Batata
Fotografia:Cacá Bernardes
Assessoria Imprensa Rio:Barata Comunicações | Eduardo Barata
Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Produção Original: SESI-SP | FIESP
Patrocínio Exclusivo:Bradesco
Realização: Sesc Rio de Janeiro, NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal

Serviço:
Teatro Sesc Ginástico
Av. Graça Aranha, 187, Centro
De 01o a 25 de março de 2018
De quinta a sábado às 19h, e domingo às 18h
Sessões extras dias 23 e 24 de março às 15h
Estreia dia 01o de Março às 20h.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada) | R$ 7,50 (associados Sesc)
Horário de funcionamento da bilheteria:
de terça a domingo das 13h às 20h
Informações: (21) 2279-4027
Recomendação: 14 anos | Duração: 120 minutos | Gênero: Comédia Trágica