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Inacreditáveis meneios do ser

Largue o carnaval, corra para ver – a temporada acaba neste domingo. Não há previsão para voltar. Billdog 2, cartaz no Teatro III do CCBB, é um espetáculo teatral imperdível. Moderno, ousado, divertido, corrosivo e belo, impactante, o que mais você pode desejar de uma peça de teatro? Não perca, de jeito nenhum, vá ver.

Apesar da proposta ser de continuidade e, portanto, este ser o episódio número 2, nada prejudica o entendimento do trabalho. Há autonomia de formulação, com princípio, meio e fim, e clara lógica interna na ação corrosiva. Aliás, este é o grande trunfo da peça, o banho ácido de riso que transborda do jogo cênico. E não poderia ser diferente, pois o texto e a concepção originais são ingleses, puro humor inglês, de Joe Bone.

No palco, com aquela roupa entre o negro e o grafite própria dos heróis atiradores do nosso tempo – e de tantas fitas e tantos desenhos e quadrinhos em preto-e-branco – o ator Gustavo Rodrigues dispara com precisão absoluta a sua máquina/corpo de teatralizar. Ele, acompanhado pelo excelente violão de Tauã de Lorena, é a peça. E que peça…

Sim, sozinho, Gustavo Rodrigues apresenta os inúmeros personagens da trama. Tudo acontece num fluxo rápido, como o da vida ao nosso redor nesta sociedade ansiosa. Quase que num fôlego só, ele apresenta construções preciosas, demonstrações irresistíveis das suas extensas habilidades. Trata-se de um ator notável.

Estão lá os chefões, o fiel secretário do chefão, o vizinho chato efeminado, a secretária que se supõe gostosa, o bandido amigo, a criança birrenta, o psiquiatra de botequim, a cliente suicida, o varredor de rua, o monstro tóxico… Enfim, uma infinidade de máscaras cotidianas ilustrativas da vida aqui e agora, coloridas com os matizes da sociedade de consumo.

Com o corpo, Gustavo Rodrigues narra ações e situações, fixa temperamentos e tiques. Na voz, ele desenha falas surpreendentes, envereda por protagonismos, insinua aqui e ali os tons dos dubladores. Perfeccionista, ele segue uma partitura gestual exata, mas de extrema riqueza. Ao se expor com total generosidade, ele consegue a adesão plena da plateia, que mergulha no jogo proposto com deslavada paixão.

Para adensar cada vez mais este vínculo, a progressão da trama tece uma espiral de trituração da personalidade do bandido, na qual ele chega até mesmo a enveredar por um delírio, num pesadelo: ele se torna outro, transforma-se  num astro que canta e dança. Clímax da noite, o show de rock, com a participação do baterista Guiga Fonseca, recebe aplausos em cena aberta.

O espetáculo, mais uma vez expondo a rotina de Billdog, um matador impiedoso, brinca com o perfil do sanguinário levando-o a fraquejar. Obrigado a consultar um psiquiatra, para defrontar o seu monstro interior, ele envereda pelo estranho pesadelo. De repente, o bandido matador poderia ser um astro popular. Mas acaba às voltas com um monstro-humano, graças à aparição de um ser nascido de um mergulho em lixo tóxico.

A direção, assinada pelo ator e pelo autor, contou com a supervisão geral de Guilherme Leme Garcia. A opção pelo triunvirato denuncia a preocupação artística de alto grau investida na montagem. O resultado natural é uma cena límpida, muito bem estruturada, desenvolvida com elevado senso estético dentro de um quadrado cênico, com geometria precisa e proporções exatas, na medida para encantar o olhar.

Sob uma luz, de Aurélio de Simoni, de extrema acuidade, capaz de esculpir o espaço e sublinhar a trajetória agitada do bandido, a montagem apaixona irremediavelmente. Sob a aparência de brincadeira inconsequente, há um truque teatral de notável inteligência.  O segredo? É simples.

O foco da proposta incide, num cálculo direto, sobre o drama dilacerante do indivíduo moderno, ansioso por ser alguém, mas decididamente um nada. Nasce da peça um riso discreto diante das múltiplas referências ao turbilhão da indústria cultural do fim do século XX, fábrica de moldar pessoas, afinal pessoas inúteis, descartáveis. Um riso ácido. Pois lá, no malabarismo de ser tantas coisas no dia a dia, estamos nós.

De repente, ao apresentar com notas irônicas, discretamente caricatas, o percurso acidentado de um bandido de aluguel em meio à sua corte de reles anônimos, Gustavo Rodrigues cutuca a nossa ferida, a ferida do cidadão contemporâneo.  Joga luz sobre a pulsão desenfreada de hoje, de existir na multiplicidade e lutar para ter voz, ser alguém, mas ser, ao fim e ao cabo, um nada, apenas uma engrenagem ínfima na máquina da história. Afinal, protagonistas ocos no vazio destes tempos. Billdog nos convida a pensar sobre isto, com humor e elegância, mensurar o valor social e estético da vida.

Vai acabar, uma pena. Mas há uma boa notícia: felizmente, em breve teremos Billdog 3.

FICHA TÉCNICA

Texto e concepção: Joe Bone

Direção: Gustavo Rodrigues e Joe Bone

Supervisão artística:  Guilherme Leme Garcia

Elenco: Gustavo Rodrigues (Ator) e Tauã de Lorena (Músico)

Composição de trilha sonora:  Ben Roe

Direção musical: Tauã de Lorena

Iluminação: Aurélio de Simone

Figurino: Reinaldo Patrício

Preparação corporal:   Brisa Caleri

Programação visual:  Marcus Clausen

Fotos:  Guarim de Lorena

Operador de luz:  Rodrigo Lopes

Convidado especial:  Guiga Fonseca

Produção executiva:  Luan Victor

Direção de produção:  Monique Franco

Idealização e realização: Gustavo Rodrigues/Franco Produções Artísticas

Fotos: Guarin de Lorena

SERVICO

“Billdog 2 – O monstro dentro dele”

Temporada: 3 de janeiro a 1º de março de 2020.

Dias e horários: De quarta a domingo, às 19h30.
Local:
CCBB Rio (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro) – Teatro III

Informações: (21) 3808-2020.

Lotação: 86 lugares.

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Venda de ingressos: De quarta a segunda, das 9h às 21h, na bilheteria do CCBB e pelo site: www.eventim.com.br

Classificação: 18 anos. Duração: 65 min.

SAC 0800 729 0722 – Ouvidoria BB 0800 729 5678
Deficientes Auditivos ou de Fala 0800 729 0088

Assessoria de imprensa do espetáculo

Paula Catunda e Catharina Rocha