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Fiapos de nada

 
Um oco cintilante nos mantém em suspenso: inventamos a civilização do vazio. Um espaço etéreo, alienado da chance de ser, intensamente branco, preenche o nosso olhar e nos une – eles, os atores, e nós, a plateia. A relação palco e plateia, contudo, não é rompida, estamos distantes, dentro de um teatro, para ver teatro, ainda que a ação comece como se estivéssemos dentro dela. A ação pretende lançar no espaço, em suspenso, as nossas almas, para nos levar a perguntar sobre a densidade do existir e do ser.

 

A função da noite é mais do que nobre – em cena, está esta joia de dramaturgia sublime, Nerium Park, de Josep Maria Miró, na concepção de um diretor poeta dotado de uma assinatura incandescente, Rodrigo Portella. A temporada acaba amanhã, no Teatro Glaucio Gill, corra para ver, não perca por nada deste mundo. É teatro em tom maior, com uma encenação brilhante de um daqueles textos em que há o propósito intenso de indagar sobre as razões do nosso tempo.

 

Miró é um autor ácido, exímio dramaturgo, dotado de uma maestria absoluta no trato da poética da cena. É um dos maiores autores teatrais contemporâneos. O seu tema é, em resumo, a humanitas. A sua pergunta é sobre o sentido maior da humanidade, os fluxos estruturais da vida. O texto em cartaz foi construído com os olhos fixos na dinâmica da superfície da vida ao nosso redor, com uma precisão de enlouquecer, como se fosse um estudo realista.

 

Mas não é nada disto. Há nas suas peças, dolorosamente, um realismo de superfície, enganador, pois o foco está nos motores profundos da existência. A indagação estava em O Princípio de Arquimedes, encenada aqui por Daniel Dias da Silva, em 2017, um texto arrebatador por questionar a construção da verdade, do preconceito e da intolerância na nossa sociedade classe média. O eixo central era um estudo a respeito da forma do senso comum, a possibilidade de uma conjetura, uma versão a respeito de um fato, ser reconhecida como verdade e desencadear reações brutais de julgamento e linchamento moral.

 

Naquele caso, a pergunta rondava o fato de sermos eternos prisioneiros amantes da caverna – sim, aquela caverna velha de sombras, de Platão, em que não se deseja nunca chegar à verdade. Por ironia, para contrariar o velho pensador, a demonstração acontecia através de uma obra de arte. Agora, está aqui, através do belo, o sublime kantiano, uma forma desconcertante de olhar a natureza humana para vê-la em suspenso, dimensionar como ela funciona dissociada dos atributos da moral e da ética, divorciada, afinal, de sua própria razão de ser – divorciada da humanidade pura e simples. É impactante.

 

A oportunidade é para vislumbrar um outro lado da questão, muito mais profundo e aterrador. O núcleo é o sonho de realização do homem comum, o desejo-margarina de viver em paz nos condomínios aprazíveis, envolto numa bolha de consumo, entregue ao conforto, impregnado pela alienação total diante de qualquer sentido ético e moral da vida. O alvo se torna o ato de viver distante, sem culpa, entregue apenas aos desejos mais epidérmicos. O lugar visitado pelo texto, espaço cristalino como se fosse um cubo de gelo, é a mecanização consumista da vida, em ruptura com a plenitude do humano. Ou seja – a forma como nós todos vivemos, classe média que somos, queiramos ou não.

 

Na direção, Rodrigo Portella leu com lucidez estonteante o fluxo subterrâneo de palavras e ações que cimenta o texto. Em sintonia aguda com a cenografia, assinada por ele mesmo e por Julia Deccache, e com a iluminação diabólica criada por Paulo Cesar Medeiros, concebeu uma espaçosa caixa acrílica entre o leitoso e o transparente, vazia, aos poucos ocupada por plantas de plástico, terra e água, como se houvesse diante do público a construção de uma natureza elementar, mas morta, hostil, a única natureza possível em tais condições.

 

O ritmo da cena é uma das notas arrebatadoras da montagem, sublinhado pela excelente direção musical de Marcello H., em diálogo intenso com a luz. É impressionante, aliás, como os estados d’alma cada vez mais tensos e dilacerantes aparecem nos corpos, esculpidos pela preparadora Lu Brites, e eclodem registrados na luz, para a inquietação do público, obrigado a ver os seus mais íntimos sonhos dourados de paz doméstica dilacerados.

 

A trama tem aparência singela – um casal jovem, Miguel e Malu, de vida resolvida e ar feliz, consegue comprar um apartamento de sonho, num condomínio bem equipado e tranquilo à beira da cidade, Nerium Park. São os primeiros moradores do conjunto e, com a crise, o desemprego, eles não recebem vizinhos. Por ironia, ela trabalha como RH de uma grande empresa, tratando exatamente de executar demissões, e eles são surpreendidos pelo desemprego dele, num convite para a inversão dos papéis sociais convencionais.

 

A ação se desenrola numa espiral progressiva de doze meses, tempo ao longo do qual a falsa estrutura de paz vai sendo implodida, corroída até o desfecho impactante. O ponto de partida é o cantinho de amor longe do mundo. A seguir, começa o desencontro da convenção, com a mulher na rua, no trabalho, e o marido em casa. Depois, surge um estranho morador fantasma no condomínio, um ser ausente da cena, mas acelerador dos conflitos.

 

Importa ressaltar a felicidade da encenação ao optar por uma radical construção minimalista, uma espécie de construtivismo psicológico, simbólico, procedimento poético que engloba até os figurinos, de Ticiana Passos. Na escolha do diretor, contudo, não há drama, não há psicologismo, mas demonstração – a secura de dar a ver, para depois sentir e, afinal, pensar.

 

Também os atores seguem esta linha da direção com extremo sucesso. De saída, Pri Helena, ao sustentar um fiapo de principio de realidade que vai se esgarçando, alcança resultados mais densos. As certezas e o equilíbrio de sua Malu são excelentes pontos de estruturação da cena.

 

Rafael Baronesi, com porte e aparência de galã, sempre uma bela figura em cena, mas voz um pouco apagada, sustenta o processo de perda de si com mais contenção, talvez um pouco mais do que se poderia esperar. Mas, de toda forma, o resultado final, a partir da ideia da cena vazia, gélida, que se deixa perder por excesso de vazio, é de uma beleza rara. Ao fim, a cena é atulhada por uma natureza desnecessária, não é preenchida de verdade, o vazio se torna a sua própria dilaceração e os atores assumem corajosamente a proposta.

 

Se observarmos que o Nerium do título é referência a uma planta venenosa – Nerium Oleander, cujo nome popular no Brasil é espirradeira ou oleandro, logo se percebe o desejo vertiginoso do autor. O arbusto nomeia o condomínio e decora os caminhos de acesso ao redor, roça e fere a pele do casal, a lataria do carro. A planta, curiosamente, se espalhou pelo mundo, pelos jardins públicos e das casas da classe média que alicerça a sociedade ocidental hoje, a partir da década de 1950. O paradoxo é revelador, ela é bela e letal.

 

Portanto, Miró se propôs a desnudar no palco a teia da perdição humana no nosso tempo. Uma teia gerada por um lugar social que se tornou o sonho da humanidade, ou foi proposto a todos como tal, no qual as pessoas se transformaram em mercadoria, sem ética e moral, entregues ao capital – se esvaziaram de si. Um lugar que simula o sonho, mas é tóxico, pois liquida justamente o que deveria ser a razão da vida. Um lugar distante da necessidade de ser: como se fosse o oco absoluto de uma câmara de gás existencial.

 

Ficha Técnica
 
Texto: Josep Maria Miró
Direção: Rodrigo Portella
Elenco: Rafael Baronesi e Pri Helena
Tradução: Daniel Dias da Silva
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha Sonora: Marcelo H.
Cenário: Julia Deccache e Rodrigo Portella
Figurino: Ticiana Passos
Programação visual: Raquel Alvarenga
Divulgação em mídias sociais:Egídio La Pasta
Preparação corporal: Lu Brites
Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha
Assistência de Produção: Ana Luiza Pradel
Assistência de Direção: Mariah Valeiras
Direção de Produção: Rogério Garcia
Idealização e Produção: Rafael Baronesi
Realização: Dingão Produções e Usina D’Arte produções artísticas

Serviço:
Espetáculo: “Nerium Park”
Temporada: De 18 de agosto a 10 de setembro.
Dias e horários: De sexta a segunda, às 20h.
Local: Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arco-Verde, s/n – Copacabana)
Informações: (21) 2332-7904.
Capacidade: 100 lugares.
Recomendação etária: 16 anos.
Gênero: suspense/drama
Duração: 100 minutos.
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).