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Peripécias gregas tropicais

 
Justiça: suprema ambição brasileira. Talvez este seja o nosso desejo nacional mais profundo, nascido na colônia, irrealizado até hoje. Ela estrutura o cidadão, liberta-o. E a prova está no debate acirrado do tema, em Electra, de Sófocles (496 a.C.-406 a.C.), em cartaz no Teatro de Arena do Espaço SESC. 

 

Por isto, esta é uma das montagens obrigatórias do ano teatral. A espinha dorsal do grande texto, produto de excelência da democracia ateniense no seu esplendor, está disponível numa versão singela, despojada e moderna, apta para alimentar nossa voracidade atual pelo tema. Já se pode deduzir, a partir dos adjetivos, que uma extensa polêmica está em cena – você, que se assume como ser político e bicho de teatro, não pode perder.

 

Antes da polêmica, aliás uma bela chance para uma discussão teatral calorosa, importa destacar, no entanto, uma outra razão decisiva para justificar a ida ao teatro. Lado a lado em cena, como rivais absolutas, duas atrizes muito especiais da cena brasileira, mãe e filha, Rafaela Amado e Camila Amado, Electra e Clitmnestra, apresentam trabalhos de refinada categoria. Um momento teatral único. E raro.

 

A trama mostra o desespero de Electra, filha de Agamêmnon, inconformada com o assassinato do pai por sua mãe, Clitmnestra. Rebaixada à condição de escrava pela própria mãe e por seu novo marido, Egisto, ela anseia pelo retorno de seu irmão, Orestes, cuja vida salvou do assassinato pelo casal. Sem conquistar o apoio da irmã Crisótemis, ela planeja se associar a Orestes na vingança contra os assassinos.

 

Camila Amado traduz o exercício do poder com frieza, cálculo sombrio, uma força interior grandiosa. A sua Clitmnestra, resoluta, consegue, com impressionante distância, justificar o assassinato do marido. Para tanto, recorre, decidida, a razões de afeto materno, camufla sob a altivez qualquer hipótese de adultério e de desejo de usurpação. Ao mesmo tempo, em franca contradição, destila ódio pela filha rebelde.

 

Senhora da cena, Rafaela Amado materializa uma Electra intensa, arrebatadora, pleno clamor por justiça. Revela uma jovem heroína transbordante de emoção pura, revolta sentimental profunda, repúdio decidido contra a mãe assassina e a morte do pai. Reduzida à servidão no palácio em que seria princesa, suporta a humilhação e o aviltamento com galhardia, meios para ativar o furor por vingança, tornar necessária e obrigatória a mortandade palaciana. A cena em que mãe e filha se enfrentam, cada uma abraçada às suas certezas, é uma construção teatral de extrema beleza. A cena em que Electra constata que o irmão vive e que a vingança é certa, contra a mãe e o seu amante, atesta a grandeza expressiva de Rafaela Amado.

 

Mas trata-se, contudo, de uma versão compacta do texto: vários elementos estruturais da tragédia grega, concebidos para ampliar as dimensões do confronto entre mãe e filha assassinas, foram eliminados. No original grego, a preciosa estrutura concebida por Sófocles gera um impasse de grande dimensão, ainda que o foco principal seja sempre Electra. A genialidade do autor faz com que os fatos extrapolem o quadro, digamos, pessoal da trama, sintonizem a ordem urbana, apontem para a definição do poder justo, para produzir o mais lancinante efeito trágico, a partir da mortandade familiar.

 

O efeito trágico se projeta em especial graças à atuação do coro, por sinal um coro de mulheres, e por um desenho cênico de extrema contundência, em que as razões de cada lado são mais desenvolvidas do que o que está proposto nesta versão. Assim, o texto grego original impõe a necessidade de discutir a proposição da justiça como fato da polis, elemento do Estado, alicerce da nascente democracia cidadã, combate eficiente à tirania, fortuna humana absoluta, não apenas uma necessidade particular, de uma personalidade esmagada.

 

É verdade que não estamos na Grécia. O teatro grego está perdido, é irrecuperável na sua identidade. Primeiro porque já se provou que muito de sua carpintaria era fruto da materialidade do palco grego, uma estrutura espacial objetiva, determinante de várias movimentações cênicas e soluções dramatúrgicas. Segundo, por um rol impressionante de peculiaridades do cenário cultural e histórico de Atenas. Lá, o teatro, ritual cívico, acontecia como uma forma específica da natureza humana, grega, ou melhor, clássica, imerso na natureza geográfica e religiosa, impregnado pela mitologia num sentido crédulo e cidadão que ignoramos, muito distante de nossa vida de materialidade vil. Uma lição importante do teatro grego a considerar reside na profunda relação entre a cena grega e seu tempo, seus homens, sua orientação cultural e cidadã.

 

Assim, a versão de Electra em cartaz no Rio, adaptação assinada pelo diretor João Fonseca e Fernanda Schnoor, padece de um mal impresso nas letras tributário de um famoso inspirador, Antonio Abujamra, responsável por uma adaptação do texto anterior. Goste-se ou não, para o bem e para o mal, Antônio Abujamra foi sempre um iconoclasta, um provocador, um assumido gênio do mal, interessado em atiçar a rebeldia, ele próprio um eterno rebelde.

 

Parece natural, portanto, que a sua concepção do texto tenha influenciado o diretor diretamente formado por ele, João Fonseca. A versão atual do texto é rebelde no sentido de busca de uma comunicação imediata, urgente, com a atualidade. Há uma sintonia direta com a atmosfera de inquietude da sociedade brasileira. E, afinal, o que mais falta ao indivíduo brasileiro é justiça.

 

Nesta visão, a peça surge colorida de individualismo e se inclina ao drama. A questão grega mais sofisticada, purista, transcendental, da passagem do poder gentílico, do sangue, religioso e tribal, tirânico, para a pólis, o universo democrático, virou referência remota. Por mais que estejamos aqui de gatinhas em busca da democracia, o sentido maior do trágico expresso no original parece algo muito longe da pressão de nossos massacres cotidianos, nosso aniquilamento rotineiro do indivíduo.

 

Assim, a Electra que nos é dada deriva de uma concepção de texto imediatista. Como tal, deve ser louvada, não num altar grego, mas numa escadaria de algum sórdido prédio público dedicado ao sacrifício rotineiro do brasileiro. Alicerçado no texto adaptado, o poder da montagem soa retumbante para o nosso tempo, fala mais à alma particular do que ao cidadão ou ao homem do mundo. A cena despojada, límpida, é uma moldura exemplar para o formato dado à peça, irradia um forte ímpeto para a plateia, como uma espécie de grito do Ipiranga. Para este impacto, contribui muito o cenário impressionante de Nello Marrese.

 

A cenografia e a direção se uniram para conceber um aglomerado de plataformas cruas, cercadas por um chão de terra, como se a ação se elevasse da natureza para uma humana construção, pequenos palanques. Sob a iluminação detalhista, desenhada com extremo rigor por Luiz Paulo Nenen, os diferentes patamares sugerem um diabólico xadrez de poder e de intenções, luz e sombra. O figurino de Marilia Carneiro e Reinaldo Elias insinua alguma Grécia. A direção de movimento de Ana Bevilaqua estrutura os corpos e os gestos como se desse vida a esculturas humanas exemplares.

 

Bem de acordo com uma concepção inclinada a ressaltar a ótica do indivíduo, Mario Borges, num desempenho límpido, corajoso, recebeu a incumbência mais do que ousada de funcionar como narrador, para esclarecer ou sintetizar certas passagens da trama. Mas não é só: ele exerce também o papel, bastante lacônico, do coro. No original, ele seria formado por mulheres idosas e seria bem mais extenso, ainda que Sófocles tivesse ele próprio reduzido o papel do coro. Em cena, teria diálogos decisivos com Electra. Aqui, apesar do mérito do excelente ator, o desenho de forças do original se perdeu – o que existe é apenas uma forma narrativa, apoio para o entendimento da trama pelo espectador contemporâneo. Do conceito passou-se ao relato de fatos.

 

Orestes, de Ricardo Tozzi, o braço vingador de Electra, se projeta em cena como bela estampa, mas um pouco hesitante demais. Alexandre Mofati traduz com altivez a dimensão simbólica de Egisto. A ficha técnica de atores, reduzida, incorporou ainda Paula Sandroni, como Crisótemis, eficiente apoio dramático para a revelação das certezas de Electra, e o experiente Francisco Cuoco, uma figura nobre em cena como o preceptor dedicado de Orestes. Engajado, o elenco exala sutileza e dedicação. A delicadeza reinante transparece na música original, assinada por João Bittencourt.

 

Apesar da versão compacta, vale destacar que se trata de um projeto estruturado, dotado de uma visão objetiva de teatro, sustentado por uma equipe qualificada. Para os puristas e cultores da forma trágica, a encenação poderá ser acusada de heresia ou de iconoclastia. O argumento não é negligenciável. A rigor, o valor do tesouro teatral legado por Atenas para o mundo é simplesmente incalculável.

 

A riqueza é de tal ordem que gerou uma torrente de letras, muito já se escreveu a respeito. Grandes estudiosos, filósofos, poetas e professores dedicados não param de tecer comentários, elaborar análises e ensinar a todos nós algo relevante a respeito da nossa imensa fortuna. Mas a melhor parte nos é oferecida pela classe teatral: as montagens dos textos gregos, viagens humanas únicas, renovadoras, em que a força viva do pensamento nos arrebata para a contemplação de valores fundamentais da espécie.

 

Electra é uma das joias mais preciosas do tesouro. Contar com o prazer de vê-la no palco é uma benção dos deuses do teatro. Portanto, temos aqui uma pequena pérola tropical, já que estão esmaecidas as questões mais lancinantes, em favor de uma sensação imediata. É sempre um consolo, neste momento brasileiro tão aflitivo, em que o cidadão sonha com a possibilidade afinal de justiça, de ruptura de velhas tiranias cristalizadas, devotadas a tentar eternizar poderes monolíticos sombrios, empenhados em reduzir cada um a uma condição moral escrava. Para resumir, e fazer justiça teatral, corra, vá ver.


Ficha Técnica
 
Texto:Sófocles
Supervisão do Texto: Fernanda Schnoor
Direção: João Fonseca
Elenco/ Personagem:
Rafaela Amado / Electra
Camilla Amado / Clitemnestra, mãe de Electra
Ricardo Tozzi / Orestes, irmão de Electra
Mario Borges / Coro
Paula Sandroni / Crisótemis, Irmã de Electra
Alexandre Mofati / Egisto, amante de Clitemnestra
Francisco Cuoco (ator convidado) / preceptor
Iluminação: Luiz Paulo Nenen
Cenário:Nello Marrese
Figurino: Marília Carneiro e Reinaldo Elias
Trilha sonora original: João Bittencourt
Direção de Movimento: Ana Bevilaqua
Direção de Produção: Carla Mullulo
Realização: SESC Rio
Idealização: Camilla Amado
Serviço
ESTREIA: dia 1º de outubro
LOCAL: TEATRO DE ARENA DO ESPAÇO SESC
– Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana / RJ Tel: 21 2547-0156
HORÁRIOS: 5ª a sábado às 20h30, domingo às 19h / INGRESSOS: R$20,00, R$10,00 (meia entrada) e R$5,00 (associados SESC) / funcionamento da bilheteria: 3ª a domingo, 15h às 21h / DURAÇÃO: 80 min / CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos / GÊNERO: tragédia / TEMPORADA: até 25 de outubro