hamlet High-res version

A cavaleiro do tempo

 
Otempo é senhor dos homens, máquina de engolir gente. O teatro, a arte viva dos homens, é a nossa arma – ele revida, luta para ser o senhor do tempo. Mas o artifício acaba por ser luta perdida, apenas uma lição aprendida, mergulho na humanidade.

 

A afirmação, ácida, é a matriz do melhor teatro. Pois então, comemore: ela rege, cristalina, a cena deste Hamlet sublime, cartaz no Teatro I do CCBB. Anote: é comovente, imperdível, arrebatador. Um dos melhores trabalhos do ano, se não for o melhor.

 

Em cena, Shakespeare e a Armazém Companhia de Teatro proclamam em uníssono a incerteza fundamental de que somos feitos: escravos do jogo do tempo, vontade de poder e de mando irrealizável, inação pura ditada por amarras mesquinhas. Trata-se de uma montagem histórica para o teatro nacional.

 

A avaliação não é exercício de retórica ou malabarismo de palavras vazias. Várias razões fazem a grandeza histórica desta montagem. Sim, a base é um texto monumental, clássico absoluto. Mas importa destacar a visão proposta para o texto, a um só tempo ousada e pertinente. Há em cena uma abordagem sutil da poética do dramaturgo inglês, obra requintada da tradução e do garimpo de dramaturgia, realizados por Maurício Arruda de Mendonça.

 

Não é só. Dramaturgia, aqui, significa contracenar com a direção, passar pelo olho do diretor, apostar na profundidade do conceito. Num diálogo intenso com a concepção de cena de Paulo de Moraes, a linha dramatúrgica, colaborativa, permitiu a construção de uma tragédia do nosso tempo, atual, contemporânea, a revelação de que Shakespeare, mais do que qualquer outro poeta, traçou os pilares da contemporaneidade, situou os limites políticos que envolvem o cidadão moderno.

 

A partir do texto, o espetáculo conversa com os impasses da nossa época. A direção é surpreendente, sensacional, instaura quebras e fissuras na percepção da cena, para que a História apareça como a senhora do hoje, aqui e agora. Tal se dá graças a procedimentos simples que pontuam a montagem.

 

Ao longo da peça, em vários momentos a abertura palco-plateia é instaurada, num jogo radical, elisabetano, em particular através da luz aberta, com a indicação sutil de que fazemos todos parte deste mundo de representação e de rupturas de limites, graças à quebra da teatralidade. Somos da corte.

 

De saída, o diretor joga a plateia no interior da trama em ebulição. A festa de celebração do casamento de Gertrudes (Isabel Pacheco), a mãe do príncipe, com Claudius (Ricardo Martins), seu tio, colorida de pecado e desvario, tradução perfeita do turbilhão ético e sentimental que sufoca o jovem Hamlet (Patrícia Selonk), reverbera por toda a sala, transborda do palco, instaura o desmedido.

 

A festa da realeza se mistura à visão do fantasma, numa certa subversão da sequência original. Aliás, a reordenação de sequências do original é opção forte para a concepção do tempo no texto. Assim, por exemplo, o poder corrosivo, inebriado pela usurpação, e a inação patética surgem contíguos, perturbadores, instauram uma urgente atualidade.

 

Ainda na festa, uma outra escolha surpreendente, desconcertante, aflora, com a performance transgressora e humorada do travesti barbado de Luiz Felipe Leprevost. Além de se projetar como um ícone impactante do inusitado do acontecimento, pois há uma festa sob o luto da morte do rei, a figura extrovertida traz à lembrança os atores de Shakespeare que, afinal, eram homens.

 

Este tipo de contraposição percorre toda a encenação, com um resultado poético forte. O tempo, assim, se faz objeto, se torna presença concreta, mas dialética, contraditória, pois é sempre confronto de opostos, presente e passado, luto e festa, melancolia e histeria, logo história contada por homens.

 

A escolha dá o tom da montagem, sugere um incrível teatro da contradição, permanente contraposição temporal e poética, no qual palco e plateia se aproximam e se distanciam em momentos sucessivos, vertiginosamente. Há uma tessitura densa, construída graças à justaposição de várias camadas de representação, recortes do passado e citações do presente, mudanças de foco.

 

Estão lá mesuras cortesãs e grafites, lutas de espada e jogo de golfe, armadura e guitarra, pichação e livros preciosos. Não se trata de acaso ou junção informe, gratuita, há uma obra de arte cênica rigorosa, estruturada no preciosismo da expressão de uma concepção poética.

 

Ela está nas várias instâncias de criação: norteia o excelente jogo de luz (Maneco Quinderé) que ilumina a plateia ou desenha a cena, faz cenas e faz segredos; comanda a notável arquitetura da cenografia (Carla Berri e Paulo de Moraes) com espaços fluidos e visão multifacetada, central ou fragmentada, velada, contundentes efeitos de sombra em cumplicidade com a luz; impregna o figurino (João Marcelino e Carol Lobato) desenhado em vertigem, união de fiapos históricos à tradução de perfis dramáticos, com discretas insinuações atuais.

 

Trabalho de grupo, de companhia, este Hamlet atesta a excelência adulta de um dos melhores coletivos teatrais do país. Assim, há uma criação cênica total, orgânica. A direção de cena comanda a direção de ator, o gesto dos atores amplifica a voltagem criativa, expõe o profundo compromisso com a arte, ato deliberado de fé no teatro.

 

Patrícia Selonk assina um Hamlet histórico, um desempenho monumental, construção de carne, afeto, razão desmedida, impossibilidade, flerte com o desejo humano desvairado de absoluto. A condição feminina faz parte da busca da contradição. Ela imprime ao personagem mais uma nota de oscilação e de incerteza sensível, fortalece a identificação do protagonista com a imagem patética do cidadão impotente do nosso tempo, a partir de uma intensa vibração afetiva subterrânea.

 

O colorido se torna ainda mais intenso graças aos excelentes antagonistas. O contraponto surge forte na certeza do mal e na busca cega do poder, linhas vibrantes de Gertrudes e Claudius, exploradas com malícia serena por Isabel Pacheco e Ricardo Martins.

 

E ecoa na vibrante entrega sentimental – e sensual – de Ofélia, uma espiral em filigrana delicada e apaixonante assinada por Lisa Eiras, responsável por uma das mais belas cenas da noite. Num figurino de veludo negro adornado com a histórica gola rufo elisabetana, a atriz materializa um momento de expressão lírica digno da grandeza de Shakespeare. Emocionante – leve um lenço.

 

Correção e dedicação marcam os desempenhos de Marcos Martins (Polonius), Jopa Moraes (Laertes) e Luiz Felipe Leprevost (Horácio), parceiros sempre eficientes para o andamento das cenas. Adriano Garib, em participação especial, transforma o Espectro em interlocutor abissal, certeza sombria difusa, adequada para conduzir a rebelião cega diante do poder arbitrário.

 

A rigor, a montagem fornece material para um tratado de teatro, vários debates, belas reflexões. Há muito mais para ver, sentir, lembrar, pensar e levar para o fundo da alma neste espetáculo do que o que flutua em muito do nosso teatro ao redor. E o nome espetáculo precisa ser entendido aqui na sua acepção mais positiva. Trata-se de um espetáculo de teatro de verdade. Total.

 

As projeções trazem uma solução moderna de excelência para o tema do fantasma. A música de Ricco Viana é uma ode à mais generosa percepção do humano. As coreografias (Toni Rodrigues) e a corporeidade (Patrícia Selonk) contribuem para a contundência do desenho físico das cenas, traduzem uma geografia corporal precisa, reforçam ainda mais a sensação peculiar, agradável, irradiada pelo trabalho de uma companhia de teatro.

 

Enfim, é notável contar com uma produção de tanta maestria neste momento histórico árido, massacrante, em que sobrevivemos. A rigor, somos levados a pensar que a História, a mestra do tempo, está do nosso lado, para nos proteger. Ela nos dá o teatro. Ela nos traz este Hamlet.

 

E o palco, generoso, nos oferece uma poção, ao gosto da renascença, para tratarmos das nossas mazelas. Espectros teatrais de maltratada humanidade, o que nos resta é sorver, ávidos, este bálsamo, antídoto para venenos cotidianos, as formas podres do tempo de hoje interessadas em nos submeter, formas criadas pelo poder para o nosso aniquilamento. Cuide-se – corra para o teatro, uma brecha no tempo vai acenar para você, para a sua salvação, para que você, homem incerto de um tempo esquisito, prossiga em paz com o seu acervo de sonhos.

 

Ficha Técnica
 
Montagem da: Armazém Companhia de Teatro
Autor: William Shakespeare
Patrocínio: Petrobras e Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Direção: Paulo de Moraes
Versão Dramatúrgica: Maurício Arruda Mendonça
Elenco: Patrícia Selonk (Hamlet), Ricardo Martins (Claudius), Marcos Martins (Polonius), Lisa Eiras (Ofélia), Jopa Moraes (Laertes), Isabel Pacheco (Gertrudes) e Luiz Felipe Leprevost (Horácio) Participação em Vídeo: Adriano Garib (Espectro)
Cenografia: Carla Berri e Paulo de Moraes
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: João Marcelino e Carol Lobato
Música: Ricco Viana
Preparação Corporal: Patrícia Selonk
Coreografias: Toni Rodrigues
Preparador de esgrima: Rodrigo Fontes
Fotografias e vídeos: João Gabriel Monteiro
Programação Visual: João Gabriel Monteiro e Jopa Moraes
Técnico de Palco: Regivaldo Moraes
Assistente de Produção: William Souza
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Produção Executiva: Flávia Menezes
Produção:Armazém Companhia de Teatro

Serviço
HAMLET Da obra de William Shakespeare
Montagem da Armazém Companhia de Teatro
Local: Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro I
Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro
tel: 21 3808-2020
Estreia dia 16 de junho, sexta-feira, às 19h
Temporada: 16 de junho a 6 de agosto, quarta a domingo, às 19h. (Nos dias 24 e 31 de julho haverá sessões extras às 19h)
Venda na bilheteria de quarta a segunda, das 9h às 21h, ou pelo site www.ingressorapido.com.br
Meia-entrada: Estudantes, idosos, menores de 21 anos, pessoas com deficiência, professores e profissionais da rede pública municipal de ensino.
Capacidade de público: 172 lugares
Ingresso: R$ 20,00
Classificação: 16 anos
Duração: 130 minutos
Drama