Texto lido em 5/11/2013 na Missa da Igreja da Ressurreição

Boa noite a todos.

 

A vida é sonho, disse outrora um grande poeta. E a frase batida nos sacode sempre que a ouvimos, nos joga diante da constatação objetiva de que viver é fato transitório. Mas a coisa não é tão simples, afinal, pois o sonho, apesar de volátil, é uma forma de elevação. Por mais que desconfiemos de que sonhos, sonhos são, quer dizer, pouco mais do que nada, vibra no ar a sensação de que viver e sonhar são formas importantes de construir o mundo. Falamos de sonhos, falamos das nossas formas de perceber e sentir. E mais: precisamos reconhecer que algumas pessoas são engenheiros do sonho.

 

Sim, algumas vidas acontecem inefáveis, plenas de luz. Alguns seres passam ao nosso lado transformando o efêmero em lucidez, o acidente em acontecimento, o banal em relevância. São os gênios da raça, dizem alguns estudiosos. Sua obra é o bronze, o mármore, o ferro e o aço da civilização.

 

Mas… e quando a obra é tênue como o sonho, o que há para dizer? Como registrar na galeria monumental da História os feitos daquele que moldou apenas falas, gestos, movimentos, palavras, sensações, sentimentos, maneiras de ver, percepções?

 

Este é um grande desafio para a tribo do teatro, esculpimos a areia da vida. E a areia, o mar da existência carrega sem deixar marcas. Sem deixar marcas?.

 

Hoje nos defrontamos com um episódio desta saga delicada, a necessidade de enveredar por uma herança de sonhos – a necessidade de homenagear Flavio Rangel, homem de teatro absoluto, um ser de teatro total, vinte e cinco anos depois de sua morte.

 

As expressões homem de teatro absoluto, ser de teatro total não são um exercício de retórica ou meros elogios vazios. Quando lemos a biografia de Flavio Rangel, escrita por José Rubens Siqueira, este é um ponto de comoção para o leitor: o teatro descobriu e abençoou Flavio Rangel, na efervescente época de ouro do teatro moderno brasileiro, nos anos 1950. O teatro o escolheu, convidou-o para participar da oficina de desenho dos nossos sonhos.

 

O livro de Siqueira tem um titulo revelador: Viver de teatro. Nele o autor relata como, depois de se deslumbrar com a atuação de Sergio Cardoso e Sonia Oiticica, em sua primeira ida ao teatro, em 1953, para ver A Falecida, de Nelson Rodrigues, direção do jovem José Maria Monteiro, Flavio Rangel foi tomado pela arte da cena. Ele foi impregnado pelo modo de criação do palco.

 

Nesta experiência, foi acionado um modo de olhar o mundo diferenciado, a compreensão, na prática, de que a sensibilidade poderia ser moldada a partir de esculturas vivas, existências de ficção. Tornou-se logo um autêntico rato de teatro – a paixão levou-o ao estudo, à formação de sua turma, um bando de jovens inquietos, irreverentes, que acompanhavam a rotina teatral paulista e se reuniam para estudar e fumar na Biblioteca Municipal – Manoel Carlos, Fábio Sabag, Antunes Filho, Cyro del Nero, Bento de Almeida Prado Júnior, Roberto Schwarz.

 

Logo, movido pela paixão, o percurso foi vertiginoso, do amadorismo ao centro da vida profissional, passando pela TV e deixando para trás o curso de Direito, o trabalho como funcionário público. Uma obsessão surgiu nestes primeiros tempos e o acompanhou por toda a vida, constituindo um marco artístico diferencial – o culto ao virtuosismo técnico. Flavio Rangel não entendia o teatro, o espetáculo, sem solução técnica teatral – o cenário deveria ser exato, a luz deveria ser pura magia, a movimentação e o desenho da cena precisavam ser fatos estéticos consumados. Por isto, convém chamá-lo de engenheiro de sonhos…

 

Esta forma de entender o teatro esteve presente em todos os seus trabalhos – foram mais de sessenta direções de peças – e fez a grandeza de espetáculos históricos, montagens que são referencias obrigatórias em qualquer estudo do teatro brasileiro do nosso tempo. E a nossa homenagem só pode fazer justiça à condição de homenagem se lembrarmos a força destes trabalhos.

 

A primeira montagem-referencia é de 1959, Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri, mais do que um autor contemporâneo, um camarada na acepção plena da palavra. Apesar da ingenuidade da trama, do tom romântico do texto, das possibilidades de discussão acirrada contidas no alcance político proposto, Gimba traduziu com impacto o formidável potencial do diretor quase estreante em vários aspectos.

 

O primeiro, a direção de cena hábil, com a movimentação bem orquestrada de grupos, formas, cores. O segundo, a direção de atores segundo uma diretriz rigorosa de espetáculo para emocionar, em um elenco liderado por Maria Della Costa e com nomes tais como Eugênio Kusnet, Oswaldo Louzada, Guarnieri. Terceiro, a proposição de um musical fortemente vinculado ao universo brasileiro, em sintonia com o Orfeu da Conceição, de Vinicius, de 1956. Em quarto, o carinho com o desenho da luz, requinte de linguagem que também apaixonava o produtor, Sandro Polônio. Gimba fez uma carreira de sucesso no Brasil e na Europa, com apresentações em Portugal, na França e na Itália. E ainda ecoa nos debates atuais sobre o musical.

 

A estreia no grande profissionalismo o levaria logo depois para o TBC, no final da história da empresa, casa em que assinou a direção histórica do premiado O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, em 1960. Do elenco primoroso, participavam Leonardo Villar, Nathalia Timberg, Cleyde Yáconis. A encenação afirmou a sua identidade criativa, fez com que ele fosse reconhecido como um diretor do espetáculo total, intenso e sensorial, envolvente.

 

Em uma carreira de grandes proposições, em que a rotina foi sempre o teatro de arte na mais alta voltagem, mesmo quando se tornou um profissional do mercado, em atividade no teatro comercial, pode ser bem difícil escolher os destaques. Mas ousemos fazer escolhas.

 

A lista de trabalhos de primeira grandeza precisa incluir Depois da Queda, de Arthur Miller, em 1964, preciosa filigrana de luz e geometria espacial, despojamento e exposição dos atores, marcada por atuações impactantes de Maria Della Costa e Paulo Autran. E Esperando Godot, de Beckett, tradução sua, último trabalho de Cacilda Becker. E O Homem de la Mancha, de Wassermann, com música de Chico Buarque, em 1972, um elenco monumental liderado por Bibi Ferreira e Paulo Autran em um belo exercício poético sobre o sentido do idealismo.

 

E mais dois grandes musicais significativos para a retomada recente do gênero musical na cena brasileira – em 1982, Amadeus, de Peter Schaffer, uma grande produção, uma festa teatral preciosa, com Edwin Luisi e Raul Cortez líderes de um elenco notável. Em 1983, Piaf, de Pam Gens, com Bibi Ferreira em um dos seus desempenhos mais impressionantes, e um grande elenco, uma arrebatadora enxurrada de emoções a respeito do imenso potencial criativo do ser humano, que pode surgir mesmo nas sarjetas, nas ruas.

 

É preciso fazer um mea culpa – esta lista é pequena e muito tímida diante da obra teatral de Flavio Rangel, notável, pontilhada de prêmios. Mas – repito – são espetáculos obrigatórios em qualquer lista, de qualquer credo.

 

E ele foi também – além de diretor de shows e das múltiplas funções que exerceu em cena – tradutor e autor. E foi um cronista atento dos males do Brasil, escreveu textos saborosos nos jornais sobre as agruras de nossa sociedade sob o desmando dos militares. A sua verve crítica, a perspicácia, a sensibilidade e a cultura foram ferramentas decisivas para a vida cultural brasileira.

 

E este homem sensível, realizador e sonhador, está aqui entre nós não apenas por causa do aniversário de sua morte – ele está aqui porque a sua obra, alicerce para a nossa transformação sensível e para arquitetura de nossos sonhos, foi feita com a matéria imantada da grande poesia. Se a vida é sonho, somos livres para criar e para pretender um mundo transformado, uma lição que ele, poeta da cena de alta estirpe, não cansou de repetir, para assegurar nosso direito de existir como seres melhores.

 

Obrigada, Flavio Rangel – obrigada aos deuses do teatro, que nos permitiram ter, entre nós, você.