Sobre o poder dos homens

O que é o poder? Um abismo. Uma vertigem. Ou uma muralha? Uma muralha monolítica cheia de fendas ou portas ou passagens enigmáticas… O homem? E o que é o mundo dos homens, estes seres plenos de poder, desde o paraíso até o mundo conturbado de hoje, passando pelas cavernas ancestrais? Uma página de literatura?

 

As perguntas, diante da certeza do poder masculino, trazem um estranhamento, deslocam a reflexão para um desvio. De certa forma, pensar os homens é pensar o poder. Mas um poder precário, pois feito de carne e sangue, transitório: fragilidade. Um impasse. Logo o mundo masculino se expõe sob uma ótica de dúvida e oscilação, uma ótica alternativa, gay. Não dá para perguntar sobre o poder sem um deslocamento, uma fricção entre sujeito e objeto. O poder é o outro. O sujeito se nega, deseja apagar-se, para tentar entender o que existe.

 

É o universo de Caio Fernando de Abreu, em cena no bem sucedido espetáculo Homens, cartaz do Teatro do Jockey só mais esta semana. Você que ama literatura, ama fazer perguntas sobre a natureza do mundo, a natureza da existência e da arte, nem pense em deixar de ver. É imperdível.

 

A adaptação de textos originais do autor e a direção são de Delson Antunes, um ato de rara felicidade. Ousadia, inquietude, beleza visual, contundência estética fazem a cena. Sim, a admiração do diretor pelos textos, cuja riqueza é inegável, limitou os cortes e resultou numa encenação um pouco longa, repetitiva. Mas este exagero pouco importa, pois o palco exala sedução: o espetáculo é muito bem desenhado, uma espécie de jogo de xadrez de artista ao vivo, comovente em sua capacidade para apresentar figuras humanas em um painel de traços espaciais dilacerantes, sempre estéticos.

 

O efeito da direção, de jogar pessoas com arte, ecoou no cenário (Teka Fichinsk), uma muralha, uma dinâmica composição de portas e adereços móveis, e repercutiu no figurino (Nello Marrese), uma roupa teatral intrigante, masculina, mas decorada – camisas de colarinho pontilhadas de retalhos e calças jeans em que as pernas um pouco sugerem um apagamento ou esfumado, nuvens, com bordados e aplicações. Também a luz (Luiz Paulo Nenen), a música (Pedro Verissimo), os movimentos (Ana Bevilaqua) e a caraterização se articulam de forma brilhante em função da proposta central. Em resumo, uma belíssima direção de cena.

 

Se a direção de cena de Delson Antunes é inspirada, a sua direção de ator é muito eficiente. Apesar do elenco desigual, em que existe uma variação razoável de experiência e técnica, há uma forma coral muito bem ensaiada, inclinada a valorizar o resultado coletivo. Alguns solos, contudo, se projetam. É fundamental destacar de saída a força cênica de Thiago Chagas, um ator jovem de extrema maturidade, denso e sutil nas cenas dramáticas e encantador nos travestis e nas cenas cômicas: um luxo. Mauricio Alves impressiona ao compor numa linha elegante e natural uma cachorra velha de estimação. Kiko do Valle confere eletricidade ao palco com sua bela voz, assina um número à capela marcado pela dramaticidade. Guilherme Prates é um hábil retrato da fragilidade masculina, em especial ao lado do perfil rústico do sargento, trabalho bem resolvido de Rogério Mendes. A hesitação do autor é traço nítido nas cenas de Hilton Vasconcelos.

 

Os oito atores percorrem vários papéis, alternando narração e representação, tratando da cenografia e de alguns adereços. As cenas curtas, devotadas às perguntas sobre a identidade do homem – e, afinal, sobre a definição da vida humana – obedecem a uma curva dramática inteligente, garantida por dois fios condutores, as histórias de um amor entre dois homens (do conto Pela Noite) e a de um escritor criando a sua obra. São tramas que se entrecruzam para revelar a fragilidade dos homens, antes de apontar a arquitetura – ou a arqueologia – do seu poder. Uma fragilidade que brota pelas portas e janelas de uma muralha, cuja aparência primeira sugeria a possibilidade de um monumento monolítico. O poder é uma ilusão de força, diante da percepção mais delicada da arte, se esvai.

 

Créditos da foto: Tatiana Zanghi


FICHA TÉCNICA
Baseado na obra de Caio Fernando Abreu
Dramaturgia e Direção: Delson Antunes
Elenco: Romulo Estrela (Marcelo Cavalcante), Thiago Chagas, Dudu Salinas, Guilherme Prates, Hilton Vasconcellos, Kiko do Valle, Rogério Mendes e Maurício Alves
Direção de Movimento: Ana Bevilaqua
Cenário: Teka Fichinsk
Iluminação: Luiz Paulo Nenen
Figurino: Nello Marrese
Programação Visual: Carol Vasconcelos
Trilha Sonora: Pedro Veríssimo
Assistente de Direção: Kiko do Valle
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Direção de Produção: Thiago Chagas
Produção Executiva: Juliana Stuart
Assistente de Produção: Iuri Saraiva
Assistente de Cenário e Figurino: Ianara Elisa
Assistente de Assessoria de Imprensa: Fernanda Miranda
Realização: Chagas Produções
SERVIÇO
Temporada:
de 10 de janeiro a 23 de março

Local: Teatro Municipal do Jockey (Av. Bartolomeu Mitre, 1.110 – Gávea, RJ)
Telefone: (21) 3114-1286
Horário: Sexta a domingo, às 21h
Ingresso: R$30,00
Duração: 80 minutos
Capacidade: 120 lugares
Bilheteria: quarta a sexta, das 15h às 21h, e sábado e domingo, das 14h às 21h
Classificação: 16 anos
Gênero: drama
Obs.: Entrada de veículos pela Rua Mário Ribeiro, 410.