Crítica de Clementina, cadê você?

Lancem grilhões, tragam mordaças, ergam chibatas: sim, o poder nestas terras tropicais perdidas sempre foi livre para liquidar o cidadão comum ou, um pouco mais abaixo, os humanos que nem conseguem chegar à cidadania. Mas, seja qual for a identidade do capataz, seja qual seja a esmola ou o artifício, a alma brasileira consegue o milagre de ser livre. E canta altaneira pelas calçadas e quintais a alegria e a dor de existir,  a força da vida que se quer liberdade,  mesmo que as oportunidades para lançar o canto ao mundo, lapidar as notas, limpar a voz sejam inexistentes.

 

Se existisse um ILTI – índice de liquidação de talentos e inteligências – o Brasil teria uma colocação altíssima, pois tudo se faz aqui para neutralizar a criatividade e a inteligência do povo. Não tem problema: ainda que surrado, o povo vai. E toma as ruas,  desfila nas praças, cria mercados, vende quinquilharias, rala em todos os cantos em uma ânsia guerreira admirável de viver. Se não tem microfone, dá para cantar para as panelas. A vida é profissão.

 

Clementina, cadê você, de Pedro Murad, cartaz no Teatro Laura Alvim, fala disso. A peça é uma versão deliciosa de musical de terreiro, uma  linha de dramaturgia e de espetáculo de extremo interesse para a linguagem do musical brasileiro, iniciada a pouco com É samba na veia, é Candeia, de Eduardo Rieche. Apesar de abordar a vida da cantora, a proposta não é a elaboração de uma biografia musical, didática e enfadonha ou arbitrária, mas a indicação da identidade artística de uma personagem-ícone da alma do país, que se aproxima vertiginosamente da identidade do povo em geral.

 

Neta de escravos, empregada doméstica, negra, pobre, suburbana, Clementina de Jesus da Silva se tornou cantora por acaso, descoberta na rua por Hermilo Bello de Carvalho aos 63 anos. O que está em pauta, portanto, é o vigor absoluto de um povo, a garra de uma gente resistente, mesmo massacrada por camadas compactas de exclusão.

 

A equipe, liderada pela diretora Duda Maia, hábil mestra em movimentos e corpos que estreia com brilhantismo na direção, domina a cena com um prazer contagiante, oferece algo muito próximo em intensidade das irresistíveis rodas de samba em praças e terreiros. Nem pense em perder, corra para ver. É sensacional, imperdível, uma vibração de sentimentos rara de encontrar.

 

A cenografia e o figurino, de Clívia Cohen, possuem o dom da simplicidade expressiva eficiente. Uma mesa, caixotes praticáveis, roupas brancas com volumes e movimentos surpreendentes, panos estampados de chitão, luzes penduradas de fios como em casa de pobre, velas de devoção são recursos simples manipulados ao sabor das cenas, indicações sutis de climas, lugares, situações e sensações. A luz de Renato Machado dialoga com a trama e com o desenho da cena. A direção musical de Pedro Miranda é mais do que perfeita, é plástica, divertida ecoa forte uma  sonoridade de quintal e Brasil.

 

Líder absoluta do palco, Ana Carbatti assina um trabalho de excepcionalidade. Não há em cena um retrato de Clementina de Jesus, uma preocupação em imitar ou caricaturar a velha cantora, mas, antes, a busca da revelação de algo da alma feminina negra brasileira em seus vários ângulos, associável à figura da notável sambista. Sedução, faceirice, meninice, peraltice, malícia, brejeirice, doçura, autoridade, encanto, misticismo, crendice, fragilidade e força, e tantos outros tons expressivos pontuam um trabalho de extrema beleza. Gestos firmes e delicados constroem quadros, closes e flashes eloquentes.

 

A atriz exala grande carinho pelo desafio e nem hesita diante de uma linha de trama bastante severa, um relato de episódios da vida de Clementina formulado a partir de entrevistas, material de imprensa, depoimentos, ao lado de alguma ficção. Há uma alternância  constante de formatos de atuação, uma oscilação que passa pelo relato, as conversas muito naturais com a plateia, a performance, o canto e a interpretação, sempre sob total despojamento, como se a vida transcorresse tranquila entre a copa e a cozinha. Ninguém precisa ter medo do mundo.

 

O elenco de apoio é formado por Bruno Barreto, Bruno Quixotte, Sergio Kauffmann, Vidal Assis e Wendell Bendelack. Os cinco rapazes se revezam representando não só as figuras masculinas e o amor da vida de Clementina, Albino Pé Grande, mas divertidas pastoras e eficientes soluções musicais, revelam o mesmo amor ao alcance da proposta. Intérpretes de origens e escolas diferentes, eles conseguiram amalgamar as habilidades, há um equilíbrio muito interessante no conjunto, coloridos complementares, um espírito de equipe que engrandece a todos. Afinal, a cena acontece de verdade, no rigor do verbo.

 

E acontece, ao nos levar a sentir de novo o encanto que sentíamos ao ver no palco, espontânea e sincera, plena de sentimento do mundo, a doce Clementina. Senhora de uma voz belíssima, preciosa mesmo, dona de uma presença em cena de impacto, Ana Carbatti nos presenteia com um límpido momento teatral da melhor brasilidade – flui diante de nós uma lição Clementina. É um pouco de tudo do muito que ainda necessitamos ver, ouvir e sentir para termos a consciência, a mais objetiva possível, de que, brancos, pardos, mulatos ou negros, precisamos proclamar nesta terra a total independência do direito à vida, não podemos mais ser escravos de ninguém, não.