Chegou a hora de um novo momento na crítica teatral brasileira – é preciso acompanhar a transformação do teatro brasileiro e praticar uma nova crítica, adequada aos tempos atuais do palco. E tal condição se impõe por algumas razões sérias.

A primeira é uma constatação simples : a critica é um trabalho reflexo, uma operação que necessita ter como referência o estado da arte de seu tempo. Portanto, a reflexão sobre o trabalho de arte (o ato de criticar) e o objeto-registro desta reflexão (o texto da crítica) precisam considerar como ponto de partida o cenário dominante na produção teatral. Não para que se enverede no exercício de algum mimetismo ou paternalismo – mas para que a crítica indique o que a obra apresentada é. Algumas variáveis importantes para este tema serão consideradas adiante.

A segunda razão que exige uma nova crítica, associada à primeira, resulta de uma constatação mais complexa: o trabalho da crítica é um trabalho de arte, por mais que ele possa ser vinculado ao jornalismo, à academia, à estética ou à História da Arte. Esta sua ‘condição de arte’ nasce, claro, de sua condição fundante, essencial, de manifestação de linguagem. A crítica acontece como verbo, logo é uma poética, pois não pode ser tecida como pura formulação teórica; ela vive do vínculo com a objetividade de uma obra. Ainda que não sejam literatos ou poetas, todos os críticos professam um culto ao texto dotado de um mínimo de acabamento, certa beleza, ainda que vaga ou etérea. A crítica não pode ficar indiferente à beleza de seu tempo.

Assim, a necessidade de uma revolução na crítica teatral brasileira hoje, neste início do século XXI, surge por causa do esgotamento do ciclo histórico do teatro moderno. Surgiu um teatro novo. E é preciso ter uma crítica nova. Será a terceira idade da crítica no país. A primeira, iniciada no século XIX, prolongou-se até os arredores dos anos 1940; absorveu dramaturgos-críticos, literatos-críticos, ensaiadores-críticos, jornalistas-críticos… Atendia a um perfil geral de formação da vida de teatro no país, derivada de ambições por vezes bem conflitantes, com a academia e o proscênio em atritos freqüentes. Para a geração seguinte, esta crítica velha era uma vitrine de horrores, um exercício de promiscuidade.

A segunda idade é a que ainda domina a cena e as letras dos jornais – surgiu por volta dos anos 1940, em guerra com os críticos anteriores, vistos como seres comprometidos com um palco ultrapassado ou desligados das exigências do novo teatro que se projetava. Foi a geração moderna, a mais guerreira das gerações de críticos, pois se inspirava em um fazer teatral antagônico ao palco dos grandes atores e das grandes divas. As novas idéias defendiam o teatro moderno, o palco da encenação, de Copeau e da nova cena italiana. A grande bandeira era a luta pelo poeta de teatro e pelo teatro de poeta, uma arte requintada, que o exibicionismo, o histrionismo e a vaidade dos monstros sagrados do velho teatro impedia de acontecer.

Diante de grandes inimigos – os primeiros atores donos de companhias e o populacho que os adorava, para rir, rir, rir e rir, e chorar, chorar, chorar – os jovens críticos modernos precisavam ser normativos, autoritários, duros, intransigentes e por vezes até mesmo grosseiros. O seu texto não hesitava em ser destrutivo, indiferente a qualquer maestria ou excelência de carpintaria que os antigos pudessem revelar em seus trabalhos. O ato crítico moderno típico foi o ato de aniquilamento, tabula rasa, como se não houvesse qualquer relevância nestas obras “anteriores”, excretadas por seres que não “sabiam” o que seria a verdadeira arte. Logo, o crítico se viu com freqüência como professor, fonte de todo o saber, guia e luz, construtor da verdade da arte. E seus textos puderam se tornar rol de revelações, advertências e lições – uma situação curiosa surgiu, em que o crítico, em lugar de ser um analista, em lugar de estudar a obra e revelar sua gênese, sua arquitetura e seus conceitos, passou a atuar como juiz-algoz dos artistas, arbitrando aclamações e derrotas.

A situação é mais intrincada porque o teatro é, desde o século XVIII, sempre fato de mercado – apesar das leis de incentivo e dos mecenatos, ainda fazemos e consumimos teatro, em geral, através da bilheteria. Neste jogo, nos jornais, os críticos se projetaram como guardiães da poupança dos espectadores, deveriam indicar qual o melhor investimento para que o público transformasse o seu dinheirinho em cultura, não fizesse um investimento ruim. Mesmo quando o público, na verdade, prefere justamente aquilo que a crítica considera abaixo de qualquer bom juízo de arte…

No entanto, hoje, a revolução moderna passou há muito tempo. Vivemos em uma era de teatro eclético, de explosão de referências e de suportes, de apagamento de fronteiras entre procedimentos e linguagens. O mercado apresenta múltiplos extratos; o mercado consumidor de teatro é um intrincado jogo de tendências, gostos, inclinações. Neste quadro, ousar arbitrar o que é Arte, o que não é, o que é certo ou errado, qual é a forma da cena, da palavra ou do gesto parece ser tarefa ultrapassada – ou no mínimo difícil de sustentar. Assim como o crítico tem pleno direito de acesso ao teatro – é um espectador livre – assim o público deve ser libertado da tirania de um juízo crítico antigo, normativo e segregador, para que viva a experiência da arte de sua época, informado a respeito da densidade daquilo que vai ver. O teatro mudou, sintoniza com um tempo novo – precisa de um olhar novo para que possa acontecer.

Com certeza o crítico é um espectador vivido, sofrido, escolado em horas de platéia e pilhas de páginas de textos especializados. Não há como desejar que o crítico se depare com a cena com olhos inocentes, ares de descoberta; não se pretende a volta do publicista, um tipo de crítico antigo que se dedicava a fazer propaganda exaltada de peças com as quais possuía estranhos laços, como se fosse um camelô de feira.

No fundo, mesmo que o crítico busque localizar o fluxo poético da obra que comenta, o ato do seu texto é um ato de contemplação; se a crítica é poesia, é poesia segunda, derivada – portanto, ao criticar, não se poderá escapar da obrigação de fazer avaliações e julgamentos. O problema é que estes devem atender, agora, a uma situação nova: a existência de um palco outro em um mundo novo. Em lugar de jogar a obra e o artista em um tribunal, ou no púlpito de um velho leilão de prendas, cabe ao crítico revelar-se a si mesmo, mostrar o mundo de criação que pode perceber ao vislumbrar o ato de criação do poeta.