Captura de Tela 2015-12-01 às 01.41.34 High-res version

A explosão teatral do mundo

 
Prenda a respiração e segure a sua alma, para evitar que ela fuja do seu corpo: uma explosão teatral vai varrer a sua sensibilidade. Não, não é um atentado ou um homem bomba. O seu nome é Letícia Isnard, atriz arrebatadora, senhora de uma gama surpreendente de meios expressivos, da emoção mais profunda à racionalidade mais rasa do cotidiano. Ela está de volta ao teatro, depois da maternidade, para a felicidade de todos nós, apaixonados pelo palco. E retornou ainda mais intensa, pura fonte de sentir, prisma humano cristalino diante do drama existencial do nosso tempo. A peça é Marco Zero, de Neil Labute, cartaz da Caixa Cultural. Vale a pena ver n vezes, em estado de hipnose, como todos nós estivemos paralisados, olhos pregados na tela da TV, diante da derrubada das Torres Gêmeas.

 

A montagem, direção perspicaz do dilacerante Ivan Sugahara, é um veículo perfeito para a expressão a um só tempo corajosa e arrebatadora da atriz. Ao seu lado, também de volta ao palco, Tárik Puggina, um parceiro leal e dedicado, ilustra uma outra atitude humana corrente na vida, a submissão traiçoeira e o apagamento. A dualidade, no caso, é referência fundamental, o tema estrutura o texto. E, para a sua percepção, o desempenho dos dois atores é precioso, ainda que a contundência de Letícia Isnard repercuta bem mais fundo.

 

Não se trata de uma peça fácil ou simples. Pretende-se materializar uma ousada radiografia da nossa época. Sob um recorte humano de aparência ingênua, o estudo de um caso de amor, o inventário de uma relação conturbada de um casal em crise, há a proposição de um debate de ideias de extrema sofisticação, a respeito da ética e dos valores do indivíduo. Quer dizer, algo tão devastador como a atmosfera vivida no mundo de hoje, um mundo em que algumas pessoas podem chegar a assumir o projeto de destruir tudo. Vale destacar que o notável do feito tem nome: absoluta teatralidade.

 

Como a magia acontece? De saída, graças à inteligência da direção, é possível deparar com o movimento profundo do texto. Ivan Sugahara, célebre por seu gosto pelo realismo cru, até mesmo chocante, envereda neste trabalho por uma modalidade rascante de realismo poético, algo como uma cálida chuva ácida de emoções. Para tanto, são recursos decisivos o impressionante cenário de Aurora dos Campos, um loft moderno devastado pela poeira da queda das Torres, no 11 de setembro, e por uma rotina de confinamento do casal. Uma bolha enfumaçada se impõe ao olhar do público, graças à poeirada e ao envolvimento da cena numa nuvem de filó. Sons, ruídos e músicas criam uma atmosfera de estranhamento,sob a regência do diretor musical Rodrigo Lima. A luz bruxuleante, evanescente, de Paulo Cesar Medeiros, reforça a atmosfera de suspensão e de possível irrealidade, como se estivéssemos perplexos diante do mundo, compartilhássemos um vago estado de anestesia que emana do palco.

 

Nesta cena entre a realidade e a criação poética, vestidos por Flávio Souza com figurinos adequados às suas rotinas cotidianas, um homem paralisado pelos fatos e por suas ideias alucinadas diante deles passa a vida a limpo com a sua amante. Ela enfrenta uma dupla perplexidade. Além dos acontecimentos impactantes do 11 de setembro, ela precisa digerir a proposta feita pelo amante, mais inusitada ainda do que o ato terrorista, uma espécie de terrorismo afetivo.

 

Frente a frente estão os dois princípios humanos decisivos para a construção do sonho americano. Ela, uma mulher de ação bem sucedida, livre, executiva, traduz a figura do ser empreendedor, conquistador, desbravador, o self made hero, responsável pelo mito do indivíduo plenamente realizado e pelo desenho do sonho da América. Ele, o subordinado, contido e batalhador, casado, com quem ela tem um caso tórrido e longo, expõe a luta do braço cego, autômato, um tanto descerebrado, dedicado ao trabalho duro, o operário cívico devotado à construção da terra da liberdade humana.

 

A trama é simples, na sua aparência, feroz no seu alcance. Ben Harcourt é funcionário de uma empresa e trabalha sob a chefia de Abby Prescott. Poderia ter morrido na queda das Torres, se não tivesse ido para a casa da superiora para transar com ela. Diante da tragédia horrenda do atentado terrorista, logo ali adiante da janela, um fato capaz de deixar o mundo estarrecido, Ben tem uma ideia chocante, imoral, pura transgressão ética – passar por morto, para fugir de tudo e começar uma nova vida, longe, ao lado de Abby. Ela, no entanto, gostaria de outro caminho para a relação e pede ao amante, mais uma vez, que ele assuma o romance, deixe a mulher e as filhas, para começarem do zero. A possibilidade do marco zero, profundamente ligada ao 11 de setembro, desponta também daí e das variáveis decorrentes do confronto dos dois.

 

O casal expõe a sua relação, conta a sua história e a história de cada um dos parceiros. Briga, disputa, transa, discute a vida sexual, para Abbey insatisfatória e deprimente, indício, a seu ver, do equívoco do romance dos dois. Há, sob a atmosfera de desolação, a insinuação de um impulso para uma troca de papéis. Ben, o pacato trabalhador, teria uma iniciativa protagonista, empreendedora, ao propor a fuga. Abbey se tornaria coadjuvante, passaria do individualismo realizador para a colaboradora submissa, caso aceitasse.

 

A cena deslumbrante em que Letícia Isnard se projeta no espaço como uma réplica da estátua da liberdade é uma grande resposta ao confronto, ao desafio e à temperatura do nosso tempo. Após a contemplação do abismo ético delirante que resultaria do oportunismo cínico de usar o ato terrorista em proveito próprio, a resolução da trama leva os fatos de volta ao caminho do homem americano, agora mais dilacerado, menos inocente, mais perplexo diante do mundo. Para o cidadão ocidental, o marco zero não pode ser a destruição de tudo, mas sim, antes, a retomada das ruínas diante do ímpeto de destruição: não existe liberdade absoluta. Sim, a peça tem uma certa dose de moralismo civilizatório. Por que não?

 

Na verdade, várias perguntas decisivas a respeito de nossa época percorrem o original ou saltam das situações desenhadas no texto, como se Neil Labute nos propusesse um marco zero a respeito do mundo que construímos – ou herdamos. A continuidade das ações terroristas no mundo, com os ataques permanentes por toda a parte, do Oriente até a Europa, passando por Israel, de certa forma significam uma pergunta dolorosa aos dois princípios humanos responsáveis também pela vida no Ocidente. Tornar-se sujeito, brigar pelos próprios valores, ou entregar-se ao fluxo cego de tudo, compactuar e tirar algum proveito da destruição?

 

A liberdade sublime de Letícia Isnard em cena, uma vertigem de poesia, parece insinuar uma resposta perfeita – precisamos deixar a sensibilidade maior em relação à vida se tornar o leme do mundo, para lutar contra tudo o que se oponha aos valores mais elevados da existência humana. Ave, Letícia, que a sua arte nos ilumine sempre, como uma bomba ao contrário, uma explosão sensível, um banho de belas percepções e belas ideias.


Ficha Técnica
 
Texto: Neil Labute
Tradução: Gustavo Klein
Direção: Ivan Sugahara
Co-Direção: Simone Beghinni
Elenco: Leticia Isnard e Tárik Puggina
Direção de produção: Aline Mohamad
Produção Executiva: Amora Xavier
Cenário: Aurora dos Campos
Figurino: Flávio Souza
Direção Musical: Rodrigo Lima
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Fotos: Dalton Valério
Marketing Digital: Laura Limp
Projeto Gráfico: Luciano Cian
Administração Financeira: Amanda Cezarina
Realização: Nevaxca Produções
Idealização: Tárik Puggina

Serviço
Estreia para convidados: 26 de novembro, às 19h
Temporada: 27 de novembro a 20 de dezembro
Local: Caixa Cultural Rio de Janeiro – Teatro de Arena (Av. Almirante Barroso, 25 – Centro)
Telefone: (21) 3980-3815
Horário: terça a domingo, às 19h. Em dezembro, sessão extra nos dias 12 e 19 (sábado), às 17h.
Ingressos: R$20,00
Gênero: Drama
Duração: 75 minutos
Capacidade: 170 lugares
Classificação: 16 anos
Bilheteria: a partir das 10h