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A invenção do teatro do nosso tempo

 
Você pode achar que sabe o que é teatro. Mas não sabe nada, se ainda não foi ver Mistero Buffo, de Dario Fo, em curta temporada no Teatro Poeira. Portanto, a palavra de ordem é direta: corra para ver. No palco, o Grupo La Mínima, de São Paulo, simplesmente inventa o teatro do nosso tempo, sob a direção da notável alquimista cênica Neyde Veneziano.

 

Em paralelo com os textos medievais usados por Dario Fo para fazer graça e por em xeque o mundo contemporâneo, textos da época em que o teatro nascia (ou renascia) no mundo ocidental, o conjunto propõe um jogo de invenção ardiloso. Eles tecem o nascimento de um teatro adequado à nossa sensibilidade. E com um agravante: trata-se de teatro mesmo, em estado bruto, arte pura da representação, sem invenções técnicas, com o ator exposto até a última parcela de seu poder expressivo.

 

O turbilhão começa no tratamento do texto. A obra original conta com mais de 20 monólogos, veículos ideais para uma atuação devotada à crítica política no sentido mais amplo da expressão, da sensibilidade individual ao jogo do poder. A equipe escolheu quatro textos – A Ressurreição de Lázaro, O Cego e o Paralítico, O Louco e a Morte e O Jogo do Louco aos Pés da Cruz. A tradução e a adaptação, assinadas por Neyde Veneziano e André Carrico, fazem os textos pulsar com o nosso ritmo cardíaco. Na direção, Neyde Veneziano levou os atores a trabalhar a expressividade mais completa e a sintonia com a plateia – buscou opções capazes de instaurar um verdadeiro tráfico de almas.

 

O resultado é avassalador. Destaque-se que La Mímina é um grupo estável de repertório criado em 1997 por dois atores, Domingos Montagner e Fernando Sampaio, egressos do teatro experimental, devotados desde o final dos anos 1980 ao estudo do circo, em especial no Circo Escola Picadeiro, pioneiro centro de pesquisa criado em São Paulo por José Wilson Leite. Há, portanto, uma forma expressiva muito trabalhada, muito madura, inteiramente plástica, uma hábil combinação de teatro, circo e mímica. Ao grupo, nesta montagem, foi agregado o ator Fernando Paz, o terceiro palhaço, músico multi-instrumentista.

 

Assim, as cenas apresentam uma estrutura peculiar, um híbrido de Dario Fo, La Mínima, circo, mímica, revista (Neyde Veneziano é a nossa maior especialista no gênero). E mais – há narração épica, performance, jogo direto com a platéia, dramatização, transgressão, comédia, acidez crítica e, sobretudo, beleza. Segundo a linguagem tradicional da palhaçaria, algumas sinalizações poderiam ser estabelecidas. Talvez se pudesse afirmar que Fernando Sampaio se apresenta como o palhaço Augusto – o bobo desordeiro, indisciplinado e insensato, e Domingos Montagner se inclinaria para o Branco – a referência sóbria, o escada, racional, ordeiro e disciplinador. Fernando Paz seria um contra-Augusto, capaz da indisciplina, mas devotado à sustentação, cômica e técnica, das cenas. No entanto, a proposta da equipe vai muito longe, a rigor estas fronteiras acabam esmaecidas, sacudidas, quebradas, graças ao vigor expressivo do trabalho dos atores.

 

No saldo final, há um encontro artístico admirável, muito bom de ver – Fernando Sampaio transborda em expressividade facial, Domingos Montagner magnetiza como irradiação de sentimentos, Fernando Paz arrebata por sua explosiva exatidão técnica. A surpreendente direção mímica de Alvaro Assad potencializa as escolhas e torna as contracenas densas, contundentes.

 

O desenho geral da montagem traduz esta maravilha que é o trabalho autoral de grupo, coisa tão escassa na atualidade. Há extrema organicidade em toda a arte do espetáculo. A excelente música (Marcelo Pellegrini) parte do colorido medieval, da memória afetiva que possuímos dos jograis e madrigais, para enveredar pela criação de climas, a estruturação de jogos de cena ou de circo e a ambientação.

 

O figurino (Inês Sacay) sugere o medievalismo em tom discreto, na abertura, para apostar no despojamento do teatro de expressão do ator, escolha que também marca a maquiagem e o visagismo. A iluminação de Wagner Freire desenha as cenas com adequação, valoriza o cenário neutro, despojado e técnico assinado por Domingos Montagner, marcado, no chão, por uma sensível sugestão de mosaico bizantino.

 

De resto, é ir ao teatro e preparar o fôlego para enfrentar o circo teatro de nossas vidas – e se divertir com ele. Na primeira história, o trio parte do conhecido tema biblíco do Lázaro para jogar uma luz impiedosa sobre o desvairado culto às celebridades e à paixão por grandes eventos, caros ao nosso tempo. A cena, ambientada num cemitério, solicita extrema complexidade no desenho físico do espaço e, ao mesmo tempo, a dupla alcança impacto ao apresentar uma multidão de personagens a partir de sofisticadas soluções físicas.

 

A acidez crítica prossegue na cena seguinte, O Cego e o Paralítico, na qual dois pedintes miseráveis, fracassados, se encontram e decidem se unir, para tentar algum sucesso, graças à formação de uma figura monstruosa, em que os olhos de um e as pernas do outro compensariam as deficiências particulares. Assustados com a possibilidade de um milagre de Cristo, que poderia acabar com suas deficiências e, assim, com as suas rendas, eles se apavoram diante da ameaça de ter que mudar de vida, trabalhar.

 

Também a relação com o dinheiro e o ganho fácil, o apego à materialidade aparecem nas duas outras histórias, O Louco e a Morte e O Jogo do Louco Debaixo da Cruz. Durante a Última Ceia, um louco joga cartas na mesma taberna do evento religioso, situação que permite a crítica à superficialidade dos jogos sociais, ainda que, graças a artimanhas de sedução, o louco seja capaz de vencer a morte. No momento da crucificação, o louco clama por um milagre para ganhar dinheiro e consegue obtê-lo; como recompensa, tenta tirar Cristo da cruz, sem entender o motivo da crucificação.

 

O resumo rápido das tramas se impõe como indicador da irreverência que norteia o espetáculo. Das tramas medievais inspiradoras deste trabalho, a caminho da Renascença, nascia o sujeito moderno, capaz de pensar por si e inventar um novo mundo.

 

Este palco novo concebido pelo Grupo La Mínima é um aceno para o futuro do teatro e para o nosso futuro: nos estimula a ter a cabeça livre, independente, a sensibilidade plena, solta, para caminharmos em direção a formas de viver marcadas por uma inteligência humana profunda. Afinal, este é o teatro necessário agora, nestes tempos tensos que vivemos. Portanto, não deixe de ver: o prazer maior do teatro está lá, à sua espera, não perca.


Ficha Técnica
 
Autor: Dario Fo
Concepção: La Mínima e Neyde Veneziano
Direção: Neyde Veneziano
Assistência de direção: André Carrico e Ioneis Lima
Tradução: Neyde Veneziano e André Carrico
Elenco: Domingos Montagner, Fernando Sampaio e Fernando Paz
Iluminação: Wagner Freire
Cenografia: Domingos Montagner
Confecção de cenografia e arte: Maria Cecília Meyer
Figurino: Inês Sacay
Direção Musical / Música Originalmente Composta: Marcelo Pellegrini
Direção Mímica: Alvaro Assad
Direção de Produção e Administração: Luciana Lima
Coprodução: Turbilhão de Ideias – Cultura e Entretenimento
Fotos: José Maria Matheus, Lidia Ueta, Carlos Gueller, Thiago Henrique
Secretária: Catarina Capelossi
Produtor Original: SESI-SP
Realização: LaMínima
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Serviço

TEATRO POEIRA
Rua São João Batista, 104 . Botafogo – RJ / tel: 21 2537-8053
HORÁRIOS: terças e quartas, às 21h / DURAÇÃO: 75 minutos / INGRESSOS: R$ 50,00 e R$ 25,00 (meia)
Horário da bilheteria: 3ª a 5ª das 16h às 21h; 6ª e sábado das 16h à meia-noite; domingo das 16h às 20h.
Formas de Pagamento: dinheiro e todos os cartões de débito e crédito. Não aceita cheque. Vendas: ingresso.com / CAPACIDADE: 145 espectadores / CLASSIFICAÇÃO: 16 anos / GÊNERO: Comédia / CURTA TEMPORADA: de 10 de março a 1º de abril