Contos de sedução, pelo grupo TAPA

Crítica convidada Angela de Castro Reis

O espetáculo em cartaz no teatro Caixa Cultural – Teatro de Arena tem a marca dos trabalhos do TAPA: bem realizado, cenário e figurinos impecáveis, atores de qualidade e em sintonia, direção precisa e segura. O texto, Contos de sedução, encenado pela primeira vez em São Paulo, em 2000, é uma adaptação de Jonathas Amacker, autor norte americano radicado no Brasil, que criou uma trama em que 6 dos cerca de 300 contos do escritor e poeta francês Guy de Maupassant (1850-1893) são costurados pela figura do próprio autor, doente e delirante, em conversa com seu secretário e enfermeiro improvisado.

Boêmio, conquistador e popular entre as mulheres, Maupassant fez grande sucesso e despertou a admiração de contemporâneos como Oscar Wilde, Tchecov e Henry James graças à observação arguta de diversas camadas sociais – pelas quais transitava com igual desenvoltura-, bem como pela fina ironia com que expressava, em frases geniais, sua opinião sobre os contrastes da sociedade de seu tempo. Os contos escolhidos retratam, todos, situações de encontros e desencontros amorosos na sociedade francesa da virada do século, trazendo adultérios, acordos, amantes entediados e pragmáticos, bem como, com freqüência, soluções inesperadas para as circunstâncias apresentadas.

Enfatizando a comicidade e buscando, certamente pelo enfrentamento com o espaço em arena, a cumplicidade com a platéia – dirigindo-se os atores diretamente ao público em muitos momentos –, o espetáculo alinhou-se com a verve e o brilhantismo intelectual oferecidos pelo texto, evitando ao máximo enveredar por outra senda também anunciada por Maupassant, morto pela sífilis aos 43 anos de idade: o mergulho na sexualidade desenfreada. Embora, ao lado de opiniões irônicas e elegantes acerca dos relacionamentos ouçamos também frases como “amemos a carne, vamos amar fazer amor, não o amor pacífico, mas selvagem, assustador”, não há na cena, no entanto, nenhuma intensidade ou selvageria, predominando, ao contrário, uma grande contenção nos atores, cuja atuação enfatiza o refinamento dos personagens.

Escolhas são escolhas, cada qual sabendo melhor do que ninguém os motivos de suas decisões. Como espectadora, no entanto, me pergunto se um contraste maior entre elegância e devassidão não traria mais tensão e força à cena, que resultou um tanto comedida. A exceção é o conto Auxílio mútuo, em que Zécarlos Machado e Fernanda Viacava, à vontade em personagens populares, intensificam a comicidade da cena; com atores tão bons, imagino que o mesmo vigor, aplicado também aos personagens de um extrato social mais elevado, teria um excelente resultado.