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Tapioca, rapadura e sonho

 
Imagine uma peça de teatro com sabor de carne de sol. Misture um pouco de tapioca, rapadura, seca, suor e sonho. E você terá Nordestinos, de Walter Daguerre, um pedaço quente do sertão, o coração, em cena no Teatro Sesi. Trata-se de uma comédia sentimental deliciosa, irresistível, bom programa também para os daqui, os que se comovem com a riqueza cultural do Brasil. Corra para ver.

 

A proposta simples, mas contundente, se estrutura de forma inovadora, segundo o ideário do seu idealizador, Alexandre Lino, pois pretende ser crua realidade transformada em ficção, pretende fazer poesia da vida. Trata-se de sua quarta produção concebida nesta chave, depois de Domésticas, O Pastor e Acabou o Pó. Agora, a dramaturgia foi tecida como uma renda de vivências e teatro, a partir de relatos verdadeiros – cartas, e-mails e entrevistas de diversos nordestinos emigrados para o Rio de Janeiro – e vários truques da arte.

 

Devido ao seu envolvimento direto com a cena, o pernambucano Alexandre Lino convocou um filho de imigrantes, Walter Daguerre, para estruturar o texto. A opção deliciosa foi por um labirinto, uma vertigem comparável às laçadas das rendeiras, uma forma moderna de dramaturgia, híbrida, calcada na pesquisa e na sala de ensaio, alguma coisa de processo colaborativo: as biografias dos atores foram mescladas com as histórias de vida reais.

 

Para mostrá-las com impacto, a cena é um espaço solar, um vazio de colorido esfuziante, tons de laranja avermelhado chamando barro, areia, solo rachado, eterno verão. A cenografia simples, de panos de algodão tingidos e biombos, se prolonga nos figurinos de retalhos, crochês, emaranhados de linha, pedaços de vida sofrida assumida. A assinatura de Karlla De Luca no cenário e nos figurinos imprimiu uma unidade expressiva límpida, bem costurada, trouxe a ideia de um lugar de emoção livre, fervilhante como o ar do sertão, construção de fragmentos, estilhaços humanos, pura cor.

 

Na direção, o pernambucano Tuca Andrada explorou com intensidade a ideia de lugar de emoção, mas emoção nordestina, sertaneja, de bravura, de gente que luta para vencer, não abaixa a cabeça, não é coitadinha. E emoção de teatro. Portanto, os quatro atores se movem com a energia das feiras, dos folguedos, das festas de terreiro, almas livres para saudar a vida, sem desânimo ou auto-depreciação. E enveredam por múltiplas formas teatrais, infindável teatralidade – lá está o mamulengo, com divertidos fantoches coloridos, o teatro de sombras, a dramatização, a narração, a contação, o relato e a cantoria. A iluminação de Renato Machado, rara composição clara do artista, desempenha um papel decisivo para todo o desenho da cena, reforça o jogo sutil de sol, chão, sutis pertencimentos.

 

Uma beleza arretada, se pode dizer, acentuada pelo prazer de ver Alexandre Lino, Rose Germano, Erlene Melo e Paulo Roque atuarem como espécies de brincantes urbanos renovados. Eles entremeiam as suas próprias histórias de vida – todos migraram do Nordeste para o Rio – com as histórias coletadas para a peça. Apesar da liderança e do carisma de Alexandre Lino, o elenco funciona sob um clima de aguda cumplicidade.

 

E o tom é de humor, de avaliação positiva do vivido, mesmo diante de fatos duros e de situações aviltantes, de preconceito e miséria. A acidez da vida se dilui em espírito de grandeza. Não há hesitação para mostrar que sempre se pode trocar o sinal negativo, de uma equação ruim, a favor de uma positividade, mas sem pieguice barata. As piadas com os nomes diferentes, originais, caros ao povo nordestino, povoam o palco e geram cenas hilariantes, ao lado das implicâncias preconceituosas dos cariocas com o sotaque, os maneirismos regionalistas, a herança da terra.

 

A trama caminha leve, pontilhada de alguma música típica, numa progressão muito interessante – as histórias se entrecruzam, se alternam, permitem a construção de um generoso panorama humano que só se revela por inteiro no final, quando também o espaço vazio se mostra como espaço de teatro. A grandeza humana do país se instala e celebra a visão cultural requintada do Teatro Sesi, um acerto. Trata-se de uma casa dedicada a uma escolha de excelência, voltada para honrar o autor nacional e um teatro de pesquisa novo e muito nosso, autêntica antropofagia amorosa. A linha cênica, inventiva, é trabalhada a favor de tradições culturais nacionais, que surgem renovadas.

 

Numa hora de crise e de imensas dificuldades nesta imensa cena-Brasil, é um alento contar com um espetáculo desta qualidade. Em especial porque Nordestinos nos prova, através do riso e do encanto, que o sabor salgado da vida, pródiga em lágrimas, pode ser transmudado em humana luz. Dá para sair do teatro com uma pequena certeza – muitas vidas são arrastadas pela correnteza, se debatem, se entregam, se afogam. Mas outras são inventadas na marra, impregnadas de sonho. A brava gente nordestina que luta por seus ideais traz uma conexão solar rara: revela a possibilidade de viver a realidade do sonho, sem abandonar o tempero da terra, um sabor ancestral de carne de sol, tapioca e rapadura, o sabor da boa luta, aquela que vale a pena ser vivida.


Ficha Técnica
 
Direção: Tuca Andrada
Dramaturgia: Walter Daguerre
Argumento e Idealização: Alexandre Lino
Elenco: Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano / Stan-in: Natália Régia
Direção Musical: Alexandre Elias
Iluminação: Renato Machado
Cenário e Figurinos: Karlla De Luca
Preparação corporal e Movimento: Paula Feitosa
Assistente de Direção e Dramaturgia: Fabrício Branco
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Design Gráfico: Guilherme Lopes Moura
Fotógrafo: Janderson Pires, Foto Janderson Pires
Revisora Textual: Yonara Costa
Assessoria Jurídica: André Siqueira
Produção Executiva: Daniel Porto
Direção de Produção: Alexandre Lino
Realização: Cineteatro Produções

Serviço
Local: Teatro Sesi. Av. Graça Aranha nº 1, Centro (tel. 21 2563-4168)
Funcionamento bilheteria: Segunda a sábado, das 12h às 20h
Vendas também pelo site www.ingresso.com
Capacidade de público: 350 lugares
Pré-estreia (ensaio aberto): 08 e 09 de outubro, às 19:30h
Estreia: 10 de outubro (sábado), às 19:30h
Temporada: Quinta a Sábado, às 19:30h. Até 28 de novembro.
Ingresso: R$ 30,00 (inteira) R$ 15,00 (meia entrada)
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Gênero: Comédia
Site: nordestinos.cineteatroproducoes.com.br
Atendimento à Imprensa Ney Motta | contemporânea comunicação