Acabou o Carnaval, só nos resta voltar à vida.  E eu estou voltando à vida com um gosto especial na boca: desfilei em duas escolas de samba, no Sambódromo, na São Clemente e na Mangueira.  E vivi uma das experiências mais notáveis da minha vida quando, no domingo, fui para a cidade. Peguei um táxi, sozinha, para ir para a concentração.  Quando estava no final da Praia do Flamengo, uma chuva memorável começou a desabar… eu estava carregando a fantasia nas mãos para vestir na avenida sobre a camiseta e a bermuda básicas, não tinha nem um pedacinho de plástico para proteger minha fantasia – Grampo telefônico – que não ia resistir ao toró. 
Decidi descer do táxi na última marquise de cuja existência me lembrava na Avenida Presidente Vargas: bem ali no terminal rodoviário da Central do Brasil.  A rua estava cheia de gente e de água, cheia de camelôs.  Mas o povo brasileiro adora quem se fantasia.  E respeita o folião. Não faltou gente para me ajudar a encontrar abrigo sob a marquise, para proteger a roupa.  Comecei a conversar com uma vendedora de refrigerantes, perguntei se ela teria uns sacos de lixo para me dar.  Ela lamentou com sinceridade o fato de não tê-los; logo lembrou que tinha uma velha cortina de banheiro de plástico e decidiu me dar a cortina.  Mais, até – me ajudou a enrolar a fantasia, com todo o cuidado com as plumas, feliz porque estava ajudando o carnaval… Tentei seguir adiante, mas vi que não teria sucesso sem um guarda-chuva.  Em outra barraca, consegui comprar um e consegui mais duas bolsas grandes de plástico preto; mais, até: consegui ajuda gentil do barraqueiro para rearrumar a fantasia em todos os plásticos.  Assim, pude seguir para a área dos Correios (bem adiante!), para a concentração, sob uma chuva de lascar.  Em um pequeno trecho fui seguida por um rapaz que – tenho quase certeza – cogitava a hipótese de me assaltar, com uma baita cara de mau.  Sorri para ele, mostrei a fantasia enrolada fazendo uma careta brasileira expressando alegria e conformação e… ele voltou atrás, desistindo de me seguir, depois de me dar um sorriso desconcertado.

Quando cheguei finalmente na concentração, a chuva estava parando.  Eu estava parcialmente ensopada, mas a fantasia estava sequinha. Vesti a minha fantasia, dei o guarda chuva de presente para um fotógrafo e caí no samba com a convicção de que o povo brasileiro tem a alma mais linda do mundo, uma alma radiosa e límpida que se revela nesta festa humana tão plena chamada carnaval.  Ah, a fantasia da Mangueira não molhou – foi levada para a avenida pelo meu marido e pela minha filha, que encontrei depois do desfile da São Clemente…