Captura de Tela 2016-04-25 às 18.37.49 High-res version

O teatro nosso de cada dia

 
Talvez você não saiba: o teatro pode fazer com que você se apaixone pela vida. Quer a prova científica deste axioma? Corra para ver O como e o porquê, de Sarah Treem, cartaz do Teatro Ginástico. A peça, uma incursão admirável por incandescentes campos de contato entre a comunidade intelectual, científica, e a rotina cotidiana, a vidinha corriqueira, deixa isto muito claro. É teatro de paixão em estado puro. Portanto, atenção – a temporada está no fim, talvez continue num outro teatro, mas não arrisque perder, vai fazer falta na sua alma, é uma vertigem teatral imperdível.

 

A vertigem começa com o desempenho sincero, intenso, requintado e irônico de Suzana Faini, capaz de traduzir uma cientista de carreira brilhante, Zelda, no momento exato de seu ápice e do início do seu declínio, desempenho modulado em tons expressivos de uma delicadeza impressionante. Atriz admirável, ela revela uma acadêmica do nosso tempo, sem tirar nem por, mas é também a mulher vivida das batalhas afetivas do século. Ao seu lado, a jovem Alice Steinbruck acompanha a batida, não reduz o nível da arte e materializa Raquel, uma estudante enigmática, a um só tempo ambiciosa e hesitante, insegura, mas decidida e contundente.

 

As duas atrizes desenham um mundo precioso de afetos, ideias, raciocínios: revelam de forma intensa a dinâmica feminina na nossa sociedade. A partir de um diálogo de sutilezas impressionantes, aflora em cena todo o drama da libertação da mulher contemporânea, de um ponto de vista que é fundamental situar – tanto para as mulheres, como para os homens. Está em cena o poder na sociedade, os seus pequenos meandros, os seus preços, por vezes vis.

 

Sei, a sua conclusão lógica, natural, é supor a existência, no texto da peça, de qualidades de elevada tessitura. Este é um ponto importante, como diriam os americanos: o texto é muito bom. A autora, Sarah Treem, estudou em Yale e demonstra a força da universidade americana para o domínio das regras do play-writing. O seu drama sentimental, colorido por leves nuances de comédia, possui uma elaboração formal rigorosa. A autora, ainda no início de uma carreira bem sucedida, já assinou peças dotadas de carpintaria sofisticada e séries para a televisão (The Affair, House of Cards). O centro de sua linha de trabalho consiste na exploração desta ideia preciosa, cara aos palcos dos EUA, de que o teatro deve ser um compromisso profundo com a existência de cada um, com a vida, com a intimidade, em sintonia com o mundo ao redor, por onde o eu circula.

 

Assim, além de personagens construídos com veracidade e força humana, ligados aos embates fortes do presente, os diálogos são eficientes, necessários, desenham uma linha de exposição de ideias paralela a uma trama emocional densa. Por este meio, o aparente exame de teorias atuais da biologia evolutiva, um debate vinculado a situações acadêmicas reais, contem uma rascante linha de pensamento sobre a mulher hoje. Além disso, a trama explora também, de forma sofisticada, uma inesperada relação de afeto entre as duas personagens.

 

O jogo parece simples. De um lado, uma mulher-cientista da geração libertária da segunda metade do século XX, emancipada ao ponto de renunciar à maternidade e ao ideal sentimental do casamento, premiada por ter concebido a “Teoria da Avó”, ela que jamais será avó. Diante dela, em confronto direto com as suas ideias, uma jovem autora defensora de uma possível teoria da menstruação como arma redentora das mulheres, em busca de sua identidade e de razões para enfrentar o mundo, em conflito com a própria história pessoal de adoção. A ideia da menstruação como arma biológica natural de defesa do organismo feminino foi realmente apresentada no meio acadêmico americano, por uma misteriosa estudante, Margie Profet. Também a “Teoria da Avó” lida com proposições concretas de pesquisa formuladas no meio acadêmico. Uma das belezas do texto é precisamente a forma ousada de misturar realidade e ficção.

 

A secura objetiva da peça levou o diretor Paulo de Moraes a assumir o desafio de encenar as palavras de forma direta, deliberada, opção a um só tempo corajosa e muito teatral. O projeto de direção exala beleza, em razão desta escolha – a cenografia (também de Paulo de Moraes) distribuiu no espaço cadeiras de diferentes estilos e formatos, alguns outros poucos móveis utilitários e uma fulgurante cômoda vermelho sangue.

 

A cena povoada por cadeiras, evocação lírica das cátedras das academias, recortada por uma movimentação matemática e sentimental das atrizes e pontilhada por palavras resplandece sob uma trama de focos de luz, urdida por Marcelo Quinderé. A aura de luz e sombra flutua no palco como se fosse uma rede sentimental transcendental, retrato das almas em diálogo. Figurinos realistas adequados (Desirée Bastos) e uma trilha musical (Bianca Gismonti) mínima, pontual, nervosa, completam o quadro de criação.

 

A ação acontece quase toda na casa-escritório de Zelda, às vésperas de um congresso científico importante. O primeiro encontro entre as duas basicamente contem a ação da peça. O segundo e último encontro, o desfecho, sugere acontecer num espaço social, um bar, um lugar neutro em que as contas são ajustadas e as diferenças expostas sem piedade. Há um sentimento intenso, forte, a respeito da aspereza da vida feminina no mundo, mas há humor, ironia, elegância de conceito e de visão.

 

Portanto, o convite é sutil – e irresistível. Você não pode recusar. O que nos traz o bom teatro americano, lição que precisamos incorporar, é esta ousadia delicada de pensar a vida corrente sem reservas, sem medo. Isto acontece quando o teatro se apaixona pela vida, a vida como ela é – e tenta dar um colo para nós, contemporâneos, pessoas do presente, sem se importar em tentar imaginar como poderá ser o nosso futuro. Sim, a vanguarda é essencial e necessária – mas não dá para viver sem o alento do teatro do verdadeiro instante, capaz de nos levar a namorar nossas encruzilhadas do dia-a-dia, purgar nossas pequenas dores e mergulhar na paixão pela vida.


Ficha Técnica
 
Texto: Sarah Treem
Tradução: Alice Steinbruck
Direção e cenografia: Paulo de Moraes
Elenco: Suzana Faini e Alice Steinbruck
Iluminação: Manéco Quinderé
Trilha sonora original: Bianca Gismonti
Figurinos: Desirée Bastos
Fotos e desenho gráfico: Fabiano Cafure
Coach Alice Steinbruck: Zé Wendel Soares
Coach Suzana Faini:ogério Freitas
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias
Marketing Cultural: Gheu Tibério
Assistente de Marketing Cultural: Andréa Tonia
Produção executiva: Carin Louro
Direção de Produção : Sandro Rabello

Serviço
“O Como e o Porquê” – Estreia nacional
Teatro Sesc Ginástico
Endereço: Av. Graça Aranha, 187 – Centro – Telefone: (21) 2279-4027
Estreia: 07/04 (quinta), às 19h.
Temporada até 1/05 (domingo).
Horários: quinta a sábado, às 19h. Domingo, às 18h.
Preço: R$ 5 (associados Sesc), R$ 10 (estudantes e idosos) e R$ 20.
Classificação: 16 anos
Duração: 80 min.
Gênero: Comédia dramática
Realização: Sesc.