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O cenógrafo do infinito poético

Como se fosse um velho quadro construtivista, a cena brasileira se veste de preto e branco, o preto do luto e o branco da limpidez da alma infantil. A cena lamenta a morte, ontem, de um artista de absoluta dimensão histórica, requintada capacidade poética, Hélio Eichbauer (1941-2018). Ele foi um cenógrafo poeta, um artista capaz de indicar com rigor e fantasia, a um só tempo, o sentido mais sofisticado da arte da cena.

 

Estudante de filosofia com interesse por artes plásticas e teatro, personalidade inquieta, Hélio Eichbauer optou pelo estudo da cenografia no início dos anos 1960, depois de conhecer o trabalho do cenógrafo Josef Svoboda na Bienal de São Paulo. A fascinação o levou para a Tchecoslováquia, para estudar com o artista. Lá, conquistou uma formação clássica, de visão rigorosa da arquitetura da cena, fundada no abstracionismo monocromático. Os estudos envolveram a criação de maquetes como ponto de partida, aliada aos exercícios de criação fundados na composição gráfica, no desenho e na escultura a partir de repertório dramatúrgico convencional.

 

Depois de estudar também na Alemanha, passar pela França e pela Itália, Hélio Eichbauer fez um estágio de um ano em Cuba, no Teatro Studio, com o diretor Vicente Revuelta, experiência que trouxe para a sua prática a revolução da forma e da cor, o sentido tropical do espaço, da linha e da luz. Ao chegar de volta no Brasil, em 1967, sob o rigor da ditadura militar, ele estava pronto para trabalhar a cena com uma criatividade cortante, em sintonia com o Tropicalismo. Criou, então, os históricos cenários e figurinos de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, no Grupo Oficina.

 

O escândalo provocado pela censura e pela explosão lúdico-criativa da cena de imediato projetaram a figura do cenógrafo no centro de efervescência artística mais ousada e fizeram com que assinasse uma lista considerável de trabalhos notáveis, numa linha radical de reinvenção da cena. A condição fez com que fosse convidado por Rubens Gerchman (1942-2008) para participar da criação da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no início dos anos 1970. Uma outra dimensão de sua carreira se afirmava – a do professor, dedicado a formar novos artistas, sob um ritmo acelerado de estudo e de pesquisa. Na sua concepção da arte, nenhuma acomodação às velhas soluções era aceitável.

 

O seu pensamento artístico era marcado pela generosidade, por uma profunda crença no potencial humano para poetizar a vida. Entendia a arte como uma atividade ligada à infância, considerava importante perceber que a criança nasce artista e arteira, capaz de transformar o mundo, livre para fazer do lixo brinquedo. Portanto, como todo ser humano um dia foi criança, foi um grande artesão artista, todo ser humano contém em si a criança que um dia foi: a possibilidade do artista. O dom da criação estaria em todos como forma original de olhar o mundo – bastava, assim, procurar o dom de cada um, reencontrar o que se foi.

 

A trajetória intensa de pensamento e de produção, a criação em estado de doçura existencial, transformaram Hélio Eichbauer num artista de dimensão poética muito precisa. Na sua obra, há o técnico, o engenheiro e o arquiteto, há o olhar exato frio disposto a extrair da materialidade o infinito poético sugerido pelo texto, pela obra. Em consequência, a cenografia pulsa como uma criação viva, uma forma poética lírica, algo que não se reduz a uma ilustração nem a uma sobreposição à cena. A sua obsessão era a de fazer aflorar o sentido profundo da obra, promover um extenso diálogo de arte, para levar o espectador a um novo mundo de percepções, onde poesia e capacidade de pensar estivessem articuladas em estado de reinvenção. Para a cena brasileira, a perda tem um impacto imenso – partiu para o infinito um grande mestre.

 
 

Pequena lista de grandes joias da cena assinadas por Hélio Eichbauer, cenógrafo medalha de ouro na Quadrienal de Praga:

Além da colaboração em shows de música popular, ao lado de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Marisa Monte, Gal Costa, colaboração no cinema, óperas e vídeos, com destaque a parceria com Glauber Rocha, criações para balés e exposições de arte, uma rápida listagem das obras teatrais precisa incluir:
O Rei da Vela, 1967, prêmios Governador do Estado de São Paulo e Associação Paulista de Críticos Teatrais, APCT.
Verão, de Romam Weingarten, direção de Martim Gonçalves, 1967, Prêmio Molière.
Antígone, de Sófocles, Grupo Opinião, Prêmio Molière de 1969.
A Viagem, adaptação de Carlos Queiroz Telles de Os Lusíadas, de Luís de Camões, direção de Celso Nunes, Prêmio Molière de cenografia de 1972.
Hoje é dia de Rock, de José Vicente, direção Emilio DI Biasi, Teatro Ipanema, 1973
Os Veranistas, Gorki, Teatro dos Quatro.
O Percevejo, de Vladímir Maiakóvski, direção Luiz Antônio Martinez Corrêa, em 1981.
A Tempestade, Shakespeare, direção Paulo Reis, pessoal do Despertar, 1982.
Grande e Pequeno, de Botho Straus, em 1985.
Macbeth, Shakespeare, direção Ulysses Cruz, 1992.
Péricles, de William Shakespeare, 1995.
Noite de Reis, de William Shakespeare, direção Amir Haddad, 1997.
Somos Irmãs, espetáculo musical de Sandra Louzada, direção de Ney Mattogrosso e Cininha de Paula, 1998.
As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, direção de Enrique Diaz, 1999.