O escândalo de Philippe Dussaert High-res version

Verdades de teatro

 
Um deus baixou no teatro e espera por você. Aproveite, desfrute as suas bênçãos, você vai ficar encantado. Ele está logo ali, no precioso templo teatral do Castelo, o Teatro Maison de France, o teatro mais elegante da cidade. Não perca, por nada deste de mundo: ir ao teatro vai ser uma experiência divina. O deus tem nome, sobrenome e uma notável carreira no teatro: Marcos Caruso.

 

A peça é O Escândalo Philippe Dussaert, de Jacques Mougenot. Contemporânea, ousada, ela escapa à simplicidade das velhas classificações de gênero dos manuais. Simula ser uma encenação-conferência, digamos. A rigor, é um ato do espírito, foi construída como uma espécie de fluxo mental iconoclasta, decidido a derrubar grandes certezas – em especial a certeza de que devemos acreditar em histórias bem contadas.

 

Vale alertar, não se trata de stand up comedy, não se iluda: não é nada disto. Há uma construção dramatúrgica rigorosa. A encenação segue um texto, mas tem a forma do teatro contemporâneo mais atual, misto de presença, performance e representação. Como o ator é exuberante, magistral mesmo, a sessão se transforma em ato de encantamento. Irresistível para quem gosta de arte, escandaloso para quem ama teatro.

 

E os motivos? Fácil, tanto o texto como a encenação oferecem tudo aquilo que o melhor teatro possui – belas ideias, arrebatamento, humor, a possibilidade de novas visões da vida e da sociedade. A ironia e a sutileza garantem o riso farto, como se fosse uma comédia muito espirituosa, atrevida mesmo. E, no entanto, o foco é sério, apenas a imoralidade das transgressões mais profundas, aquelas que afetam a ética, ignoram os valores básicos essenciais para a vida em sociedade. Transgressões contra todos nós, cometidas pela arte, em nome da arte.

 

A trama tem aparência singela, mas se torna bastante densa graças à reviravolta final, que não deve ser revelada – não conte aos amigos. Em linhas gerais, o host que nos recebe, algo entre o ator e a ficção, um mago manipulador da realidade, uma espécie de amante das artes, deseja nos contar com absoluto carisma, charme, elegância e inteligência, a história de um pintor obscuro francês.

 

O artista, Philippe Dussaert, nascido em 1947 e já falecido, teria conseguido o feito de se tornar, subitamente, na França, uma celebridade. E o segredo do seu sucesso teria sido a sintonia profunda com a arte conceitual, o discurso niilista da arte. Copista clássico de formação, começou a fazer quadros retratando as cenas do fundo de telas consagradas, o que justamente não se vê, até chegar ao ato mais radical, a própria supressão das telas, como se o gesto do artista, puro e livre, se bastasse e fosse um gesto de deus.

 

Este enredo, contudo, não fica distante no palco. Dinâmico, envolvente, sutil, Marcos Caruso possui o dom da comunicação e não hesita em demonstrar as suas habilidades, é um ator generoso, apaixonado por sua arte. O ponto de partida, irreverente, está determinado pelo texto, escrito e encenado na França por Jacques Mougenot: a ousadia consiste em sugerir um lugar de amizade, descontração, quer dizer, confiança, camaradagem. O impacto do original, as suas mais fortes questões, nascem do tom de transparência, credibilidade, formas fortalecedoras da fala do personagem único proposto.

 

A direção de Fernando Philbert revela uma profunda compreensão desta proposição. O ator ganha a confiança da plateia e leva a sua crença na encenação até as raias do absurdo. Para dimensionar o espaço informal, buscou-se o encontro direto das mentes, do palco com a plateia, a ruptura do teatro. Uma suposta não-representação é insinuada, algo como uma conferência amigável. Para tanto, o ator recebe o público na entrada, conversa, brinca, passeia pela casa – o teatro – antes de a peça começar. O figurino, de Natalia Lana, tem o tom exato, entre o informal e o elegante.

 

Iniciada a ação, Marcos Caruso domina a cena em estado de liberdade. O palco traduz com eficiência o lugar de uma possível conferencia de arte, povoado por elementos praticáveis, móveis: um banquinho, uma mesa e uma escultura ao fundo. Esta cenografia simples, mas engenhosa, de Natalia Lana, viabiliza a realização de projeções, essenciais para a conferência, e sugere o clima de arte, a cor do tema. Já a luz, objetiva, de Vilmar Olos, e as inserções musicais, hábeis, da trilha sonora de Maíra Freitas, sublinham a condição teatral da proposta.

 

O resto é o resto, é a libertação do cidadão frente ao rolo compressor do nosso tempo, tão pródigo em inabaláveis verdades provisórias. Como um deus, capaz de pontificar, erguer e desmontar imagens, certezas, raciocínios, Marcos Caruso nos envolve perdidamente, perdida a mente, de verdade. É um desvario hilário. Vale frisar e repetir: vá ver, é programa obrigatório, a sua vida vai ficar mais feliz.

 

A metralhadora do texto mira em todas as direções, acerta em tudo: a arte, os artistas, os turistas da arte, os críticos de arte, a imprensa, o público de arte, os marchands, a academia, os doutos e professores, os museus, os Ministérios da Cultura. Sim, é claro que os deslumbrados pela vanguarda sofrem mais: os americanos, os alemães, os israelenses e – não podiam escapar – os belgas, todos representados por seus milionários museus, capazes de comprar qualquer vento rotulado de invenção. Eles são os alvos maiores da imensa gozação.

 

Enfim, você não precisa ser devoto da religião da arte para gostar da peça, veja bem. A noite no teatro vai lhe oferecer um programa cultural refinado, elegante mesmo, capaz de agradar a qualquer cidadão de nosso tempo, qualquer criatura apta a viver o ritmo do presente e a desconfiar dos que se arvoram em deuses para enganar e trair, para falsear os valores mais profundos, essenciais à vida. Apesar das invencionices e das vanguardas, dos discursos de má fé que povoam o mundo, o bem geral e a verdade precisam ser valores primeiros, como, ao final, sustenta o deus ator Marcos Caruso, guia exemplar desta aventura pelos descaminhos doidos da arte contemporânea. O catecismo pregado por ele é o melhor de todos – é o catecismo precioso do teatro.


Ficha Técnica
 
Texto: Jacques Mougenot
Tradução: Marilu de Seixas Corrêa
Direção: Fernando Philbert
Interpretação: Marcos Caruso
Cenário e Figurino: Natalia Lana
Iluminação: Vilmar Olos
Direção Musical: Maíra Freitas
Vídeos: Rico e Renato Vilarouca
Fotos: Paula Kossatz
Assistente de Direção: Vinicius Marins
Direção de Produção: Carlos Grun – Bem Legal Produções
Realização: Galeria de Arte CorMovimento Ltda
Assessoria de Imprensa:: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Serviço
O Escândalo de Philippe Dussaert
Teatro Maison de France
Av. Presidente Antonio Carlos, 58 – Centro / RJ Tel: 21 2544-2533ESTREIA PARA PÚBLICO: dia 26 de agosto (6ªf), às 20h
SESSÃO ESPECIAL PARA CONVIDADOS: 31 de agosto (4ªf), às 20h
HORÁRIOS: 5ª e 6ª, às 20h; sábado às 21h e domingo às 18h INGRESSOS: 5ª e 6ª R$60,00; sábado e domingo R$70,00
Funcionamento bilheteria: de 3ª a domingo a partir das 13h30
CAPACIDADE: 353 espectadores
CLASSIFICAÇÃO: 12 anos
DURAÇÃO: 80 minutos
GÊNERO: comédia
TEMPORADA: até 18 de dezembro