Para malhar o coração e lavar a alma

 
Eu sei e você sabe que o coração precisa de exercício: é um músculo carente de malhação. Portanto, amigo, corra para o Sesc Ginástico – sim, o nome da casa é bem adequado ao caso. Lá, por um tempo breve, pois a temporada será curta, você poderá fazer uma imersão triunfal numa excelente oficina do coração. A revisão vai ser completa. O espetáculo Pagliacci, da Cia LaMinima, de São Paulo, vai espanar a sua alma, desenferrujar os seus sentimentos e reparar a vitalidade da sua engrenagem central.

 

É provável que você, amante de teatro, saiba do que eu estou falando, já tenha visto trabalhos da equipe. São vinte anos de atividade e – com licença de todos os palhaços teatrais magistrais brasileiros – este coletivo é o que foi mais longe na transgressão-cênico-lúdica, aquela arte radical tão atual, de embaralhar fronteiras. Dentre todos, eles conseguiram produzir a alquimia mais inefável das artes da representação.

 

Isto quer dizer que eles fizeram história na mistura apurada de teatro, circo, dança, música, performance e show. Agora, para ir ainda mais longe na ousadia, decidiram incorporar à função a ópera, o bel canto, a arte popular que acompanhou o nascimento do homem urbano ocidental moderno.

 

Portanto, a história agora se tornou muito séria, coisa de palhaço de alta graduação. E se você, espectador distraído, nunca esteve neste sublime spa do coração, nunca se deu o privilégio de ver esta trupe em atividade, o seu problema é grave. Corra mais rápido ainda: você vai ter vontade de voltar e voltar e voltar e voltar, para compensar a grande falha teatral da sua vida. Uma falha cômica.

 

Este é o grande truque. Sim, há um truque: como sempre acontece nos fatos de circo, a seriedade se torna graça para se tornar séria. O truque, aqui, é o teatro em estado puro – em estado tão puro, que ele se torna brincadeira, comédia, para ressurgir como inquietação existencial.

 

E o mais sério: a empreitada nasceu graças a muito trabalho. Em cena, há um projeto cultural autêntico, pensado e formulado nos mínimos detalhes, do menor gesto ao maior efeito. A proposta original, revolucionária, partiu de Domingos Montagner (1962-2016) e Fernando Sampaio, em 2016. A ideia era trabalhar a adaptação ou promover algum diálogo cênico-circense com a ópera I Pagliacci, de Ruggiero Leoncavallo (1857-1919) .

 

Apesar da morte trágica do grande ator, a companhia decidiu levar adiante o projeto. Sob a liderança de Fernando Sampaio e de Luciana Lima, produtora da companhia desde 2001 e esposa de Montagner, a aventura prosseguiu, perseguindo em profundidade a busca para mesclar linguagens, procedimentos, tradições.

 

Surgiu assim uma intrincada malha criativa. O ponto de partida é a própria identidade da Cia LaMínima, cuja base circense e teatral explora a arte do palhaço, contempla todas as artes do picadeiro, respira balé, pulsa música, palpita melodrama e circo-teatro. Para dirigir a criação desafiadora, o grupo convocou Chico Pelúcio, do Grupo Galpão, experiente mestre na direção de ator e nos procedimentos de criação coletiva.

 

Foi necessário, ainda, lidar com o fechamento da estrutura dramática, de razoável complexidade – função entregue ao consagrado dramaturgo Luís Alberto de Abreu. Obteve-se com ele um olhar sensível à vibração popular, mas em sintonia permanente com os procedimentos mais avançados do teatro contemporâneo, acadêmicos, inclusive, em particular com as formas narrativas, estratégicas para o trabalho teatral circense.

 

O resultado é um encanto permanente, um fluxo de invenção arrebatador, uma forma cênica ampla o bastante para acionar um extenso leque de emoções na plateia. E, em especial, para trabalhar o riso, sob infinitas formas – a representação provoca tanto o riso ingênuo, inesperado, quase infantil, como a risada franca, a gargalhada, o sorriso inteligente, a risada maliciosa, o riso de desencanto, a discreta ponta de amargura.

 

Para afinar o diálogo com a plateia contemporânea, foi feita alguma atualização da trama básica, de Leoncavallo, tributária da opressão feminina mais rústica vigente no século XIX. Assim, ao núcleo de personagens da ópera, predominantemente masculino, foi acrescentada mais uma mulher, Strompa, e toda a trama de afeto, estrutura central da ação, passou a envolver apenas os integrantes da trupe.

 

A história é simples, narrada por um velho bufão, Peppe, a cargo de Fernando Paz, um mestre de cerimônias preciso, compenetrado, responsável por ágeis intervenções circenses. Canio, um palhaço triste com sua arte, desenhado com requinte por Alexandre Roit, conclama vários palhaços solitários e fracassados a formar uma companhia para tentar mudar de vida. Ele pretende abandonar a velha palhaçaria e chegar a uma arte nova, de valores elevados, para agradar ao público e à crítica.

 

Cansado dos insucessos, ele encarrega Peppe de escrever um drama de elevada arte para apresentarem. E acaba por se encantar com a delicada Nedda, uma colombina etérea colorida com incandescente ardor de viver por Carla Martelli. Mas ela era amada em segredo, com delicadeza e fervor, pelo tímido palhaço Silvio, um vendaval de ações, sensações e sentimentos capitaneado com maestria pelo excepcional bicho de circo-teatro Fernando Sampaio. O seu trabalho deslumbrante impõe que se faça uma advertência veemente ao espectador: prepare-se para ficar sem fôlego, o homem é uma ameaça perigosa à tranquilidade pública.

 

Um casal bizarro completa a trupe – a impagável mulher selvagem Strompa, desempenho caricato requintado de Carla Candiotto, e o seu parceiro parvo, fortão e encrenqueiro, Tonio, atuação vibrante de Filipe Bregantim. Além de palhaços e mestres em várias habilidades de circo, eles são confidentes hábeis, ampliam as potências da trama.

 

Ao redor de todos, há um sentimento singelo de melancolia e tristeza, a vaga sugestão de que tudo, ali, é ilusão, apenas truque, artifício para driblar a danada da vida.Uma tênue linha separa a representação da representação na representação. A impossibilidade de deixar de ser palhaço ronda a cena a todo o momento, como se a vida não pudesse se tornar ofício sério.

 

Para estes tons, contribuem as cores e os desenhos da cenografia, de Marcio Medina e Maristela Tetzlaf, que materializam diferentes espaços de representação, mas, principalmente o circo. Um circo triste, mas um circo espaço dinâmico em que é essencial se manter em ação, para fazer jus à vida.

 

A ideia de que tudo é ilusão transborda dos telões pintados, evocação do teatro antigo e do teatro de circo. Eles acentuam a opção pela teatralidade ao registrarem, ainda, os rostos dos palhaços decisivos para a história da companhia, em destaque Domingos Montagner. A concepção do figurino, de Inês Sacay, lida com esta riqueza de nuances, traduz funções, situações e atmosferas.

 

Portanto, a cena se estrutura decididamente como sugestão de lugar mágico construído pelo gesto humano, impregnado de sentimento. Muito deste efeito de magia acontece sugerido pela luz, de Wagner Freire – além dos focos e fachos de luz essenciais para sublinhar a ação, há um bordado de tons e efeitos de grande eficiência para a indicação da partitura sentimental.

 

Outro tanto da mágica nasce da extrema riqueza musical do espetáculo. A direção musical e a música original, de Marcelo Pellegrini, funcionam no sentido de estruturar a ação e sugerir tons emocionais, sem efeitos decorativos ou gratuidades. Seguem o princípio da sintonia e da coerência cênicas – assim, são incorporados de forma orgânica o fluxo criativo dos atores, o andamento da cena, o desenho da ação, as referências da ópera.

 

A longa ficha técnica atesta a grandeza do trabalho e, no palco, o resultado obtido revela a generosidade absoluta da proposta, um ato de doação intenso, sublime, caloroso, preocupado em trazer, hoje, aqui e agora, as forças mais profundas de estruturação sentimental do humano.

 

Você vai ver, se entregue, vale a pena. A cena agarra a sua alma com muita força, surpreende em você a meninice que nunca morreu, sacode a adolescência sonhadora e flerta com o adulto idealista. Noviço ou macaco velho de palco, não importa: você vai sair do teatro flutuando, coração renovado. E sentirá um desejo profundo, sincero, de voltar. Você vai querer voltar sim, para ter certeza de que os seus olhos de hoje viram mesmo a imensa fortuna humana que há em cena para este turbilhão de formas que – todos sabem – é você. O melhor teatro é este, o que nos prova que o ser humano tem coração. E, banhado em arte, tem cura.

 

Ficha Técnica
 
CONCEPÇÃO: Domingos Montagner e Fernando Sampaio
TEXTO E ADAPTAÇÃO: Luís Alberto de Abreu
DIREÇÃO: Chico Pelúcio
DIRETOR ASSISTENTE: Fabio Caniatto
DIREÇAO MUSICAL E MÚSICA ORIGINAL: Marcelo Pellegrini
ELENCO/PERSONAGEM:
Alexandre Roit / Canio
Carla Candiotto / Strompa
Fernando Paz / Peppe
Fernando Sampaio / Silvio
Filipe Bregantim / Tonio
Carla Martelli / Nedda
ILUMINAÇÃO: Wagner Freire
CENOGRAFIA: Marcio Medina e Maristela Tetzlaf
FIGURINO: Inês Sacay
ADEREÇOS: Cecília Meyer
VISAGISMO:Simone Batata
PINTURA ARTÍSTICA DOS TELOES: Fernando Monteiro de Barros
ASSISTENTE DE PINTURA: Jonathas Souza Braga
COSTUREIRAS: Benê Calistro, Célia Calistro e Cidinha Calistro
DIREÇÃO DE PRODUÇAO: Luciana Lima/ Produção executiva: Priscila Cha
ADMINISTRÇÃO:: José Maria (Nia Teatro)
ASSISTENCIA DE PRODUÇAO E ADMINSITRAÇÃO: Chai Rodrigues
ASSISTENCIA DE PRODUÇÃO: Karen Furbino
PROGRAMAÇÃO VISUAL:: Sato Brasil e Murilo Thaveira (Casa Da Lapa)
FOTOS:: Carlos Gueller e Paulo Barbuto
SUPERVISÃO GERAL:: Fernando Sampaio e Luciana Lima
REALIZAÇÃO temporada RJ:: SESC Rio
ASSESSORIA DE IMPRENSA: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
FICHA TÉCNICA MUSICAL:
MÚSICA ORIGINALMENTE COMPOSTA E ARRANJOS:Marcelo Pellegrini
PRODUÇÃO MUSICAL:Surdina
MÚSICOS: Gabriel Levy (Acordeon), Luiz Amato (Violino), Adriana Holtz (Violoncelo), Maria Beraldo Bastos (Clarinete), Rubinho Antunes (Trompete), Paulo Malheiros (Trombone), Tuto Ferraz (Bateria), Pedro Pastoriz (Banjo), Ronem Altman (Bandolim) e Leonardo Mendes (Guitarra)
PROJETO DE SONORIZAÇÃO: Bruno Pinho
MÚSICAS INCIDENTAIS ADICIONAIS:“Intermezzo” e “Vesti la Giubba” da ópera “Pagliacci” (Rugero Leoncavallo), “Preludio – Ato I” da ópera “La Traviata” (G. Verdi), “Coro di zingari” da ópera “II Trovatore” (G. Verdi), “Preludio – Ato I” da ópera “Carmen” (G. Bizet), “Valsa – Ato I” de “Coppélia” (L. Delibes) e “Minha Vontade” (Chatim)
ELENCO / INSTRUMENTOS:
Alexandre Roit / Flauta, Trombone, Piano de Garrafa e Percussão
Carla Candiotto / Acordeon e Percussão
Fernando Paz / Serrote, Trompete e Acordeon
Fernando Sampaio / Sousafone, Concertina, Piano de Garrafa, Teclado de Buzina e Percussão
Filipe Bregantim / Saxofone, Piano de Garrafa e Percussão
Keila Bueno / Voz e Percussão

Serviço:
ESTREIA: 23 de novembro (5ªf), às 19h – TEMPORADA: até 17 de dezembro
LOCAL: Teatro SESC Ginástico – Av. Graça Aranha, 187 – Centro / RJ Tel: (21) 2279-4027
INGRESSOS: R$30,00, R$15,00 (meia) e R$7,50 (associado Sesc)
HORÁRIOS: quintas, sextas e sábados às 19h e domingos às 18h
HORÁRIO BILHETERIA: de terça a domingo, das 13h às 20h
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 anos / CAPACIDADE: 513 lugares / GÊNERO: Comédia / DURAÇÃO: 90 min /