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Alma carioca: Rio de Jane

 
Atenção, nem tudo está perdido, ninguém precisa sofrer feito alma penada com saudades da ensolarada Cidade Maravilhosa de um outro tempo, soterrada no Rio de Atoleiro do presente. Bobagem, é fácil recuperar a energia carioca esmaecida: vá ver Jane Di Castro na Sala Baden Powell. A artista reapresenta, em curtíssima temporada, o show-performance Passando Batom, um sucesso dos anos 1980 revisitado.

 

Descontraído, simples, informal, mas chique, iluminado por legítimo brilho interior, o espetáculo é opção certa de bom divertimento para quem ama o Rio. Ele é a cara da cidade, traz a velha alma de luxo de volta. Está em cena o olhar irreverente para a vida, o jeito charmoso de ser, o gosto pelo papo inconsequente, a mania de jogar conversa fora, o impulso dramático, as confidências discretas e bem humoradas, a vida de luz sem preconceito e de bom humor, coisas que tecem o perfil do cidadão carioca, segundo a tradição.

 

E ainda há muita música, pois ela canta sob este mesmo espírito, bem carioca, entre o despojado, o exagerado, o sentido e o brincalhão. Ao contrário dos velhos procedimentos dos shows de travesti, a música é ao vivo, sem playback, uma conquista importante para a linha de trabalho.

 

Sob a direção de Ney Latorraca, diretor também da primeira montagem, a artista aposta na teatralidade simples, direta, na exposição de sua capacidade de sedução e na exploração de sua intensa expressividade física – gente, ela é quase uma força animal. Solta, espontânea, sem pudor, senhora de gestos intensos e bem desenhados, ela calcula o impacto de cada movimento, com aguda percepção do tempo cênico e do equilíbrio entre palavra, canto e marcação. Evoca grandes divas do passado, em particular Marta Rocha e Marilyn.

 

De certa forma, Jane Di Castro brinca com a aura de sedução que envolve a cidade, aposta irônica na crença de que existe aqui uma vitrine de maravilhas, condição que tornaria todos nós, cidadãos, namorados do mundo, gente para ser admirada e amada. Explora segredos, enfim, que só os cariocas conhecem. E namora a plateia, descaradamente – dialoga com o público, lança desafios, estimula a cantoria. Como reza o figurino da cidade, não há como ficar indiferente, uma curiosa comunhão urbana acontece.

 

Sim, trata-se de uma performance – e a definição contemporânea de performer se ajusta às mil maravilhas à arte de Jane Di Castro. A proposta apresenta um acabamento formal bem resolvido, derivada em parte do cenário de Claudia Phoenix. O palco abriga os músicos, com quem a artista interage, em especial com o regente Guilherme Lara, sugere algo da cena de show, através de cortinas esvoaçantes e brilhantes, e acena com um esboço de intimidade, a partir de uma penteadeira maquiadora repleta de batons.

 

O batom, este curioso gênero de primeira necessidade do cotidiano feminino, figura como eixo propulsor da apresentação. Fascinado pelos batons de sua mãe, o menino Luiz de Castro descobriu a sua identidade mais profunda graças a eles. E agora, na pele e na boca de Jane Di Castro, desenhada, aliás, com irresistível tom vermelho, conta as lutas, as surras, os preconceitos absurdos, os desencontros e as vitórias e realizações de uma vida agitada mas, ela faz questão de frisar, feliz, sem ressentimentos.

 

Da luta desde o subúrbio, Oswaldo Cruz e Bento Ribeiro são os seus bairros de origem, até o presente em Copacabana, são muitas as histórias, histórias de uma vida intensa e corajosa. Cativante, Jane Di Castro não conta a sua vida para se lamentar, se vangloriar ou se erigir em monumento – a fala existe para louvar o encanto de viver, impulsionar o outro a mudar o seu olhar para o mundo, sentimento prolongado pelo canto. Como uma deusa carioca, ela exalta a nossa forma de ser, para cima e solar.

 

O figurino, de Eloína, – dois vestidos estonteantes, mais adereços à altura, bem concebidos para sublinhar o porte da estrela – colabora de forma efetiva com este conceito. Vestida de noite, faiscante, de vermelho e depois de preto, ela localiza a sua fala no lugar de uma festa.

 

A festa vem à lembrança também por causa do roteiro musical escolhido. De saída, a banda executa Superstar, de Roberto e Erasmo, sucesso de Erasmo Carlos: a dica está lançada para definir a dona da cena. A seguir, a entrada da atriz funciona como um manifesto – Yo viviré, sucesso de Celia Cruz, versão de Gomez e Oscar Juan para I will survive, de Fekaris e Perren. O tom é de exaltação à força de luta necessária ao indivíduo para a realização de seus sonhos, como o turbilhão típico das festas. E se prolonga em Metamorfose Ambulante (Raul Seixas) e em Balada do Louco (Arnaldo Baptista, Rita Lee).
Para evocar a carreira internacional arquitetada por Jane Di Castro por algum tempo, figuram músicas do repertório de Sinatra, Louis Armstrong, Piaf. Mas sem esquecer a louvação às nobres terras suburbanas, registrada em Estrela de Madureira (Acyr Pimentel e Cardoso), homenagem emocionada à vedete Zaquia Jorge, personalidade cintilante da história do bairro. Várias são as histórias divertidas da iniciação em teatro, da vida profissional e sentimental.

 

O show termina com um número de encerramento nobre. A plateia faz coro. A casa vibra: é um hino, Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro. A escolha celebra o bairro do coração da artista. Aqui ela até se tornou síndica, autoridade bem sucedida do prédio em que mora, situação eficiente para traduzir o ponto nevrálgico para onde o espetáculo aponta.

 

Copacabana, princesinha do mar, persiste pulsando como o coração do Rio, cidade mestra em estimular a arte de bem viver. Mesmo com muitas agruras, barreiras e buraqueiras (simbólicas ou nem tanto…), Jane Di Castro expõe exuberante numa cena singela a graça maior que recebemos: não é a cidade que é boa, viver é uma maravilha, ensina a velha capital. A atitude é tudo.

 

Ainda que voltado para a trajetória da atriz, Passando batom não é uma autobiografia, mas uma aula de vida impregnada pelo espírito da cidade. Dá para sair do teatro feliz. A escola em que ela aprendeu a lição, você conhece bem, tem um nome curto e simples que se espalhou pelo mundo – sim, é o nosso velho e sofrido Rio. De Jane e de Janeiro.


Ficha Técnica
 

Texto: Ney Latorraca e Jane Di Castro.
Direção Geral: Ney Latorraca
Com: Jane Di Castro.
Direção e roteiro musical: Guilherme Lara.
Cenário: Claudia Phoenix.
Figurinos:Eloína
Fotografia:Daniel Marques.

Serviço
Dias: 24, 25, 26 , 31 de julho e 01 e 02 de agosto.
Sala Municipal Baden Powell – Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 360. Telefone: (21) 2255-1067.
Duração: 80 minutos.
Sexta e sábado às 20h e domingo às 18h30m.
R$ 40,00 – inteira; R$ 20,00 – Meia-entrada.
Classificação etária: 16 anos.