roberto carlos 2014 High-res version

A ARTE DE CANTAR E A COLETIVA DE ROBERTO CARLOS

 
O show de estreia de Roberto Carlos no Projeto Emoções em Alto Mar 2014 fez jus ao nome do passeio musical: foi uma enxurrada de emoção pura. A novidade apresentada pelo rei, capaz de ser reconhecida pelos fãs mais atentos, foi a sofisticação do desenho musical atual da apresentação. Vale destacar que este formato não conta, na ficha técnica, com um diretor artístico geral – portanto, o mérito pela grandiosidade do que se viu e, em especial, se ouviu, cabe à dobradinha bem resolvida do maestro Eduardo Lages com o cantor Roberto Carlos. E de saída, é preciso reconhecer, fica patente a genialidade do maestro, com belas soluções musicais, variações temáticas de grande riqueza, um banho sonoro. A banda deu uma guinada decidida para a celebração da música, conciliando os matizes sentimentais essenciais da arte do cantor compositor com arranjos elaborados. Ao mesmo tempo, manteve-se o requinte de iluminação, comandada do palco em vários momentos pelo próprio artista.

 

Mas não é esta face renovada da arte de Roberto Carlos a única novidade a bordo do Projeto Emoções. Esta edição, histórica de saída por ser a décima, será celebrada ainda por várias outras razões. E elas foram divulgadas durante a coletiva de imprensa, realizada neste domingo, no Teatro Platinum do navio MSC Preziosa.

 

Vale um destaque importante – a concepção da coletiva foi muito bem resolvida, estruturada para privilegiar a informação e dar pleno acesso à palavra. Em uma via de mão dupla, foram divulgados os novos projetos e ouvidos os representantes da imprensa nacional, com um lugar ao fim para a palavra dos fãs. Conforme ressaltou o repórter Alex Sandro de Souza, do site repórter.com, que desejava saber a opinião do Rei sobre a inquietação popular que varre o país, Roberto Carlos concede um raro espaço de respeito ao exercício da profissão de jornalista.

 

A observação faz justiça à rotina das coletivas anuais. E não poderia ser de outra forma, aliás. Há uma grande coerência na atitude do poeta, cuja arte canta a expressão lírica mais livre do ser humano, em relação ao direito à manifestação plena da opinião, no interior da ideia de consagração da integridade do indivíduo. Por isto, Roberto Carlos declarou apoiar o clamor de mudança do país, mas com respeito aos direitos individuais, preservação da vida e do espaço dos jornalistas, após a chocante agressão contra o cinegrafista da Rede Bandeirantes.

 

De acordo com esta concepção do direito de expressão, houve organicidade na escolha de Miele, o decano dos mestres de cerimônia do país, para conduzir o encontro. Exemplo de espírito livre bem humorado, ele conciliou objetividade e bom humor. Na primeira parte da coletiva, desfilaram os anúncios das novas propostas. O primeiro já se podia prever, foi o lançamento do Projeto Emoções em Alto Mar 2015, acompanhado por vídeo.

 

O segundo anúncio já estava em veiculação discreta, a reedição da ideia de show musical turístico, internacional, o encontro do cantor com a efervescência norte-americana, no projeto Roberto Carlos em Las Vegas, previsto para setembro de 2014, também apresentado em vídeo.

 

A notícia seguinte, novidade quente que andava pelos ares, causou sensação, a sua enunciação plena provocou um enorme burburinho por toda a plateia – o livro dedicado ao cantor, editado sob sua supervisão direta. Afinal, no proscênio, lugar nobre do palco em geral ocupado pelos cantores, o grande volume estava exposto em um pedestal para a admiração coletiva. O editor Pedro Sirotsky, da Toriba Editora, foi ao palco detalhar o projeto e descrever a publicação.

 

Trata-se de um livro de colecionador, uma obra de arte, elaborado segundo requintados processos de produção – desde o grande formato, a qualidade especial do papel, o requinte da impressão, o estojo de luxo, até a qualidade das fotos e o conceito da edição. Sim, não é o livro relato-biográfico dos sonhos do fã-clube, um desejo ardente que não se sabe quando será saciado. Este outro volume, de cunho mais popular, deverá vir a público não se sabe quando – ainda está em gestação, segundo esclarecimentos do cantor aos jornalistas, na entrevista que se seguiu. Resta o consolo de ter –ou contemplar – o livro tesouro afetivo de agora.

 

Portanto, é preciso refrear o desejo de ler sobre a a história da arte e a história da vida de Roberto Carlos. Por enquanto, em lançamento restrito, no navio, e lançamento oficial em abril, no aniversário do Rei, o que se pode ter é uma joia editorial preciosa, um deslumbramento em imagens e letras de canções, uma espécie de escultura em papel da arte do cantor. Detalhe nada pequeno: o livro terá uma edição única numerada de três mil exemplares, sem reedição ou reimpressão. E o preço, em princípio, mergulha no universo do proibitivo para várias faixas de consumo – está ao redor dos quatro mil reais, ainda que o montante possa ser parcelado.

 

Assim, o frisson que marcou o início da coletiva – o momento mágico em que as portas do teatro se abriram e os fãs privilegiados, sorteados na manhã do evento, entraram pela plateia ansiosos para obter bons lugares – se prolongou facilmente pela tarde. A fala habilidosa do editor Pedro Sirotsky, pela primeira vez vivenciando o Projeto Emoções, colaborou muito neste sentido – de saída, destacou a alegria dos fãs e identificou-a com a atmosfera das “velhas tardes de domingo.” A conclusão da analogia levou o fã-clube ao delírio, pois ele não hesitou em afirmar: “…aqueles que faziam a alegria de outrora eram vocês!”… Em seguida, o empresário se revelou como bom comunicador – ou propagandista: decidiu abrir o livro e mostrar algumas páginas, gesto que amplificou a euforia da plateia de admiradores.

 

Para fechar o primeiro núcleo, a grande novidade do encontro – Leonel Andrade, presidente do Smiles, famoso programa de milhagem, subiu ao palco para divulgar a assinatura de contrato com Roberto Carlos, uma associação firmada para garantir descontos e vantagens para os fãs do artista, o primeiro no mundo a usufruir de tal condição, ao que se tem notícia. Depois de comentar as atrações que comandará a bordo, Miele passou o bastão de comando para o jornalista Leandro Gomes, para a condução objetiva da coletiva de imprensa, ao lado de Rogério Alves e Maurício Aires.

 

Jornalistas do radio, da televisão, veículos impressos e virtuais expuseram ao microfone as perguntas mais variadas a respeito do momento atual do cantor, da sensibilidade nacional e do país. Não faltou a tradicional indagação sobre um possível novo amor – e na rotina do navio, muitas fãs suspirosas comentaram a aparência do Rei, marcada por um ar entre etéreo e feliz, clássico sinal do apaixonado – respondida prontamente com uma negativa. Roberto Carlos não está namorando – ou não está preparado para assumir compromisso…

 

Também foi esmiuçada a participação de Roberto Carlos na edição do livro luxuoso, um trabalho cuidado e detalhista que implicou em longo prazo de preparação. Foi possível esclarecer o fato essencial de que o livro é um grande álbum ilustrado, não uma biografia, mas mesmo assim todo o material passou por sua supervisão, coisa que, no seu entender, nem seria necessária. Várias perguntas provocaram certo clima exaltado, de saia justa, com reações do público, e englobaram a indagação inocente sobre a intimidade cotidiana do cantor-marujo, as fofocas a respeito de namoradas famosas e, afinal, a recente polêmica a respeito das biografias não autorizadas.

 

Calmo, lúcido, transparente, Roberto Carlos conduziu as respostas como se singrasse um mar de almirante. Voltou a sustentar o seu ponto de vista a favor das biografias não autorizadas, desde que haja um equilíbrio saudável entre a privacidade e a liberdade de expressão. Franco, observou o fato de se considerar – como qualquer mortal – senhor de sua história, da história que viveu, portanto uma vivência criada por ele próprio, de sua propriedade, destinada a ser comercializada sob sua responsabilidade e não por outra pessoa. Apesar de reconhecer duas frentes no caso – a questão da privacidade e a questão mercantil, o cantor contestou mais uma vez a versão de que proibiu a biografia não autorizada escrita recentemente por razões comerciais. E voltou a afirmar a sua discordância a respeito de fatos e de versões de fatos incluídos no livro.

 

Passada a turbulência, acenos alegres: a possibilidade de um novo disco de inéditas, a explicação de que o show de Las Vegas foi uma ideia do empresário Dody Sirena, que, ao seu lado na mesa, explicou um pouco mais a ideia, a abertura para vir a colaborar num espetáculo musical biográfico em sua homenagem, a revelação de que sim, está escrevendo a própria biografia, muito embora em ritmo não de aventura, mas antes muito contemplativo, pois ainda está nos 25 anos…

 

E, claro, as falas encantadoras de sempre, banhadas no eterno sorriso de menino levado, inclinadas a fazer a plateia mergulhar em um estado de graça pagão. Aprovou o beijo gay da novela da Globo: “Elegante, não me chocou, vejo as coisas com muita naturalidade, quem se ama, se beija na boca, os gays têm direito à felicidade.” Não há dúvida de que está diante da imprensa e do seu público o grande cantor romântico, sempre disposto a olhar a vida pelo filtro do amor, amistoso em relação aos companheiros do Procure Saber, dos quais não se sente tão afastado como alguns jornalistas divulgaram.

 

A tarde se vai inefável, a entrevista é concluída de forma festiva, com as respostas a perguntas de fãs formuladas previamente via internet. Diante delas, duas certezas: o bom humor, a atitude feliz diante da vida. E o jeito sonhador de ser, do sonhador que sonha acordado e acredita que é fundamental lutar pelos próprios sonhos, pois o impossível é só alguma coisa que demora um pouco mais para acontecer.